[Clipping] Rio Cuiabá – O mito na boca dos velhos pescadores (1986)

pesca

Os pescadores, figura indissociável da paisagem do Cuiabá criaram uma rica mitologia para um rio em perigo.

Publicado por Rubens Araújo
Jornal do Dia, 24/02/1986

Não é raro as pessoas ligarem histórias fantasiosas à pescadores. Os peixes sempre aumentam de tamanho na boca de alguns. O rio Cuiabá, contudo, não apenas inspira pescas homéricas como também o aparecimento de “bichos estranhos” que o transformam dentro do folclore mato-grossense como uma das grandes e inesgotável fonte de lendas e mistérios.

Como os navegantes e descobridores do novo mundo, nos séculos XIV, XV e XVI que movido pela ignorância acerca de milhares de léguas de um mar até então insondável imaginavam que monstros indefiníveis habitavam a profundeza dos oceanos, os velhos pescadores do Cuiabá acreditavam – alguns chegaram a ver – que também o rio tinha animais terríveis. Guardando a medida exata pela diferença infinitesimal de extensão de um rio para o oceano, os monstros do Cuiabá eram bem mais modestos e tímidos do que os imaginados pela fantasiosa mente dos navegadores.

Da boca dos velhos pescadores do castigado e ainda piscoso rio Cuiabá, pescadores do castigado e ainda piscoso rio Cuiabá, de qual depende direta e indiretamente centenas de pessoas, é que se perpetuam lendas como a do tradicional “Minhocão”, monstro que varia de tamanho e forma ao sabor de cada caso contado pelos trabalhadores do rio. Porém, a visão mais consensual que se tem do “bicho terrível” que virava a canoa dos pescadores incautos é a que consta no livro “Sagas e Crendices de minha Terra Natal”, de Rubens de Mendonça. Segundo pesquisas do historiador, o minhocão seria uma “agigantada serpente que reside no fundo de um poço”.

Nova Geração
“Ele era que nem um barril, grosso e curto”, deu a sua versão por tabela do lendário animal o pescador Benedito Walter da Silva, 28 anos, que não chegou a ver o monstro, mas que garante que seu pai já o viu. Benedito é o exemplo típico da geração mais nova de pescadores, cujas histórias fantasiosas beiram ao pauperismo e a falta de originalidade. Segundo ele, hoje em dia as histórias dos mais novos limitam-se apenas à pescaria de um peixe “deste tamanho” ou então às lorotas que proclamam “que só a foto do peixe pescado pesava mais de 17 quilos” histórias “recentes” de pescador.

Benedito é a prova também do progresso, esclarecedor das ideias e desmistificador/mistificador, que alcançou o Estado. Antonio da Silva Albuquerque, 47, epígono de velhos pescadores e que não pode ser enquadrado em gerações mais recentes, ao falar dos “causos” dos seres que habitavam as profundezas do Cuiabá, como Benedito, sempre antecede suas opiniões com a expressão “antigamente”. Desse modo é que, de acordo com Antônio, pescador há 20 anos, “antigamente a turma” costumava ver bichos estranhos. Excluindo-se, continua: “Não cheguei a ver nada. Só vi a turma contando”.

Apesar do aparente descrédito, talvez em respeito a seus velhos e antecessores pais, na maioria – tanto Benedito quanto Antonio dizem acreditar – sempre no passado – que os tais seres existiram. Contudo preferem contar casos mais reais e mais concernentes com o século da tecnologia. Antônio, por exemplo, viu diante dos seus olhos uma enorme cobra, não o minhocão, mais “uma sucuri de três metros”. Para um réptil que chega a medir até 10 metros até que ele foi modesto.

Benedito,que não gosta quando estereotipam o pescador como mentiroso, foi ainda mais atual e realista. No rio Cuiabá, viu apenas cadáveres boiando. “Um mone deles”, tentou enfatizar. Pode até parecer mentira, mas frequentemente manchetes em jornais comprovam o fato. É o Cuiabá em nova e aterrorizante versão.

