Folhetim O Sacy – A. E. Zaluar, 1882

O português Augusto Emílio Zaluar naturalizou-se brasileiro em 1856. Escritor e jornalista, colaborou com diversos periódicos da época. O texto abaixo, O Sacy, foi apresentado como um folhetim na edição de 03/12/1882 do jornal O Vassourense, de Vassouras/RJ. A continuação da história saiu dias depois, em 07/12/1882. Dizem que Zaluar foi grande defensor do abolicionismo e é considerado o autor da primeira ficção científica brasileira, “O Doutor Benignus”.

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Por A. E. Zaluar

Augusto_Emílio_Zaluar_portraitTodos os povos perpetuam na memória de seus filhos tradições mais ou menos graciosas ou terríveis de entres sobrenaturais, que exercem uma ação fatal ou benigna no destino dos indivíduos da espécie humana, e que realizam todos os seus artifícios neste sentido, sem a mais leve sombra de responsabilidade legal, como é de supor, atendendo-se à sua natureza intangível.

Variado e curioso seria o estado de quem quisesse acompanhar até sua origem a história dessas primitivas lendas populares, que tão grande influência exerceram já sobre o início dos povos e que ainda em nossos dias são transmitidas, em muitos países, de pais a filhos, como uma singular e preciosa herança.

O talentoso humorista alemão, o profundo e espirituoso Henrique Heine, consagra na sua obra A Alemanha um capítulo cheio de interesse e de vida às tradições populares da Germânia, e dá o maior apreço a este assunto, que já foi tratado em tempos amis remotos por alguns sábios, tais como os irmãos Grimm, Paracelso e outros, cujos nomes são respeitados na república das letras.

O poeta inglês Spenser, na Rainha das Fadas, e o imortal Shakespeare, nos Sonhos das Noites de Estio, revestirão com as galas de suas imaginações estas criações poéticas com tanta felicidade que Heine chega a dizer que, se os elfos não fossem imortais, ficá-lo-iam sendo na maravilhosa concepção do grande dramaturgo, encarado em nossos dias como o primeiro chefe da escola romântica.

Os espíritos, segundo Paracelso, se bem que sejam criaturas de Deus, tomam as formas que mais lhe aprez, aérea, ignea, térrea e aquosa, conforme a designação dos quatro elementos então conhecidos, e assim aparecem aos mortais, que sofrem sem remissão os caprichos quase sempre maléficos destas criaturinhas diabólicas.

Quando os espíritos maus revestem a forma masculina ou a feminina, são conhecidos com a denominação de incubos e sucubos.

Estas tradições dividem-se em dois grandes ramos, segundo as suas índoles elementares, conhecidos por orientais e ocidentais.

Apesar de todos os esforços de alguns sábios pacientes, ainda se não conseguiu classificar a origem tradicional desta grande família conhecida pela variada designação de ninfas, ondinas, sílfides, salamandras, elfos, lâmias, feiticeiros, bruxas, duendes, lobisomens e tantas outras criações belas e monstruosas que desde a meninice somos obrigados a reconhecer pela autoridade respeitável de nossas velhas amas que nos embalaram narrando, nos longos serões do inverno, essas histórias de fadas encantadas, que tão poderoso domínio exercem em nossa impressionável imaginação, a ponto que nos não abandonaram, mesmo nas quadras mais viris da existência.

Não querendo penetrar no labirinto enredam das discussões teológicas, o que seria, além de uma prova censurável de nossa incompetência na matéria, inqualificável abuso da paciência dos leitores, vamos abandonar o campo das apreciações históricas e dogmáticas para entrar nos domínios azulados da imaginação e do romance, onde estamos certo ser acompanhado pelos que nos lerem com mais algum interesse e curiosidade.

II

Quem olhar para o título destas páginas, e não conhecer as lendas populares do Brazil, perguntará e certo:

O que é o Sacy?

Confesso que a resposta nos deixa visivelmente embaraçados.

O Sacy é um espírito que talvez pertencendo à classe dos benefícios, se diverte em travessuras que tomam as vezes a aparência de malignidades, dirá o conspícuo classificador, entendendo de si para haver feito o mesmo achado que um botânico encaixando uma planta entre as famílias do sábio e paciente Lineu [Nota: Carlos Lineu, autor de Filosofia Botânica – 1751].

O povo, porém, sem conhecer coisa alguma destas arguciosas classificações, diz em sua linguagem mais pitoresca coisas muito mais bonitas a respeito destas sobrenaturais aparições.

