PORANDUBA 54 – Cyberagreste

Por Andriolli Costa

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Bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast do Colecionador de Sacis sobre as histórias fantásticas do folclore brasileiro. Esta semana vamos refletir sobre a polêmica envolvendo o chamado “Cyberagreste”, uma sugestão de subgênero literário da ficção científica que reimagina um Nordeste futurista. O tema se tornou controverso quando a ideia, antes puramente estética, passou a receber acusações de trazer uma visão estereotipada e limitada dessa região do País. No programa de hoje vamos partir de uma leitura dramática de um trecho do conto Filhos do Metal e da Caatinga para explicar o ocorrido e seus desdobramentos.

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Apresentação e edição: Andriolli Costa.
Vinheta de Abertura: 
Danilo Vieira Battistini, do podcast O Contador de Histórias.
Logo do podcast: 
Mauro Adriano Muller – Portfólio.

– Canto de abertura e encerramento do povo Ashaninka

Na trilha sonora de hoje você ouve Ivison Trio com Assum Preto, Nação Zumbi e Siba com Trincheira da Fuloresta e El Efecto com O Encontro de Lampião com Eike Batista.

Poranduba agora faz parte da rede Audiocosmo de Podcasts, do grupo Homo Literatus! Confira os outros programas da rede. Não deixe de olhar também os participantes da rede PodcasTchê, só com programas feitos no RS.

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Comentado no Episódio:

Leia a transcrição do programa (feita pela Jessika Andras)

Bem vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas do folclore brasileiro! Eu sou Andriolli Costa, o Colecionador de Sacis e serei seu guia.

E no programa de hoje, nós vamos falar sobre o malfadado Cyberagreste, que foi sugerido enquanto um possível subgênero da ficção especulativa no Brasil, mas que causou muita polêmica por, supostamente, representar de maneira estereotipada e preconceituosa, a região nordeste do país.

No programa de hoje, a gente vai explicar um pouco dessa polêmica, vamos refletir sobre os cuidados que se deve ter ao retratar um lugar que você não conhece e entender essa controvérsia do sertãopunk, o oposto imediato de um cyberagreste. Vamos lá?

Bom, se você não sabe o que aconteceu, a gente precisa primeiro resumir um pouco essa historia. É o seguinte: cyberagreste se tornou a grande polêmica dessa primeira semana de setembro de 2019. Mas ela começou 1 ano atrás, que foi quando o ilustrador de Pelotas, no RS, o Vítor Wiedergrun fez, durante todo o mês de setembro de 2018, uma ilustração original como parte de um desafio.

Primeiramente ele fez sketches, pensando em construir conceitos para um Brasil cyberpunk inspirado nas varias regiões que a gente tem de mata nativa. Seria uma cybercaatinga, um cybercerrado, uma cybermata atlântica… E o que ele achou mais interessante foi essa cybercaatinga, só que o nome não ficava bom. Então ele procurou um pouco e encontrou o agreste. O agreste é uma região no Nordeste que fica entre a zona da mata e o sertão, propriamente dito. Então ele nomeia aquela primeira ilustração como sendo cyberagreste e ela consiste em uma espécie de cangaceiro astronauta fazendo uma navegação num mapa projetado e esse mapa indicando um X, onde estaria um tesouro.

A ideia não era que todo mês fosse de cyberagreste, mas acabou sendo. Fez sucesso, aquilo começou a repercutir, teve vezes que o Vitor disse que começou a fazer uma arte inspirada mais em piratas mas que acabou se resolvendo mais puxando ali pela questão do Nordeste e funcionou também, né, porque o pirata e o cangaceiro compartilham muito desse imaginário de tensionamento entre o herói e o vilão. Não à toa que piratas do Caribe está aí fazendo sucesso com personagens que são bandidos, são ladrões, cantam que é preciso “tirar tudo e não dar nada em troca”, enfim. É a paixão que a gente tem pela controvérsia, que movimenta também pela figura do cangaceiro.

E comentando um pouco sobre a arte do Vitor, eu gosto especialmente do que ele faz, no sentido de que ele foge da obviedade do braço mecânico. Como isso me cansa, haha! Quando o João Queiroz lança a arte, que primeiro ele nomeou como SILVIFUTURISMO, e depois quando ele viu que Silvícola era uma coisa meio racista, ele passa pra Amazofuturismo, foi uma das críticas que eu fiz: que um indígena com um braço metálico… putz grila, né… Essa é a melhor solução que a gente conseguiu? E botar a pintura corporal em roupas… então vestiu, civilizou ele, puxa vida… essa, enfim. Podemos falar de Amazofuturismo no futuro. Mas essa foi uma das críticas que eu fiz lá na Hora Folk, quando fomos comentar, porque acho que o Vitor foge muito disso, e é uma grande potencialidade do seu trabalho.

