Patrimônio Pantaneiro

viola.jpg

Publicado na Revista Cultura em MS 3º Edição – Nov/2010
Por Andriolli Costa

É em Corumbá, no coração do Pantanal, que estão registradas duas manifestações do patrimônio intangível. No entanto, algo mais forte que o espaço geográfico une essas tradições que, apesar de diferentes, estão diretamente ligadas uma à outra. É o Banho de São João de Corumbá e o Modo de Fazer: Viola-de-Cocho.

Registrada no “Livro dos Saberes”, a Viola é fruto de uma engenharia artesanal que envolve a escavação de uma tora inteiriça de madeira no formado do instrumento. A natureza é quem fornece a matéria-prima: as peças são coladas com sumo de batata sumbaré e as mãos dedilham por cordas feitas de tripas de boi e fios de algodão.

Quem instruiu seu processo de registro foi o Iphan, num trabalho que ultrapassa as fronteiras do estado. “A tradição da viola de cocho é muito presente no Pantanal, numa área que abrange boa parte de Mato Grosso. Em Mato Grosso do Sul se concentra mais em Corumbá”, relata a superintendente do Iphan no estado Maria Margareth Escobar. A pesquisa para o registro levantou que a viola não é um instrumento isolado, mas faz parte de um complexo poético musical do cururu e do siriri: danças que se manifestam em celebrações religiosas. Um observador pode notar que no cabo de cada viola-de-cocho vão se acumulando uma série de fitas coloridas. É que os mestres cururueiros – como os violeiros são chamados – prendem uma para cada roda de cururu em que ela foi tocada em homenagem a um santo.

23_06_16_banho_desaojoao_corumba_renecarneiro.jpg

Muitas dessas fitas acabam sendo presas durante a festa do segundo bem imaterial de Corumbá: o Banho de São João, que acontece na noite entre os dias 23 e 24 de junho. A festa reúne centenas de pessoas que acompanham, entoando ladainhas, os 80 andores que descem a ladeira em direção ao porto da cidade. Até mesmo gente de fora de Corumbá vem de longe só para cruzar sete vezes em baixo do altar do santo. Dizem que é garantia de casamento no ano seguinte.

A procissão passa por ruas enfeitadas por balões e bandeirolas, até chegar ao rio Paraguai  onde, imitando a cena bíblica, São João é banhado pelas águas fluviais. Uma vez lá embaixo, a religiosidade dá lugar à celebração. Os mestres sacam as Violas-de-Cocho e as rodas de cururu atravessam a madrugada.

O Banho de São João é patrimônio estadual. No entanto, existem planos para que ele seja registrado nacionalmente. Neusa Arashiro, gerente de Patrimônio Histórico e Cultural da FCMS, afirma que não existe uma “hierarquia” entre os registros. “Todos possuem valor de patrimônio imaterial. No entanto, ser colocado como uma manifestação significativa para todo o Brasil agrega valor à tradição.” Mas ela enfatiza que nem mesmo um registro nacional é suficiente para a manutenção da tradição se ações de incentivo não forem pensadas de forma sistêmica. “É preciso elaborar o que chamamos de plano de salvaguarda, para reforçar a manifestação.”

Em Corumbá, esse plano já vem sendo executado. Dias antes do Banho, acontecem os desfiles de andores, onde não apenas o mais bonito, mas também o que apresenta a melhor história é premiado. Nas escolas, as crianças organizam seu próprio Banho de São João durante a manhã, deixando a noite para os mais velhos. Ainda assim, a proposta de Neusa é apostar na economia da cultura. “Uma coisa que eu nunca vi são artesanatos com temas do Banho. Imagina, um mini-andor de São João? Com certeza ia fazer sucesso.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s