Ninguém pode definir positivamente o que seja o Sacy; porém muita gente há que o tenha visto com seus próprios olhos, e muito mais ainda quem tenha sido vítima de seus caprichos, e observado os efeitos patentes das diabruras destes inquietos e atrevidos perturbadores do sossego das famílias.

As velhas, autoridades muito respeitáveis em questão de tanta ponderação, atribuem à influência do Sacy a maior parte dos transtornos que nos embaraçam a vida e não podem ser explicados por coisas conhecidas ou notórias.

Se o cachorro da casa aparece morto no meio do terreiro, se a lamparina se apagou antes da hora acostumada, se a menina amanheceu com dores de cabeça e não pode ir ao colégio, se o melhor petisco que a cozinheira havia preparado para o jantar despareceu como por encanto de cima do aparador, se um parente agiota se lembra de nos cobrar uma demanda, se finalmente o cobrador da décima urbana bateu de manhã à porta, em alguma terça-feira de má catadura, tudo isto são artes do maldito Sacy, que esquadrinha todos os meios de atormentar um cristão.

Quando os tropeiros pernoitam em algum rancho descampado, e no dia seguinte vão encontrar a tropa desbarrigada apesar do farto capinzal do pastoreio, dizem eles logo em vacilar:

— Foi o Sacy, que andava de noite cavalgando os animais.

As pessoas que tem visto este gênero de diabretes não estão de perfeito acordo em suas narrações acerca da forma em que aparecem estas travessas criaturas.

Uns dizem que o viram sob a figura de um negrinho de barrete vermelho, fazendo caretas aos transeuntes, e escarranchado em cima de uma porteira velha, ou no cimo da roda do engenho, quando está parada a moagem.

Outros, porém, afirmam que o Sacy é uma ave de muitas penas, que larga fogo das asas, se encontra nas estradas e que esvoaça de noite com os giros incertos do morcego, soltando uns pios lastimosos e pousando de vez em quando nas torres silenciosas das igrejas em ruínas.

As tradições, como se vê, são tão variadas, que, por melhor que seja a nossa boa vontade, não podemos dar ao leitor uma definição clara e precisa do que seja um verdadeiro Sacy.

Uma noite, estando eu sentado à beira de um lago tranquilo e em frente de uma soberba floresta virgem, apreciava silencioso este admirável espetáculo, vendo os raios da lua infiltrarem-se por entre as ramagens do arvoredo e brincar na superfície ligeiramente ondeada das águas.

Reinava um silêncio profundo em toda a natureza! Os troncos eretos de jequitibá, os leques debruçados das palmeiras, as copas das figueiras bravas e as coroas melindrosas dos palmitos não faziam o mais pequeno movimento, porque nem uma só brisa passava por entre seus festões de folhagem e suas cortinas de verdura.

De vez em quando, porém, espalhava-se no ambiente um aroma suave de perfumes balsâmicos. Era um cheiro embriagador que se não respira senão no seio agreste dos matos e nas solidões encantadas do novo mundo.

Eu estava embebido nesta contemplação em um enleio tão delicioso que nem lembrava que existia.

De repente toda a floresta se agitou, como se houvessem roçado por seus ramos as asas de um furacão! Um som ouço e cavernoso ressoou por toda a montanha! Um clarão singular passou de súbito ante meus olhos e senti-me momentaneamente tomado de indescritível terror!…

Tudo caiu, porém de novo, no mais profundo silêncio; e quando voltei à pousada, que ficava dali a pouca distância, e contei aos tropeiros o que me havia acontecido, responderam-me com voz mal distinta e pondo o dedo significativamente na boca com ar de espanto:

“Patrão, foi o Sacy!”

É o que acabo de narrar tudo quanto posso dizer aos leitores acerca desta aparição sobrenatural, que no primeiro momento, não devo ocultá-lo, me causou um efeito pouco de acordo com a segurança do lugar.

Esta afirmativa conscienciosa dos tropeiros despertou em mim uma natural curiosidade, e sentando-me junto ao fogo, em torno do qual os meus companheiros de pouco conversavam fumando seus compridos cigarros de palha, pedi-lhes que me contassem alguma história do sacy, pois muito desejava conhecer porque motivo falavam a seu respeito com tão reservada desconfiança.

Então, não sem se haverem primeiro consultado com os olhos, pelo aspecto grave e fisionomia sisuda, o mais autorizado pelos anos dos tropeiros, fechando mais o círculo em torno da lareira, começou com voz pausada e, em sua linguagem pitoresca, a seguinte narração que quase textualmente conservei em meus aposentos de viagem.

(Continua…)

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