Roger Bastide – Os mitos brasileiros, brigada de choque da Polícia Especial, 1947

Resenha do livro “Geografia dos Mitos Brasileiros”, de Luís da Câmara Cascudo, publicada em 02-07-1947, p. 4-5, no jornal O Estado de S. Paulo. Assina o texto o sociólogo francês Roger Bastide, um dos intelectuais europeus que veio ao Brasil por ocasião da fundação da Universidade de São Paulo. Bastide era grande pesquisador das religiões de matriz africana, e cobra de Cascudo mais destaque aos mitos afro.

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O sociólogo francês Roger Bastide

Por Roger Bastide

Todos os amantes do folclore brasileiro esperavam impacientemente o aparecimento do livro de Luís da Câmara Cascudo, “Geografia dos mitos brasileiros”. E, embora o título não corresponda exatamente ao conteúdo do trabalho que acaba, finalmente, de aparecer, esse livro rico, fortemente documentado, que se pode manusear facilmente (por sua disposição em forma de dicionário, ou melhor, de enciclopédia), sistematizando, de algum modo, o bestiário legendário do Brasil. A origem lusitana, indígena, africana ou mestiça é sempre discutida com muito bom-senso, ponde em relevo a importância preponderante dos elementos portugueses ou indígenas, pelo menos no domínio especial do folclore, ao qual o livro é dedicado; o elemento africano terá sua compensação em outra parte: por enquanto, atua principalmente como confluente ou convergente com o que já existe.

Disse que o título do trabalho não corresponde exatamente ao conteúdo. Preciso explicar-me. Não há geografia sem mapas; o que interessa ao geógrafo é a localização, e não o próprio conteúdo do mito é traçar os limites de um mito, suas variações locais, é seguir os caminhos de sua difusão. Ora, este é um trabalho ainda impossível, ao que parece: é preciso, antes de tudo, um imenso trabalho de investigação no gênero dos que foram feitos há alguns anos pelo Departamento de Cultura de S. Paulo. O que a geografia forneceu a Câmara Cascudo foi a sua distinção entre os mitos gerais em todo o território (ultrapassando-lhe, mesmo, por vezes, os limites) com diversidades regionais – e os mitos locais, que podem ser regionais ou peculiares a uma única cidade, a um pequeno povoado. A geografia fornece sobretudo o plano do livro; mas o livro, por sua riqueza de informações e pela discussão dos temas, ultrapassa amplamente a geografia, o que, entretanto, não é de se lamentar

O autor tem, repetidas vezes, o cuidado de mostrar o caráter utilitário e mesmo moralizador do bestiário mítico. Ele encontra nisso uma prova da influência portuguesa. Mesmo quando o animal legendário é uma antiga divindade indígena, sem caráter prático, nascida do medo ou da angústia do primitivo diante da floresta selvagem, torna-se aos poucos, sob a influência dos brancos, um novo soldado enquadrado na polícia especial do sertão. E devo mesmo dizer que lamento que esses seres fantásticos tenham sido, nos nossos dias, expulsos das grandes cidades ou do litoral, transformando-se em histórias para divertir os petizes, em lugar de serem objeto de crença, aprisionados entre os livros de Monteiro Lobato, como policiais que perderam o emprego! Quando vejo destruírem-se em S. Paulo tantas árvores magníficas, quando vejo reinar nas casas modernas ou no urbanismo atual esta verdadeira “fobia” das folhagens copadas, substituídas por relvas sem sombra ou pelo simples asfalto, quando vejo os jardins se transformarem em parques de automóveis, como garagens provisórias, lamento o desaparecimento deste antigo policial Curupira, que defendia as árvores: “Todo aquele que derruba, ou por qualquer modo estraga inutilmente as árvores, é punido por ele com a pena de errar tempos imensos pelos bosques, sem poder atinar com os caminhos da casa, ou meio algum de chegar entre os seus”, diz Couto de Magalhaes. Se o Curupira voltasse ao nosso meio, quantos arquitetos ou engenheiros consigo traria, para permitir a rearborização de nossas cidades e de nossos campos!