A gente tem lá muita referencia retrô, muito cabo, uma estética do Moebius, coisa assim, que dá pra ver nas referências dele. Coisas que ele mesmo admite que tem mais uma função estética do que funcional ou narrativa. Então se hoje a gente tem o Wi-Fi, por exemplo, não faz sentido o futuro ter tanto cabo. Mas o cabo fica estético, fica interessante, então ele investe bastante nisso.

Enfim. A ilustração ela dá indícios de uma história, mas não há uma história ali. O fato de não ter uma narrativa intrínseca também bagunça um pouco, né. Foi compartilhada uma arte do Vitor que tinha um camelo, e além do camelo alguns elementos de cyberagreste, então por isso muita gente falou que ele estava botando um camelo no sertão. E acaba sendo, realmente, esse reforço de um imaginário da desertificação. Então eu conversei com o Vitor e ele disse que aquilo foi pedido de um cliente, foi uma comission, não fazia parte da série, era outra coisa. Apesar de que, por ter esses elementos e ter sido compartilhado em rede, com aquele estilo que ficou tão peculiar, feito pelo Vitor, acabou gerando essa confusão.

E o que aconteceu? A arte do Vitor chamou muito atenção das pessoas, e elas começaram a procurar histórias que correspondessem às sensações que aquelas artes proporcionavam. E não encontraram. Se a gente garimpar muito hoje, vamos encontrar uma coisa ou outra, muita gente vai lembrar do cangaço overdrive do Zé Wellington, mas como não tinha essa facilidade de encontrar, então as pessoas se sentiram com desejo de contar essas histórias.

Isso foi o que aconteceu com a escritora Laisa Couto Ribeiro, que participa da antologia 2084: Mundos Cyberpunk . O conto da Laisa, que vocês ouviram um trechinho no começo do programa, foi escrito a partir das artes do Vitor. Ela pede permissão pra ele, porque queria escrever uma história assim, e acaba tendo esse espaço. Acontece que no dia 2 de setembro, a Lidia Zuin escreve um artigo chamado Amazofuturismo e Cyberagreste, por uma nova ficção científica brasileira . Ali ela entrevista o Vitor, entrevista a Laisa e sugere o cyberagreste como sendo um possível subgênero de ficção especulativa para o Brasil, falando que isso era muito interessante e termina com uma frase que, ao meu ver, gerou bastante dessa controvérsia, ela diz:

“Ademais, esses subgêneros, nos permitem deslocar a produção ficcional brasileira do contexto cosmopolita Rio-Sao Paulo. Então, demonstrando a riqueza da cultura brasileira, seja em sua vastidão geográfica ou na diversidade de expressões e populações”.

Um pouquinho depois disso, a Laisa faz uma thread no Twitter contando a experiência de fazer um cyberagreste, chamando as pessoas e dizendo que esse é um gênero aberto, onde todos podem criar, etc. E aí que começa a polêmica. Que encontramos resumido perfeitamente nos textos dos companheiros Alec Silva e Alan de Sá.

O Alan de Sá é um autor folk, escreveu um livro chamado Marani que foi lançado primeiro no Wattpad, depois em editora. E o Alec é um escritor baiano que tem uma longa tradição na produção independente. Entre outras coisas ele foi um dos organizadores da antologia Estranha Bahia, junto com nosso padrinho Ricardo Santos. E os dois, cada um à sua maneira, escreveram textos explicando porque que eles viam com irritação essa movimentação em torno de um cyberagreste.

A crítica deles, que pra mim faz todo sentido, é: como assim tirar do contexto cosmopolita Rio-São Paulo sendo que, quem está escrevendo sobre o Nordeste, são justamente pessoas de fora do Nordeste? São sulistas, são sudestinos, são esses autores de fora que estão lançando seu olhar sobre aqui. E um olhar que não corresponde em absoluto com a nossa região. É assim que eles sugerem, ao invés de se trabalhar com uma ideia de cyberagreste, trabalhar com sertãopunk.

E o sertãopunk, então, seria essa resposta, um movimento realmente nordestecêntrico, feito de dentro. Então eu vou linkar [no post] o texto deles, que tem um começo de um manifesto sertãopunk. Em breve vamos ter novidades que eles estão prometendo…. É de se ficar atento.

Então, primeiro de tudo, eu acho que a gente não deve personalizar ataques. Não é culpa do Vitor, não é culpa da Laisa, é uma discussão maior do que as pessoas; é uma discussão sobre mercado, sobre como que as coisas, se fossem produzidas mesmo por pessoas lá de dentro do Nordeste, talvez não tivessem a mesma repercussão que estão tendo feitas por pessoas de fora.

