[Clipping] Projeto de professor do Amapá sobre imaginário ribeirinho é premiado pelo MEC

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Publicado por G1 Amapá
Em 22/10/2018

O professor Paulino Rocha Barbosa, da Escola Municipal Vila Progresso, localizada no distrito do Bailique, região ribeirinha de Macapá, foi um dos 30 professores da rede pública de ensino contemplados na etapa regional com o Prêmio Professores do Brasil, realizado pelo Ministério da Educação (MEC) desde 2005. Ele é o único representante do Amapá na disputa.

O projeto contemplado é chamado de “Pequenos autores: navegando entre mitos e lendas das Ilhas que bailam”. A ideia surgiu depois que o professor observou a falta de interesse dos alunos por histórias infantis em livros que tinham na biblioteca da escola, mas que gostavam de ouvir lendas e crenças populares contadas por ribeirinhos e que não tinham registros em nenhum lugar.

“Um conhecimento tradicional, muitas vezes ignorado pelas escolas, mas que pode e deve ser um importante ponto de partida para alçar novos conhecimentos. E a escola não só não sabia da existência desse conhecimento, como também o ignorava no processo ensino-aprendizagem. Percebi aí uma grande oportunidade para registrarmos esse conhecimento, através de produção de textos, para que outros alunos pudessem conhecer também”, descreve Barbosa.

Na prática, o projeto coloca os alunos para pesquisarem, junto a familiares, sobre uma história definida previamente em sala de aula. Em sala de aula, os alunos compartilham o que aprenderam e o professor media e faz provocações. Depois, as crianças escrevem as próprias histórias. Nesse momento, o professor trabalha noções de grafia, coesão textual, pontuação, acentuação.

Depois do professor avaliar cada texto, cujo enredo é individual, os alunos fazem a leitura em sala de aula com a interpretação que quiserem. As leituras acontecem até mesmo para outras turmas da escola.

“É um dos momentos em que todo o nosso esforço para promover a educação nesse país é compensado. As ações podem ser adaptadas para qualquer realidade desse país, pois o que mudará serão os objetos de estudos, ou seja, o imaginário popular”, comentou.

O professor lembra que o projeto usa poucos recursos materiais, e que os principais instrumentos de trabalho são o lápis, o papel e muita criatividade, imaginação e vontade de aprender. Ele expõe ainda o desenvolvimento da leitura interpretativa e reflexiva entre as crianças ribeirinhas.

“O próprio aluno percebe quando a escrita está fluindo mais facilmente ou quando suas pernas não tremem mais na hora da leitura. Eles se encantam com as histórias que estão sendo resgatadas do imaginário popular local e que suas produções estão sendo lidas ou ouvidas por outros alunos. […] Me sinto como alguém que pode fazer diferença na vida dos nossos alunos. Talvez seja essa a minha grande missão”, detalhou.

Pela classificação, o professor ganhou R$ 7 mil, mais troféu e uma viagem oferecida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), autarquia vinculada ao MEC. Ele adiantou que o valor será revertido para digitalizar as produções dos estudantes.

“Pretendo investir parte do recurso na publicação do material dos alunos, através de cartilhas, para que outras clientelas estudantis possam ter acesso. Principalmente aos alunos da região do Bailique”, falou Barbosa.

O professor compartilha um dos textos escritos por um aluno de 11 anos, do 5º ano da escola Vila Progresso, cujo título é “A lenda do caranguejo”:

“Era uma vez uma ilha que se chamava Ilha do Sucuriju. Lá morava uma família. E nessa ilha a água era muito salgada e suja de barro.

Nessa ilha chovia muito no inverno e a família tinha que guardar comida antes do período de chuva. Só que neste inverno a chuva caiu mais forte e durou por muitos dias. Já não tinha mais comida na casa e o chefe daquela família resolveu enfrentar a tempestade e saiu em busca de alimento.

E durante a viagem a tempestade só aumentou e o cara enfrentou uma pororoca das grandes e sua canoa alagou e ele morreu. Antes de morrer ele fez um pedido a Deus para que sua família não morresse de fome. Deus ficou com pena e transformou o corpo daquele cara em caranguejos. E os caranguejos alimentaram aquela família. É por isso que os caranguejos possuem o corpo daquele senhor gravado em seu casco”.

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