[Resenha] Jurupari

Jurupari - Paulo Freire

Por Andrioli Costa

Em 2018 pude finalmente colocar as mãos em um livro do violeiro Paulo Freire. A compra, mesmo feita em loja virtual, ainda tem ares de artesania. É preciso selecionar os livros, enviar um pedido por e-mail e receber o valor com conta para depósito tempos depois. Inserido na urgência do virtual, que não combina em nada com a obra do artista e com o toque contemplativo de sua viola, acabava esquecendo o depósito e nunca finalizava o pedido. Acabou que comprei usado, num sebo. Acho que assim, cavoucado numa estante, também fui fiel à proposta.

Escolhi então Jurupari (Editora Vai Ouvindo, 2010), um romance mitológico, como descreve o próprio autor. O livro, que é um grande passeio pelas cinco regiões do país, conta a jornada de um violeiro em formação. Neste percurso, guiado pela música, pelos mitos e por tipos bem brasileiros, ele encontra a si mesmo e ao próprio Brasil. Afinal, logo percebemos, as duas coisas se confundem.

Quando por fim comecei a leitura achei que não encontraria a “prosa saborosa envolvente” prometida na quarta capa. Nos primeiros capítulos, ela é bem pouco convidativa. Sou um grande admirador da literatura que bebe da oralidade, especialmente quando a marca regional não está apenas nas falas dos personagens, mas na do narrador. Ainda assim, não estava funcionando. As páginas iniciais do livro pareciam simplórias demais. Um romance de quase 200 páginas inteiramente narrado desta maneira não se sustentaria. Copio um trecho abaixo:

“Bruuum.
– Que é isso?
– Ali, pai, mexendo no meio do palmital!
– Uma porca-do-mato. Tem alguém perseguindo o animal. Ligeiro, Lico, vem ver!
Corremos entre as árvores. Os galhos batiam no meu rosto, afundei o pé na lama, escorreguei nas raízes. Meu pai, lá na frente, gritava:
– Não ativa, não atira.
Pá-pá-pá!
– Nãããããão!”

O início do livro é desconjuntado, guiado só por diálogos atropelados e onomatopeias. Apressado demais quando carecia de uma descrição mais consistente e demorado por demais em outros momentos. Nunca vi um protagonista ir tanto ao banheiro como nas 30 primeiras páginas – ação deixada de lado quando a história engrena. O próprio personagem central, Lico, é tão pouco descrito nos dois primeiros capítulos que, pelos diálogos e pela birra, tinha certeza de que ele era uma criança. Precisei desfazer um nó na minha cabeça quando o moço revela ter 19 anos.

O livro começa a tomar jeito quando Lico deixa sua família de vez – inclusive seu avô. Poderia ser um efeito de sentido proposital, mas parece mais uma consequência. O texto melhora muito quando vamos para os diálogos indiretos, ou quando acompanhamos o fluxo de pensamento do rapaz sem muita gente para interferir. É aí que a voz autoral se faz marcar, e que sentimos a cultura que transborda.

E se a boa prosa literária não encontrei de início, foi só Lico conseguir sua violinha de coxo que encontrei uma outra prosa da melhor qualidade – aquele dedinho de prosa que acompanha um bolinho de fubá, arrematado com um cafézinho e uma dose de pinga. Aí o violeiro encontra o escritor e a conversa se engrena. Jurupari me arrastou madrugada adentro. Dormi ainda pensando nas coisas que o rapaz vivia.

Interessante notar que o livro carrega muita sensibilidade, mas sem ser totalmente sinestésico. Isto é, não somos convidados a explorar todos os nossos cinco sentidos no texto. O personagem come, mas nem sempre sabemos o que ele comeu ou o gosto que a comida tinha – um artifício muito utilizado nas narrativas populares, uma vez que o paladar remete com facilidade à nostalgia. Também nem sempre vemos com os olhos do protagonista, já que as descrições breves demais não tem facilidade em transmitir a dimensão de uma cena de encher as vistas.