Mas, observando especificamente o caso do conto, a gente consegue tirar coisas dali que nos ensinam muito: então, por exemplo, a gente tem o sertanejo retratado como um povo lagarto, como um povo menor, monstruoso. E o olhar da ginóide, que representa essa tecnologia, que representa esse estrangeiro, estrangeiro da própria humanidade, ele olha com afeto e piedade. Talvez nem todo mundo fosse se atentar pra isso, mas foi uma das coisas que mais me incomodou, esse olhar que pode muito bem representar a comiseração que a gente que é de fora pode ter com esses povos do Nordeste.

O que mais que a gente tem ali? A gente tem a carne de urubu… ah, sei lá né… E o “vosmecê” na boca do pai de família. Acho que vocês conseguem também perceber que a própria fluência do texto não corresponde ao cenário da região, a voz do povo, o sotaque do povo… Eu não preciso botar um sotaque aqui no meu texto, botar um monte de expressãozinha local, mas meu texto se engrandece muito quando eu tento chegar nessa outra região, se eu consigo me aproximar do som. Na prosódia. Então a gente vai percebendo varias coisinhas assim.

E o que o Alec e o Alan reivindicam é que um movimento, ou um subgênero, que seja nordestecentrico, não faz sentido que seja feito por pessoas de fora do Nordeste. E isso me parece muito razoável. Há ali no texto deles uma agressividade patente bastante coerente, primeiro por ser uma resposta a algo que eles julgaram violento, que é solapar sua identidade, e segundo que, talvez, se não fosse tão agressivo, será que a gente ia escutar? Então, eu entendo esse movimento de resposta. O que eu quero trazer aqui são problemáticas que a gente pode depreender a partir disso, que podem engrandecer o debate.

Uma delas é que a gente não pode validar ou invalidar alguma coisa porque pessoas se sentiram representadas. Como assim? Bom. Tem muita gente, muito nordestino, que gostou do cyberagreste, e isso não invalida de maneira alguma as críticas feitas, porque a gente tem uma carência de representação, especialmente nesse momento do FANTASISMO, nas palavras do Bruno Matangrano, muito forte no Brasil. A gente tem necessidade de se ver na fantasia, na ficção especulativa. Então assim, eu gosto muito que o Antônio Callado. tenha colocado Corumbá em um dos seus livros, mas eu fiquei exultante quando lendo Espada da Galáxia do Marcelo Cassado ele fala de Maracaju, que é cidade aqui perto, do meu Mato Grosso do Sul.

Porque o André Vianco fez sucesso ali, em 99 ou 2000? Porque ali as pessoas podiam ver o shopping de Osasco ser invadido por vampiros, podiam ver um tiroteio na casa da pamonha. Eu nunca vi uma casa da pamonha na vida, mas só de ter essa relação de Brasil, já me senti representado. Imagina quem frequentava? Com essa carência, não podemos considerar o simples fato de pessoas gostarem como sendo validador. Isso ainda é insuficiente.

Uma das críticas que eles colocam é sobre como que essa visão estereotipada sobre o Nordeste vai sempre vincular à seca, ao cangaço – que é uma coisa que fica no passado, banditismo não mas cangaço sim – e a seca. Hoje já se avançou muito mais, então essa imagem de aridez não faz tanto sentido, porque políticas publicas foram implantadas, e que para Alan e Alec esse rescaldo imaginário que faz a gente sempre voltar pra esse Nordeste idílico, terra de retirantes com saudades de casa, etc é limitador.

Vamos lá: quando eu comecei a ver essa discussão, lembrei muito da dissertação de mestrado de um companheiro que estudou comigo na UFSC, que é o Carlos Borges da Silva. Ele é lá do Pará e compara, na sua dissertação, as imagens de Amazônia construídas pelo jornalismo e pela literatura ao longo de décadas. O que ele percebe é que existe uma transição na maneira de representar esses lugares, em um momento a Amazônia vai ser espaço de progresso, então vamos construir ali a transamazonica, vamos ligar as coisas e vai ser o futuro. E depois, uma outra imagem que é a Amazônia tradição, vamos recuperar as comunidades ribeirinhas, etc.

Isso são ciclos de alternâncias que, com o passar dos tempos, cada vez mais passam a coexistir. Podemos lembrar das varias fases da literatura regionalista, por exemplo, que primeiro vão encantar esse Brasil, fazê-lo idílico, quase heroico, então chega uma segunda fase da literatura regionalista que é justamente o contrário, onde mostra as feiúras, mostra as doenças, e cada um [autores] vai ter seu movimento.

