Leia o conto de folclore da 1ª revista especializada em FC e Fantasia do Brasil, de 1955!

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Por Andriolli Costa

Durante a leitura da obra do escritor e pesquisador Roberto de Sousa Causo, “Ficção científica, fantasia e horror no Brasil, 1875 a 1950” descobri a existência da primeira revista brasileira especializada na publicação de contos de fantasia e ficção científica. Tratava-se da Fantastic, versão nacional de um título homônimo existente nos Estados Unidos e trazido ao país pela Cinelar. A publicação, que teve 12 números, circulou entre 1955 e 1961.

Como se essa não fosse informação curiosa o suficiente, um outro detalhe me chamou ainda mais atenção. O primeiro número da revista possuía um conto a mais do que a edição gringa, uma única narrativa brasileira: um conto sobre o mito do Caboclo D’água, assinado pelo redator-chefe da revista Zaé Júnior. Havia também uma ilustração nacional: um cartoon que apresentava uma Cuca.

Entrei em contato com o Causo que gentilmente digitalizou e me enviou as páginas da revista. Uma relíquia que resgata mais um pouco da história da ficção folclórica brasileira. Confira abaixo o conto na íntegra.

MOLEQUE PARDO – CABOCLO D’ÁGUA

Por Zaé Junior

Por onde andará, o dando do Moringa? Ah! Mulatinho endiabrado, fujão. Já não teme mais o rabo de tatu…

Seu Leôncio, o feitor carrancudo da fazenda de S. Gonçalo, às margens de um regato piscoso pelas bandas de Jaú, estava raivento. Moringa, filho da escrava Prudência, mulato na cor, havia fugido outra vez.

Moringa era menino. O corpinho magro e doente, afeito aos maus tratos, descobrira um brinquedo novo, – diferente – descobrira o brinquedo de conversar com os peixes, na curva do rio, onde havia uma espécie de lagoa. Por isso, era só descuidarem dele, saia a correr pelos arbustos de café, riscando-se nos “arranha-gatos”, até ganhar as margens lamacentas, povoadas de gamboas. Enfiava-se na correnteza, até a cintura e, com as mãozinhas finas, espirrava a água nas pedras. Depois, sentava-se numa delas à espera dos amiguinhos aquáticos. Os pequenos peixes, truta, douradinho, traíra, lambari, deslizavam mansamente até à superfície, enquanto a água voltava à sua limpidez natural. Moringa sorria alegre e esfarelava miolo de pão, dava estralinhos como dedo – tinha sempre uma história para contar aos peixes. História de um menino de cor que havia fugido para um país encantado, onde os habitantes tinham forma de peixe, olhos do tamanho de um ovo e roupas feitas de escamas. E repetia vivamente:

— Não! Lá não tem gente escrava nem gente patrão. São todos iguaizinhos… Quem tiver rabo-de-tatu vai preso…

O céu escurecia e ele dava conta do tempo. Apenas quando o vozeirão do feitor tirava-o do sonho é que ele tremia, chorava até os olhos ficarem vermelhos e regressava olhando para o chão. Vivia triste, sempre triste. Não gostava da cabana cheia de vento e arrulho dos pássaros onde morava com mais doze moleques pretos como a noite no sertão. O feitor não gostava dele, negava-lhe rapadura, fazia-o debulhar milho de pipoca o dia inteiro. Seu Leôncio era mai.

Depois de procurar o moleque pelos arredores, enfiou-se pelos pés de café, margeou o regato e descobriu-o sentado na pedra, falando com os peixes.

— Ah! Você, lambari… Qualquer dia vou lhe contar como é que o peixe-boi cresceu daquele jeito. Muita gente tem andado a descobrir, mas eu é que sei. O sapo Cururu me contou, me falou também da juriti-pepena…

Como que levado por uma força misteriosa, os peixes conservavam-se visíveis, quase na superfície, parados, como que atentos às palavras do negrinho. Seu Leôncio estranhou. Aproximou-se, oculto nos arbustos, procurando não se denunciar com o barulho das folhas, chegou-se por trás, parou. Ainda por alguns instantes observou-o, calado. Depois, estalando o chicote no ar, assustou o Moringa, que pôs-se a chorar e tremer com medo da ira do feitor.

— Não! Não me bata mais, seu Leôncio. Um dia é capaz de eu morrer…

— Não bater, moleque fujão! Ou você endireita ou lhe corto as pernas com o relho, peste.

