Tio Chico e o Saci Pererê – Revista da Semana (1942)

A edição especial de aniversário da Revista da Semana, de 20-06-1942, trouxe um texto curioso e bizarro. Um conto que acompanhava uma cifra de música para acompanhar a história da aparição de um saci nas memórias de um ex-escravo. Da metade para frente, vira uma reflexão racista e leniente sobre um suposto país em igualdade. Vale pontuar que o Tio Chico, do título, provavelmente não era o nome verdadeiro do protagonista. Era prática comum chamar negros e negras nas fazendas de Pai Francisco e Tia Maria, negando a eles até mesmo um nome próprio. Confira abaixo o texto na íntegra por curiosidade.

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Por Radamés Mosca (adaptação de um tema de Rui Camargo)

Sol escaldante. Meio dia. A baixada está quieta. No aclive do morro, todo cercado de pau-a-pique com porteira pintada de branco, modorra bem distinto o velho solar, ladeado de curral e paiol. Ao fundo, o engenho e o alambique, onde escravos suarentos amontoam cana raspada. A garapa azeda que o mormaço fermentou impregna o ambiente em mistura com o cheiro de guaxima. Além o campo extenso e amarelecido pelo outono, está crivado de cupins heterogêneos. Um crioulo esbelto atravessa rápido o terreiro…

— São Cristo, sinhô!…

— Deus te abençoe!… Que é que há!?…

— Mãi-maria teve criança
…………………….

E tudo voltou à sonolência anterior. Os vagidos do negrinho não alteraram o ritmo quieto e suarento da fazenda Cedro Velho

……………………

Cem anos passados. Tudo fizera o seu tempo. Tio Chico também, um século no lombo estigmatizado, a evocar cenas cromáticas, fatos característicos cheios da mesma quietude e calor de então ou de pânico e calafrios:

— Saci!… Saci-Pererê… Saci-Pererê!

……………………

Saci, negrinho duma só perna, vivia assustando escravos, atropelando criações!… Batia porteiras, movia o monjolo. Quando não, postava-se por detrás das moitas e, ao passar alguém, saia na disparada. Muita gente vira no inhamal (vira mesmo!…) a cabecinha de baeta encarnada do traquinas, a piar como inhambú… Como bácoro a grunhir… A balir como ovelhinha desgarrada!… Nas senzalas, saci emborcava gamelas… Esparramava farinha de mandioca atirando peneiras contra o terreiro… O diabo!…

O filho do Pai-joão, caboclo forte e destemido, apalermara-se de uma feita ao defronta-lo numa touça de bananal, de onde o “maligno” surgira de repente, a saltar em direção à capoeira próxima…

— Saci!… Saci-Pererê… Saci-Pererê!

Ecoara o grito forte na fazenda. “Alguém”, porém, pusera termo ao clamor…

Nhá Rosa, que se postara a porta da palhoça e ouvira também as galinhas de perto cacarejarem assustadas, pensara logo no “filho do anhangá!” Vira mesmo uma coisa escura se mexer no mandiocal. Correra ao quarto e voltara num instante de espingarda em punho. Sem mesmo fazer mira, tomada pelo terror, Nhá Rosa desfechara um tiro a esmo contra o vulto. O estampido reboara longe no outro morro. E no matombo esvaíra-se em sangue um ser humano! Nhá Rosa acorrera a ele e, com espanto, reconhecera o filho de Sabina: Raimundo!…

– Tava môto o saci… Declamava tio Chico, de vagar e com expressão indescritível. A seguir, para pintar mais vivamente a narração, entoava rápido, quase festivo:

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Parece que o canto excitava tio Chico mais e mais à passagens remotas de sua escravidão. Do que sofrera, de como procediam os senhores de engenho com os pretos retintos trazidos de longe até o Treze de Maio.

— Na festa do boricão, nêgo véiu tocô caxá-taró treiz dia e triz noite sem pará!… Despôi, nêgo véiu tabaiô pá munta gente!… Néto di sinhô também quiz nêgo véiu di seu rado! Mai só pá cuidá di hóta e di garinha… No pesado nêgo véiu já nem pôde tabaiá…Nem pode Mêmo… – hê hê.

……………………

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E lá ficava ele a repetir as suas histórias e as suas estrófes que se perdiam remotamente!
……………………

Quantas e quantas vezes você, tio Chico, foi levado ao tronco injustamente…

Você, tio Chico, foi mal compreendido nesta terra, bem o sabemos…

Os brancos do seu tempo, tio Chico, nem sequer sabiam do instinto dos que vinham traficados d’além-mar!…

Mas não importa, tio Chico!

Quase todo mundo sabe hoje que Aleijadinho, Maestro Valentim, Patrocínio, Padre José Maurício e mutios outros artistas de projeção, desta e de outras terras, descenderam diretamente dos escravos.

E, se você, tio Chico, ainda vivesse, alegrar-se-ia ao saber que os seus ascendentes, cédulas vivas a percorrerem todos os sentidos deste imenso organnismo que é o Brasil, fazem parte integrante de uma grande raça!…

Não fora o ancestralismo que os impede ainda de subirem, Tio Chico, os seus semelhantes compensariam a inferioridade pelo direito e pela proteção igual que lhes conferem as leis modernas!…

O Brasil de hoje, tio Chico, é livre e para todos…

O Brasil de hoje, tio Chico, é livre e para todos…

O Brasil de hoje, tio Chico, é diferente…

Por isso, tio Chico, requiescat in pace!…

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