Por outro lado, este é um livro do ouvir. É ouvindo o som do sertão, da floresta e do pampa que Lico vai encontrando a sua música: a viola festeira de um lado, a viola sofrida de outro, e o toque violento das cordas no Sul do Brasil. Tudo lhe guiava, a tudo sentia.

“As música que cantavam, os versos que diziam na estância, de sanfonas destruídas, facas, tiroteios, a luta em defesa da terra. Pois então fui sento levado por esse sentimento. O jeito que tocavam violão por ali era uma afirmação de honra”.

Mais do que isso, este é um livro do fazer. Um livro da terra, que carrega a força deste elemento. Não podia ser diferente, já que o próprio Paulo Freire aprendia viola com o mestre Manelin depois de um dia inteiro na lavoura. Lico também aprende fazendo, sem nunca negar a lida. Carneia gado, capina lote, caça entre os índios e daí vai tirando o som da sua viola. Do labor, da prática e de uma ajudinha de seu famaliá, é verdade.

O povo aparece no livro sem máscaras, em toda sua idiossincrasia. É o caminhoneiro que toma arrebite – acompanhado pelo protagonista. É o mestre que prepara cordas do instrumento com tripa de porco espinho e urina em noite de lua cheia. São as várias referências escatológicas que nada tem de infantilizadas no folclore brasileiro. É o benzedor que prepara um diabinho para a viola – nascido de um ovo de galinha preta curado em bosta de vaca e chocado em seu sovaco.

– Vô, nunca escutei nada tão lindo em minha vida.
– E se eu te disser que é o diabo tocando, você vai achar feia?
– Ué, se for bonita não posso achar feia.
– Então capeta presta pra alguma coisa. Pois o tinhoso está criando uma beleza que não e que ninguém dá conta de repetir.

Sim, o diabo ajuda o protagonista. Um diabinho, na verdade, que mama do nosso sangue e vive no tampo da viola dos grandes instrumentistas. Aprendemos em Jurupari tanto a contar com a colaboração das forças infernais, como a tortura-las para recuperar o que foi perdido. É só enfiar um ferro no cu do diabo. A relação é de homologia: um buraco no chão faz as vezes do ânus diabólico. Se for uma viola, como no livro, basta cravar nele uma barra metálica e gritar três vezes: “Diabo, dá minha viola, senão tu não mija nem caga”. É batata.

É nessas relações por vezes contraditórias que a alma do povo se desvela. A religião está sempre presente, mas não essas imposições institucionais de um cristianismo anulador. Este não tem espaço na cultura popular e são rechaçadas no livro. O esconjuro em nome de Sangue de Cristo que expõe os pecados do padre que encantou a Mula-sem-cabeça com o freio da culpa. É a força da fé do povo que faz o Cruzeiro do monge João Maria crescer mais e mais, até ser podado pelas autoridades – que ignorando o povo, o contexto e as marcas da cultura, resolvem arrancar o cruzeiro e levar para a capela.

Jurupari, que dá nome ao livro, quase não aparece. Sua participação, enquanto mote para a história, meio que se explica, meio que não. No ponto de sua revelação, porém, já aprendemos a lição: é bom não tentar entender os mitos para viver em Mistério. Mitos se revelam e se escondem, e em vislumbres de sua passagem percebemos o mundo que nos cerca. “Esse teu ciúme não tem uma razão real“, explica um gaúcho no final da obra, “mas o boitatá explodiu de luzes bem na tua frente. O que existe de verdade?“.

E como um bom livro dedicado ao elemento Terra, nada como a volta à nossa própria terra. À fortaleza que sempre nos recebe, lá e de volta outra vez, trazendo um final mais do que digno a uma jornada errática. “A música vem da mata, rio, céu, mar e dos seres espalhados em nosso quintal. A casa ficou imensa, povoada”, reflete Lico. Nossa casa. Nosso Brasil.

Nota: 3,5/5

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