Pode-se muito bem dizer que, numa época em que a polícia era impossível, muitos mitos, pelo terror que inspiravam, constituíam a policia especial dos tempos coloniais. As florestas, os rios, as grutas ou os lagos eram povoados por seres misteriosos encarregados de defender a vegetação, os animais, os tesouros naturais, contra as loucuras destrutivas dos homens. O caipora, montado no porco selvagem, ou o saci de uma perna só impedem que se mate animais das florestas nos domingos ou nos dias santos, que se atire nos filhotes ou nas fêmeas grávidas, de modo a não se esgotarem os recursos animais do país. Mais pavoroso que o policial com o seu lápis e papel para marcar as multas aos contrabandistas, ele torce o cano do fuzil, engana os cães, detém os caçadores para pedir-lhes fumo…

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Edição de 1947

É o modo do Saci que perde as crianças que brincam longe de suas casas, que as impede de se afastarem do teto materno, que as preserva das incursões, impudentes mais do que qualquer reprimenda ou advertência. É o receio das serpentes d’água, dos botos e dos ipupiaras que impede os jovens de se banharem nos lugares perigosos, nos rios traidores, nos redemoinhos que os podem arrebatar, onde podem afogar-se. As serpentes de fogo, as Moiras encantadas, protegem a propriedade privada, os tesouros deixados nos momentos de infortúnio, contra a cobiça dos aventureiros. Também a vida sexual é regulada, as amantes dos curas se transformam em mulas sem cabeça, o próprio lobisomem, que primitivamente nada tem de moral, e que se ligou a mística do número sete, acaba por tornar-se membro dessa brigada policial: “Diziam que era homens que, havendo tido relações impuras com as suas comadres, emagreciam: todas as sextas-feiras, alta noite, saiam de suas casas transformados em cachorro ou em porco”. (J. Simões Lopes Neto).

Nem mesmo os negros fugitivos do tempo da escravidão deixaram de ser detidos pelos mitos, sendo por eles forçados a permanecer na senzala.

Contra o negro quilombola podia-se recorrer ao capitão do mato: era, porém, preciso pagar-lhe por seus serviços, e depois, é melhor prevenir do que remediar. A mão pelada era muito mais temível para o escravo do que o famoso capitão, porque o monstro não errava o caminho e agarrava o pobre negro, com toda certeza, para fazê-lo morrer em meio a horríveis torturas diante das quais o chicote de um senhor não era mais do que uma carícia!

Particularmente instrutivo, deste ponto de vista, é o ciclo da angústia infantil em que o elemento africano adquire mais importância por causa das amas e das mães pretas. O tutu-papão impede que a criança turbulenta se agite na cama, que fale; faz com que se refugie o mais depressa possível no sono reparador. A mão de cabelo “é o espantalho das crianças do sul da província de Minas Gerais”. Aos meninos que costumam mijar na cama, é muito empregada a frase caipira: ‘Óia, se neném mija na cama, Mão de Cabelo vem ti pegá e corta a minhoquinha do neném!…’ (Vale-Cabral). E o mesmo Vale-Cabral define assim o Chibamba afro-mineiro: “serve para amedrontar as crianças que choram”. Assim, toda a atividade da criança que lhe pudesse causar dano é regulada, reprimida por partes. Cocas que vêm levantar, à noite, os meninos inquietos, insones ou faladores, o Quibungo com o saco devorador cujo terror disciplina os meninos insubmissos ou desobedientes. Os psiquiatras, bem o sei, condenam essa polícia doméstica, a serviço dos pais e criados, responsável, ao que dizem, pelos traumatismos psíquicos que podem depois repercutir na vida do adulto. Não me consta, porém, que o número de moléstias mentais tenha sido maior outrora do que hoje, nem que o Bramador seja mais nocivo aos nossos cérebros que as klaxonas [NE: buzinas elétricas] ensurdecedoras de nossos autos, e a Mboya que sai em busca de meninos mais que os “gangsteres” com suas metralhadoras nas salas de nossos cinemas.

