Apresentação – Antologia Mitografias II

Capa Antologia Mitografias Volume 2 - Mitos de Origem

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Por Andriolli Costa

Vamos agora acompanhar o morto  e conhecer novamente a amargura.
Vamos dançar outra vez e afugentar os demônios.
Se não se sabe de onde vem a dança não se deve falar a respeito.
Se se ignora a origem da dança não se pode dançar.
— Xamã Na-Khi, citado por Mircea Eliade

No princípio era o verbo, a palavra criadora que deu forma ao não-pensado. Era o som primordial, Tupã Tenondé, que ribombava no infinito ecoando a existência. Era a eclosão do ovo cósmico, o Big Bang da matéria em eterna expansão. E assim tudo teve início.

Acostumados que estamos à cronologia, muitos podem acreditar que para algo tão único e precioso como o existir, caberia apenas uma origem singular — sendo as restantes, por eliminação, essencialmente falsas. Não poderiam estar mais incorretos. É que o tempo do mito é o não-tempo, onde criação e destruição acontecem simultaneamente e em potências de variação infinitas.

Tudo é verdade.

Séculos de mau uso da palavra tornaram mito sinônimo de mentira. Ou, ainda, de um sub-conhecimento, a caducar tão logo o povo alcance a iluminação por uma forma única de acesso ao conhecimento verdadeiro. Tolice. O mito não é apenas uma verdade contingente, daquelas que moram apenas nos discursos. Não, não. O mito é a grande verdade possível. A existência é sua grande prova.

Os mitos, e agora sim podemos trabalhar com o plural, não fornecem respostas para o que não entendemos. São as próprias respostas, formam e deformam tudo que nos cerca, atravessam nossa vida. Se hoje aqui nascemos, sentimos, vivemos, amamos e morremos, é porque um mito assim explica. É pela ação de seres fabulosos, heróis ancestrais, deuses e mortais divinizados.

Interessante pensar na quantidade de mitos que explicam origens dos nossos modos de fazer, e seria uma ingenuidade entender sua riqueza apenas pelas proximidades e não pelas diferenças. Com eles, aprendemos como plantar, como pescar, como colher ou, o mais básico de todos, como fazer fogo. Se na mitologia grega clássica é Prometeu quem rouba o fogo de Zeus, oferecendo-o ao homem e, com isso, tornando-se o pai da técnica, no Brasil ameríndio esse papel é representado pelos animais. O portador do fogo, com frequência, é a onça, e o homem recebe a chama graças à bondade de diversas espécies de pássaros.

É pela técnica que o ser humano separa-se da natureza no Ocidente — passando a dominar o mundo natural e a moldá-lo para seu habitar. Entre os povos indígenas, entretanto, uma surge a partir da outra. O fazer foi ensinado pelos bichos. Isso impacta em profundidade o próprio modo como um povo se relaciona com o ambiente.

Perceba que não se trata de pensar as origens de um mito. Como ele surgiu — seja na sua própria meta-narrativa seja a partir de suposições historiográficas — não nos interessa neste volume. O que buscamos são os mitos de origem, narrativas sagradas que dão forma à nossa própria experiência de estar no mundo. Lévi-Strauss já alertava: não pretendia escrever sobre como o homem pensa os mitos, mas como os mitos pensam o homem. E tudo isso, frisava, à sua revelia.

Mas não são eles nossas criações? Simplório. A morte de um indivíduo não encerra o poder de um mito. O extermínio de todo um povo não impede que uma crença ressurja séculos depois. Diferente, com toda certeza, mas não é sempre assim? O mito também se transforma e até muda de nome. Mas nosso desejo de conexão, nossos sentimentos, medos e inspirações permanecem os mesmos.

Os Mitos vivem.

Buscamos as pulsões dessa vida ancestral neste segundo volume da Antologia Mitografias. No primeiro, Mitos Modernos, lançado de maneira independente em 2017 e impresso em 2018 pela Editora Penumbra, tiramos os seres encantados de seu tempo mítico. Por sua vez, em Mitos de Origem, buscamos esse tempo originário — seu eterno retorno à criação.

As narrativas que habitam este livro recuperam mitos sobre o surgimento de tudo. Falam da passagem do tempo, da criação dos astros, das terras em que vivemos, dos sentimentos que nos guiam e da essência que nos une. Falam sobre como mitos nascem e, de certa maneira, como morrem. Criação e destruição, afinal, são indissociáveis, como as duas faces de Janus, Coincidentia oppositorum.

Mas não pense que aqui nos limitamos ao recontar. Cada história aqui contada é única, carregada de personalidade e autoria. Ao mesmo tempo, essa história também é a mesma. Falar da origem é também falar do hoje. Passado e presente se encontram no tempo mítico, e nele podemos eternamente nos encontrar.

Na capa de nossa antologia, a loba capitolina rosna e protege sua cria adotada. É ela que servirá de mãe mitológica para os fundadores de Roma, sendo, de certa maneira, a matriarca do próprio Ocidente. Ela nos amamenta com histórias fantásticas que, cabe sempre repetir, não dizem sobre seres encantados, mas sobre nós mesmos.

Mergulhe no tempo das origens. Quem sabe nele você descobrirá mais sobre o mundo. Mais sobre você.

Boa leitura!

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