[Clipping] Heitor Freire- Dos Tesouros Enterrados

Publicado em 06/10/2010
No Correio do Estado
Por Heitor Freire

No imaginário do homem da fronteira Brasil-Paraguay há um anseio constante: encontrar parte do ouro do Mariscal Solano Lopez. Neste tema há uma informação e uma lenda: a informação é que durante a Guerra de Triplice Aliança, no momento que sentiu que a guerra estava caminhando para um desenlace desfavorável para ele, o Mariscal começou a transportar junto com o seu exército carretas e carretas carregadas de ouro. Naquela época, dizia-se que o Paraguay tinha tanto ouro que daria para se fazer um anel em torno do globo terrestre, tal era a quantidade de ouro acumulado de que o país dispunha.

A lenda: por onde andou o Mariscal, ordenou que se enterrasse parte do ouro e determinou também que se fizesse o enterro seletivo ao longo da fronteira, beneficiando assim, uma larga faixa de terras. No livro História de Mato Grosso do Sul, de autoria do professor Hildebrando Campestrini e Acyr Vaz Guimarães (5º edição IHGMS), há uma referência: “os coronéis Sosa e Delvalle, (do exército paraguaio), que, decididos a não acompanhar Lopez, na fuga, se haviam retirado (com carretama, soldados, canhões, civis, dinheiro e relíquias das igrejas paraguaias) para Sete Cerros (1), em terras hoje sul-mato-grossenses”.

Assim, há sempre a esperança de se encontrar parte desse ouro lendário. Mais que esperança, expectativa. Basta saber procurar. Quando trabalhava no Banco do Brasil, em Ponta Porã, duas vezes, me aventurei a buscar esse “bendito” ouro”.

A primeira vez foi quando apareceu no banco um alemão com cara de cientista extraviado, dizendo-se portador de uma máquina inventada por ele que tinha a faculdade de detectar metais enterrados, e que poderia indicar o local do ouro enterrado. A primeira pergunta que lhe fiz foi: “Se é assim por que o senhor não vai desenterrá-lo?”. Ele disse que não dispunha dos recursos financeiros para essa operação e estava oferecendo a possibilidade de uma parceria desde que eu entrasse com o dinheiro.

Falei com o meu concunhado, alemão catarinense, também funcionário do banco, e decidimos financiar a busca do “tesouro”. Estabelecemos uma data e lá nos mandamos para a área rural, onde segundo o nosso guia e parceiro se encontrava o tal enterro. Passamos um dia inteiro sob um sol escaldante cavando em “n” lugares que a dita máquina indicava e nada. Lá pelo meio da tarde nos entreolhamos e chegamos à conclusão de que estávamos sendo objeto de uma aventura do tal “cientista”. E voltamos para a cidade.

A segunda vez envolveu um risco muito grande, do qual, no momento, entusiasmados pela perspectiva de ganhos, não nos demos conta. Aconteceu assim: nós, funcionários do Banco do Brasil, formávamos uma equipe unida e amiga. Um dos colegas mencionou que no quintal da casa do meu sogro, à sombra de uma árvore majestosa, havia um enterro e que ninguém sabia, só ele. E, assim, convidou seis colegas para desenterrar o ouro com ele. Fizemos um plano de ação, escolhendo cuidadosamente a noite em que invadiríamos o quintal.

Na noite aprazada, nos deslocamos juntamente com as nossas mulheres que ficaram numa casa de um colega, ao lado, esperando enquanto os bravos desbravadores se aventuravam na “caça ao tesouro”. Por volta das onze horas da noite, silenciosamente entramos no quintal devidamente equipados com lanternas e diversas pás de ponta para a realização da “operação”. E assim, começamos a cavar.

Cava daqui, cava dali, e nada do tesouro. Lá pelas tantas, já cansados de tanto cavar, chegamos a conclusão de que não havia nada. E voltamos para a casa onde nos aguardavam as nossas já dorminhocas mulheres, que ao serem despertadas e informadas do nosso insucesso, e verificarem o estado das nossas roupas ficaram decepcionadas e revoltadas, pois afinal elas é que iriam lavá-las. Até hoje eu não sei por que o “seu Guaiaca”, sogro do nosso colega, não acordou com tanto barulho. E o risco a quem me referi antes, é que ele era muito valente.

Como é que o ser humano se deixa envolver com essas situações grotescas?

Sobre o mesmo assunto há ainda, outras estórias. Uma delas: em seu manuscrito, O Povoamento do Sul de Mato Grosso (IHGMS), José Ribeiro de Sá Carvalho narra as desventuras de dona Balduina Barbosa de Oliveira, que, na época da guerra, temerosa da situação vivida, enterrou seus tesouros no mato, na região do Esbarrancado. Quando voltou àquele lugar, não conseguiu mais encontrar o seu tesouro enterrado, morrendo amargurada por isso.

Após três meses de seu falecimento, “seu filho Macias começou a sonhar com a sua mãe e o enterro. Seguindo a impressão dos sonhos, cavou e desenterrou finalmente intactos os ditos tesouros”. Menos mal, já que como herdeiro natural, conseguiu assim usufruir dos mesmos, repartindo-os com seus familiares.

(1) Localização atual: imediações do municípios de Coronel Sapucaia.

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