Novas notas biológicas sobre o Sacy, 1922

Matéria publicada na Revista do Museu Paulista, em 1922, p. 785-787. 

Saci-Tapera-Naevia-Striped-Cuckoo

Por José Pinto da Fonseca

Tapera naevia ( Linn. )

Muito já se tem falado sobre o Sacy, esse pássaro lendário, objeto de toda sorte de feitiçarias pelas superstições populares; houve um grande jornal desta capital que ajuntando volumoso inquérito sobre suas lendas, chegou a editar um livro inteiro a respeito do “Sacy Pererê”.

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Sabiá-Laranjeira

Tudo isso unicamente por causa do seu modo de vida solitário, do seu brado triste e enigmático, tornando-o assim tão popular como o Sabiá da laranjeira, de Gonçalves Dias, Turdus Rufiventris.

O Sacy conhecido por: Sacy-pererê, Sem-fim, Maty, Cho-chim no Paraguay, Cris-pin na Argentina, Roceiro-planta e Peixe-frito em Minas, muito já se sabe sobre a sua biologia. Além de ser tido como feiticeiro, como quer o povo, já sabemos que é também um parasita: não constrói ninhos e põe os ovos em ninhos alheios, impondo assim a outros pássaros a incubação dos mesmos. Aproveitando da boa índole de um certo pássaro, procura de preferencia o ninho do João Teneném (Synallaxis spixi) para nele depositar o seu ovo (D. Von Ihering , 1914). Estes fatos foram constatados em 21 de Outubro de 1913 pelo Sr. João L. Lima, naturalista do Museu Paulista ; também pelo sr. Venturi (Argentina, 1909).

Observei o mesmo em Minas Gerais. Visto ser o João Teneném um pássaro amoroso e muito agarrado ao ninho, torna-se de tal modo insensível que se sujeita a que se lhe abra o mesmo ninho por diversas vezes sem que o abandone e, ao contrario, o vai reparando. Este ninho todo construído de uma aglomeração de pauzinhos, já descrito por Euler como de S. abescens (H. von Ihering, 1900). Tem a forma de uma retorta chimica, ou de uma bilha deitada, com o gargalo um pouco voltado para cima.

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João Teneném

Sendo o Sacy um pássaro de porte relativamente maior, e não podendo penetrar pelo gargalo, ou corredor do ninho, que é bastante estreito para o seu corpo, o que faz? Nada mais, nada menos do que arrombar o ninho lateralmente na parte mais volumosa, onde se acha a câmara de incubação, penetrando lá dentro a fim de pôr o seu ovo, que aliás nunca passa de um, completando assim a sua obra. Os legítimos donos do ninho, neste trágico momento, vendo sua propriedade violada, contentam-se em eriçar o topete, abrir a cauda em fôrma de leque e saltitar muito apressados ao redor do ninho, repetindo incessantemente a sua curta e clara apóstrofe que lhe dá o nome onomatopaico.

Todavia, o Sacy (Tapera naevia) possui outros enigmas na sua vida. A relação numérica do macho para a fêmea me parece ser superior, e cada individuo do sexo masculino toma conta de uma determinada área. Durante a época dos amores, algum tempo antes da procriação, o macho repete dias inteiros o seu grito dissilábico provavelmente para chamar as fêmeas que de vez era quando respondem com um assobio forte e curto emitido de uma sô vez subindo do tom inicial; ou para desafiar algum outro seu rival com quem quando se encontra trama furiosas brigas, ficando senhor da área o vencedor.

Assim o macho prossegue no seu canto também por noites inteiras. Isto o faz sempre na época mais calmosa do ano, desde Agosto até Outubro.

No tempo das queimadas, nas noites enfumaçadas, tristes e escuras, então o Saci, lá bem de longe, no campo, de uma moita emaranhada, vai soltando pela calada da noite, as suas notas tristes. Com o correr da noite, não sei por que motivo, o pássaro vai cada vez mais amiudando a voz; lá pela madrugada, não se ouve mais do que um fifi… fifi… fifi… interminável, continuando assim até ao raiar da aurora, para algumas horas mais tarde prosseguir o seu grito regular, durante o dia.

É crença geral dos caboclos, que o mesmo pássaro é exímio conhecedor do tempo, e assim afirmam que ele muda de assobio conforme está o tempo para mudar. Quanto á sua mudança de voz, realmente tive ensejo de observar, e disso cientifiquei-me de três maneiras de assobiar: O primeiro é o brado peculiar, dissilábico, e bem caracterizado; o segundo é uma nota só imitando a fêmea; o terceiro consiste em três ou quatro notas bem distintas repetindo a última, como: — ci…. ci… ci… cici… ou foi… foi… foi… foifoi…

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Peixe Frito, o Dromococcyx pavoninus

O Sacy quando prossegue no seu canto durante a noite está sempre alerta como durante o dia, e aproximando-nos da moita onde se acha cantando usa das mesmas habilidades para ensurdecer a voz.

Nas matas vive um outro afim do Sacy, do gênero Dromococcyx, com apelo mais ou menos semelhante, que o caipira interpreta assim : Roceiro planta… roceiro planta… Então, para elles é o mesmo Sacy-pererê que está gritando, e quando grita desta forma, é porque chegou a época de jogar milho na terra.

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