Enquanto os peixe fugiam para o interior escuro do riacho, seu Leôncio riscava as costas frágeis de Moringa com chicotadas cada vez mais fortes. Quando voltou para a cabana, já sem lágrimas, os olhos vermelhos como duas rosas rubras, o pobre garoto tinha as costas em carne viva. Deitou sobre a palha seca e infestada de micuins e dormiu. Na mesma tarde, julgando-se tratar de objeto de alguma bruxaria, seu Leôncio, para evitar dano maior, mandou três escravos destruírem a lagoa da curva do rio. O enxadão desbastou as margens verdes, escureceu a água com a terra vermelha, espantou os peixes amigos de Moringa. Dez carroções de terra enforcaram a lagoa, que virou filete d’água fino e sujo, onde mal o riacho podia passar. Todos os colonos e escravos souberam que Moringa era filho da cobra grande, um ser danado, que poderia causar secas tremendas, avisar todos os peixes contra os anzóis dos pescadores. Moringa deveria morrer para que a fazenda e os colonos pudessem viver sem os perigos do “coisa-ruim”. A noite, depois de um crepúsculo de fogo e cinza pelo céu pesado, os negros iniciaram uma macumba ruidosa e cantaram toadas de salvação.

— Moringa! O filho de Cobra Grande, parente do Boto, deve morrer – gritava a voz aflautada do negro velho, senhor da dança.

O patão havia viajado. Do alto da varanda, seu Leôncio e os colonos mais achegados observavam a festa sinistra, ao som surdo dos tambus e reco-recos. Saltando freneticamente, os pretos se aproximaram da cabana de pau a pique, onde Moringa dormia, vencido pela dor.

Foi um pânico. O negro alto e magro de enfeites coloridos no pescoço e na cintura, voltou gritando para o meio do terreiro gritando no tom agudo de um desespero desumano:

— Coisa ruim levou! Coisa ruim levou! Moringa, filho do Cobra, voltou pra profunda do rio, pro mundo de Boto e de gente escama…

Os negros cortaram os matos, os colonos distribuíram tochas, a noite ficou um dia amarelo cheio de sombras grandes. Mas ninguém encontrou Moringa. Três meses de procura. Não ficou palmo de sertão sem pé de gente, houve feitiço e mandinga – mas ninguém encontrou Moringa.

Choveu, a curva do riacho ganhou outra vez a forma de lagoa, a água esbranquiçou. Os pequenos peixes, truta, douradinho, traíra, lambari, amiguinhos aquáticos de Moringa, voltaram a ouvir as histórias longas e cheias de felicidade do moleque pardo.

— É castigo do “sujo”… Ninguém pode passar na curva do regato. Moringa está lá, sentado na pedra, esfarelando pão, conversando com os peixes. Tem os olhos vermelhos de tanto chorar, o corpo cinzento de picumã, faz mal a quem o vê… – Dizia o caipira benzendo-se…

Outra vez, num rio grande, distante, Moringa afundou uma barca de pescadores e os mambembes morreram afogados. Ninguém mais podia remar à noite – havia Moringas em todos os rios. A história do Negrinho correu o mundo. Todos os moleques mortos se juntaram a ele. Puxavam as redes, os anzóis, até os pescadores e protegiam os peixes.No rio Mogi-Mirim já não havia barqueiro feliz, nem pescador que pescasse uma truta sequer.

O tempo passou e a lenda ficou.

Moleque pardo, caboclo d’água, hoje não há sertanejo que não lhe conheça a história, que não tenha pressentido sua presença no fundo dos rios, com os olhos vermelhos, o corpo de picumã, conversando com os peixes…

Foi o menino de cor que fugiu para o país encantado, onde os habitantes tem forma de peixe, olhos de tamanho de um ovo e roupas feitas de escamas…

Charge da Cuca

A Cuca.jpg

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Uma resposta para “Leia o conto de folclore da 1ª revista especializada em FC e Fantasia do Brasil, de 1955!

  1. Muito boa postagem. Depois de “Fantastic” vieram as revistas “Galáxia 2000”, “Magazine de Ficção Científica”, “Isaac Asimov Magazine”, “Quark” e “Sci-Fi News Contos” — mas o assunto folclore brasileiro foi muito raro nas suas páginas.

    Curtido por 1 pessoa

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