O Boitatá acende o seu lume em Volta Redonda – Revista da Semana, 1943

Texto esquizofrênico do jornalista Anselmo Macieira – que viria a se tornar assessor do Senado poucos anos depois – na edição de 12/06/1943. Em um elogio ao progressismo de Vargas, que investiu na indústria, trabalha a metáfora do Boitatá como uma volta às origens da pujança do brasileiro. No entanto, o artigo inteiro trabalha a ideia de que as origens e a vida pacata do caboclo são opostas ao futuro moderno e militarista. Fica pela curiosidade.

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Por Anselmo Macieira

Quem abandona a faixa litorânea, quem deixa atrás de si o perfil geométrico dos arranha-céus, os ruídos cosmopolitas de uma civilização alienígena – e penetra o continente – cedo ouvirá coisas do boitatá; “…o compadre não viu o ‘bicho’ na encruzilhada da Tapera?”. “Aquele desaparecimento misterioso do padre Antonio?”. Não tem dúvida, é ele. É o Boitatá, que ainda percorre os caminhos sertanejos, deixando um rastro de fogo nas noites mortas. Fugiu das cidades porque as luzes o espantam e o barulho o aborrece. De resto, nada mais teria a fazer nas cidades. Ele é o gênio protetor das florestas, é o espírito diabólico que conduz aos atoleiros e aos abismos todos os que lavram o incêndio sobre o campo e destroem as matas. A terra guardando seus tesouros, resguardando as verdes catedrais em cujos rios se batizaram os filhos da Grande Raça.

O caboclo sabe de sua existência. Compreende o boitatá; O caboclo também ama sua terra, ama ferozmente este solo que está sob seus pés; ama seus rios, suas florestas, seus horizontes. Dorme nas suas veias a ressonância atávica dos sangues que vieram de longe; e flutua uma grande tristeza nos seus olhos mansos. A saudade é uma doena. Ela sente a nostalgia imprecisa do berço da pátria de seus maiores, donde, um dia, desceu o povo inquieto para a ventura bárbara nas planíces do litoral…

Enquanto os moleques dormem nas esteiras rústicas e só a brisa agita, de leve, o silêncio, ele “acende” os ouvidos, encosta-se atrás da porta da noite – e escuta. O desfile fantástico dos gênios da selva. Desde o tropel forte do caititu, até o passo ligeiro do saci. E esses passos trazem uma mensagem ao seu coração. Que importa o tempo, que importam os séculos? É como se escutasse a voz das próprias origens. Bem sabe que os outros não acreditam, que os outros não vêem, não ouvem nada, mas isto não o preocupa. Um dia, despertarão as multidões sepultas um dia ressuscitarão as alegrias extintas. O boitatá apontará, com a sua espada de fogo, o caminho estupendo da conquista. Plantará o seu lume entre os homens. Ao redor desse fogo, entoaremos o cântico da vida nova. O brado de guerra de um povo que tomou conta de seu destino.

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A Usina Siderúrgica de Volta Redonda assinala a emancipação material do brasil. Permitirá que forjemos trilhos para nossas ferrovias, máquinas para nossas lavouras, armas para nosso exército, navios para nossa marinha.

Apoderando-nos do território pátrio, com o aumento das vias de comunicação; arrancando um maior rendimento do solo graças ao progresso dos métodos de cultivo e defendendo melhor as riquezas nacionais, auxiliados por um exército moderno e eficiente – sairemos, de uma vez, dessa rotina econômica em que vínhamos arrastando até há pouco.

A velha tradição de “país essencialmente agrícola” desapareceu. Se o solo fecundo constitui uma sugestão à atividade agrícola, isso não impede que cuidemos, ao mesmo tempo, da formação de um grande parque industrial. Só através de uma poderosa indústria, os estados modernos conseguem atingir a plenitude nacional. Não basta “sustentar” princípios. É necessário “produzir” riqueza.

Onde reina o pauperismo, onde campeia a miséria, os mais belos princípios são inócuos e o povo sempre está insatisfeito. “Governar” é hoje, mais do que nunca, “fomentar” a produção da riqueza, dentro do âmbito dos interesses máximos do Estado.

O “porque-me-ufanismo” vem sendo um mal e, entretanto, encerra uma verdade. O brasil é um dos países mais ricos do mundo. Esta circunstância, porém, não justifica um deslumbramento em face de nossas possibilidades. Um povo que espera pela sua redenção econômica e não dá um passo no sentido de precipitá-la é um povo fadado ao declínio. Porque não avançar é implicitamente “regredir”.

A terra…

“…a terra em si é de mui bons ares, assim frios e temperados, como os d’entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora assim os achávamos como os de lá: as águas são muitas, infindas; em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem”.

Mas aconteceu exatamente que não quisemos aproveitá-la. O “plantando dá” define a mentalidade da nossa gente. Uma gente que “não planta”. Que preferiu perpetuar, através do tempo, o entusiasmo do velho Pero Vaz de Caminha – em vez de lançar as bases de um vasto programa de organização e de construção. Pois as gerações vindouras só poderão colher se as gerações atuais souberem semear.

Esse programa foi traçado e está sendo empreendido pelo Governo do senhor Getúlio Vargas.

O antigo pretexto de que nossas condições financeiras não permitiriam a instalação de uma indústria pesada, foi removido com o gesto do verno, negociando a cooperação material de um país amigo. Se fossemos esperar pelos nossos próprios recursos, permaneceríamos toda vida num círculo vicioso. E todo progresso econômico, toca ascensão política deriva, antes de mais nada, de um ato de “audácia”. Aliás, tal política não vem mais do que confirmar o adágio que por aqui circulava nos tempos vetustos do Brasil-colônia: “Quem quiser o Brasil do brasil, traga o Brasil para o Brasil…” (quem desejasse obter riqueza em nosso País – o pau brasil, particularmente – deveria inverter capital – o escravo negro – na exploração).

Ninguém mais duvida de Volta Redonda. Os enormes edifícios de suas usinas já se encontram de pé. Uma população esfervihante, possuída de uma verdadeira ânsia criadora, emprega-se na construção da cidade. Tudo isso é admirável. Significa uma era nova para nós. Dir-se-ia que retornamos, em boa hora, à tradição de Mauá.

Frei Vicente do Salvador já afirmara, no seu tempo, que o Brasil tinha a forma de uma harpa. No entanto, agora – só agora! – arrancaremos dessa harpa a música triunfal de uma vitória. Uma auto-vitória contra os males de origem.

O boitatá vai acender o seu fogo perto do mar. Nos altos fornos, fundiremos instrumentos de trabalho e de guerra. Assim, guardaremos o patrimônio que o destino confiou. Há uma marcha para o Oeste que deve ser empreendida… ao contrário. É a reconquista do País, pelo espírito do Brasil imortal. É o retorno às origens. Que a nação compreenda: estamos em face de uma redenção nacional.

O boitatá vai acender o seu lume em Volta Redonda.

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