Esta polícia sertaneja não rejeita alistar estrangeiros. Nada tem de xenofobia. O general Labatut, herói das guerras da Independência, mas soldado cruel, tornou-se um monstro faminto com um só olho e o corpo coberto de pelos, que ronda durante a noite para comer os meninos, e é assim que um general francês é incumbido de cuidar de todos os capitães da areia, caros ao coração de Jorge Amado! Não obstante o seu nome germânico, a Alamoa é “uma linda francesa” que vem distrair os prisioneiros da ilha de Fernando de Noronha, mas ela é também inscrita para impedir que os prisioneiros fujam, pois é a sedução da liberdade, do amor sensual, do descobrimento dos tesouros fabulosos – mas ela mata, na realidade, aqueles que não podendo resistir a este apelo, rompem as grades da prisão para descer na praia onde ela folga por entre a espuma das ondas.

O livro de Luís da Câmara Cascudo começa, após sua introdução geográfica, com o estudo dos mitos de Tupã e de Jurupari. Mostra admiravelmente o autor como os jesuítas, em seu trabalho de catequização e nada compreendendo da mentalidade indígena, esforçaram-se por se utilizarem dos mitos locais para cristianizar mais facilmente o índio. Tupã tornou-se o Deus dos cristãos, porque ele era o trovão, e Jurupari tornou-se o Diabo, porque era a divindade dos pajés, isto é, daqueles cuja autoridade devia ser antes de tudo destruída pelos Jesuítas. Assim, desde o início da era colonial, o português se esforçou por transformar as lendas para fazer com que servissem para um fim prático. Talvez Cruz Costa, que assinala com tanto cuidado em seus estudos de filosofia brasileira o caráter pragmático/positivo, utilitário da filosofia lusitana, encontre aqui uma nova prova corroborando a sua afirmação. É, entretanto, interessante ver como o gênio português tendeu, quase sempre, a inspirar-se nos monstros nascidos dos pesadelos dos temores infantis ou primitivos, das angústias do homem diante da natureza, para fazer com que servissem a objetivos práticos. Certamente isto é verdadeiro não somente para o folclore brasileiro, mas para todos os folclores em geral, em um dado momento de seu desenvolvimento, quando a crença religiosa começa a desaparecer, mas este processo de moralização é mais ou menos avançado. Ora, o que impressiona no Bestiário de Câmara Cascudo é que, fora os mitos de origem africana, como o Quibungo, ou os imaginados pela escravidão, como o Negrinho do Pastoreio, o elemento narrativo é mínimo: os seres fantásticos são frequentemente inconsistentes, mais misteriosos do que precisos, e muitas vezes nós os vemos trocando entre si as suas características, confundindo-se e misturando-se uns com os outros. Isto porque o que neles interessa é mais a sua função que as suas feições. Trata-se de fazer com que o terror sirva à civilização nascente.

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Bastide foi grande estudioso das religiões de matriz africana

Se o caráter inconstante de certos monstros torna possível esta tarefa, muitos mitos naturalmente resistem. O mito etiológico, por exemplo, da criação de um lago pode com facilidade tornar-se um mito ético, pelo castigo de violação de um tabu a princípio, depois, de uma regra moral, o infanticídio. “Geografia dos mitos brasileiros” apresenta-nos bons modelos disso. Mas mesmo a imoralidade pode servir-se de mitos. A mitologia da angústia cede então seu lugar à mitologia do desejo. Os portugueses trouxeram consigo em suas caravelas as sereias, essas cousas d’água que frequentemente destronaram os monstros indígenas. Câmara Cascudo mostra bem o caráter mais europeu que indígena das Iaras. E aqui é o domínio da sexualidade que entra em jogo. O menino que não é do marido é filho do boto: eis o que acontece às mulheres jovens que vão com demasiada frequência à margem do rio quando os maridos não estão em casa!

Deixamos neste artigo muitos dos elementos sugeridos pelo bem feito estudo do autor, mas pareceu-nos que este elemento policial da mitologia brasileira devia tornar-se conhecido. “A Geografia dos Mitos Brasileiros” não é mais que o primeiro volume de uma série de estudos que deverão aparecer sobre o folclore e que abrangerá o folclore social e religioso, a literatura oral, etc. Teremos, pois, sem dúvida, a possibilidade de tratar de outros aspectos do folclore brasileiro quando forem publicados esses volumes.

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