Versão Antiga
Enquanto isso os velhos pescadores vivem da versão antiga. Quando senhores absolutos do rio Cuiabá, mantinham com ele contato mais radical. Como os glamourosos filmes hollywoodianos, o rio era mais rico em tudo, inclusive em histórias. Era uma época que segundo o pescador Basílio Rodrigues da Conceição, 87, “havia muito mais peixe”. Basílio afirmou ainda que nesse passado, não tão remoto, havia as “rodadas” ou seja, a migração em conjunto dos peixes para o Pantanal. “Esses peixes juntos faziam o maior barulho. Era o mesmo ruído de grunhido dos porcos. Não dava quase para se conversar. Quando tinha a rodada, a pescaria ficava fácil, dava até para pegar pacu com a mão”.

Foi nessa época, em que chegava a “pescar 30 a 40 pacus em três horas”, que o próprio Basílio chegou a ver um animal estranho. Não sabe afirmar se era o famoso “minhocão”, só que era algo que nunca tinha visto na vida. “Ele passou por debaixo da minha canoa. Era pintadinho, chuviscadinho. Não deu para ver o bicho inteiro, só o meio dele. Só sei que tinha o formato de uma cobra”.

Não foi essa a única vez que o rio Cuiabá pregou sustos em Basílio. De outra feita, numa dessas noites em que “de madrugada” perdia o sono e ia percar, que ele disse ter ouvido um barulho enorme atrás de si. Virou e apenas viu uma enorme onda correndo veloz. Ficou assustado e com uma dúvida: aquela “coisa” que disse ter visto “podia ser um boi ou então o minhocão”.

Nestor Nunes da Silva, de 72 anos e que pesca “desde que se entende por gente” viu tantas ou mais aventuras que seu companheiro de trabalho. “Eu já vi muita coisa diferente no rio Cuiabá”, sentencia. Entre os bichos estrambólicos que viu estava um que não chegava a ser assustador pelo pouco tamanho que, segundo ele, o tal bicho possuía, mas que chamava atenção pela forma: “O troço tinha o corpo de um mussum, mas tinha pé de galinha, dois cornos na cabeça e uma enorme língua roxa”. O achado científico só foi visto uma vez pelo pescador.

Prostesto

Assustado mesmo ficou Nestor quando deu de cara com um “negrinho d’água”, outra das mais populares lendas inspiradas pelo rio Cuiabá. Essa crendice se assemelha muito à conhecida lenda do Saci Pererê, o moleque de uma perna só, protetor das matas que sempre danificava a artilharia dos caçadores e fazia mil peraltices nas fazendas. O negrinho d’água, na mitologia do rio Cuiabá, tem as duas pernas mas, como seu análogo, também protege as águas impedindo pescadores de conseguir uma boa pesca, cortando linhas e escondendo iscas ou simplesmente assustando-os.

O contato de terceiro grau de Nestor Nunes Pereira com um negrinho d’água foi para este, inédito e assustador. Segundo ele, tudo aconteceu antes de seu casamento, depois de um jogo de truco na casa do compadre Jonas. Ele conta a história: “Já era altas horas da noite e eu vinha subindo sozinho o rio na minha canoa. De repente senti que a canoa bateu em alguma coisa e logo depois algo subiu na proa da canoa, algo que não tinha peso, pois não senti nada. Era um trocinho preto, parecia até um cachorro. Ficou lá um tempo e depois desapareceu. Esse vultinho podia ser um negrinho d’água.

O velho pescador é mais um dos que acreditam na existência do “Minhocão” que, segundo ele, morava em um poço profundo, provavelmente o conhecido “poço do Nardinho”. Esse tão tradicional quanto o rio é berço e morada de muitos “monstros”. O interessante ainda em Nestor e Basilio é que na mesma medida de sua sabedoria popular está a preocupação ecológica com o Cuiabá que “não possui mais tantos peixes, nem a velha rodada”. As pessoas não respeitam mais o rio, estão até pescando pacuzinho deste tamanho. Assim não dá certo”, protesta Basilio.

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