Lobato vai falar que Bernardo Guimarães falseava o Brasil, porque ele fazia a Índia feia virar uma princesa linda, mas quando Lobato faz isso ele também está introjetando uma visão igualmente preconceituosa, só que de um outro lado, sobre os povos indígenas sobre sua beleza ou feiúra, então é questão de com qual movimento você se alinha.

O que quero dizer com isso é: o Nordeste idílico vai continuar sendo retratado, mesmo por pessoas que são de dentro. Eu entendo que é diferente, quando é feito por quem é de dentro ou por quem é de fora, mas a gente ainda vai chegar nessa discussão.

O que estou falando agora é sobre a representação mesmo. Assim como um Nordeste que é justamente o contrário, ele também vai encontrar o seu espaço e ambos vão coexistir e vai caber ao leitor e ao público se alinhar (ou não) a cada uma dessas visões. Quando o Carlos faz a pesquisa dele, a grande conclusão é: o que que faz com que essas imagens venham e voltem, com que essas coisas persistam e sumam, depois sejam recuperadas, é porque cada uma dessas imagens tem rastros do passado, mas ela diz sobre o presente e ela projeta anseios e desejos para o futuro.

Então, em última instância, a imagem do Nordeste, por mais que eu fale dele sendo algo ancestral, algo ligado a outros tempos, etc. se eu escrevo minha narrativa hoje, eu estou trazendo isso para o agora, porque é isso que vai estar me atravessando, indicando aquilo que vai ser o guia pro futuro. Então nisso acho que faz todo sentido que a gente pense em imagens mais complexas de qualquer região que a gente for retratar, tendo consciência de que, se a gente projeta pro futuro estereotipia, preconceito, limitação, ignorância, é isso que a gente vai estar lançando.

Isso também acaba sendo um convite para o próprio autor local descobrir a sua região. Eu lembro que, no Poranduba que a gente lançou com o Ian Fraser, ele disse que ele mesmo tinha essa impressão da Bahia sendo mais agreste. E ele passa a circular por outras regiões da Bahia e vê uma vegetação exuberante, então conhecendo os espaços que também a gente transforma o nosso modo de ver e narrar.

Quero entrar numa coisa que é espinhosa, prestem atenção nisso: uma das críticas que especificamente no texto do Alan a gente vai encontrar é sobre essa falsa ideia de uma identidade cultural a nível nacional. É verdade que a identidade nacional é uma construção, como tudo, tudo na nossa vida é uma construção social, porque nada é dado. Então sim, a identidade brasileira é construída, então é aquele discurso clássico de que a identidade é a maior violência que se impõe ao indivíduo, porque está fazendo com que ele se encaixe num grupo.

Você pode ver assim, mas pra quem trabalha com o que eu trabalho, isso não faz sentido. Quando a gente vai para essa primazia do indivíduo, como sendo o indivíduo único, singular de tudo, que não está ligado a nada, a gente está ignorando essa potência simbólica ancestral que nos une enquanto grupo. Então é muito perigoso esse discurso contra identidade e contra uma identidade que seja maior do que o grupo imediato.

E eu, particularmente, tenho muito medo desse tipo de discurso, especialmente nos dias de hoje, que instiga a segregação do olhar. Quando a gente olha o Brasil, podemos ver as enormes diferenças que temos entre os estados, mas a gente pode ver as semelhanças. Um exemplo que eu sempre dou a nível nacional, se eu não gosto, não vivo, não me sinto representado pela cultura do Brasil ou da minha região, vou pra França e encontro lá um grafite do saci urbano do Tiago Vaz, eu olho pra aquilo e eu sei que pra um francês é um desenho qualquer, pra mim é um saci, eu consigo identificar porque aquilo me atravessa, por mais que eu não viva, por mais que eu não goste, me atravessa. É por isso que estamos tendo questões identitárias.

Eu já tive a experiência de ter que dar uma aula falando sobre a cultura de Mato Grosso do Sul. Muito da cultura do Mato Grosso do Sul a gente vai falar da fronteira, comidas da fronteira, bebidas da fronteira, dança, muita coisa do pantanal… e da capital? Você acha que o pessoal da capital se sente representado pelo pantaneiro? Claro que não. Pelo fronteiriço, da fronteira imediata? Claro que não, também. Só que seria um grande equívoco se um morador da capital olhasse e falasse “isso daqui não tem nada a ver comigo!”. Claro que tem, porque você faz parte desse estado e você deveria entender que aquilo faz parte das coisas do seu entorno, então por mais que você nunca tenha passado a mão num gado Nelore, a cultura bovina e agropecuária do meu estado está implicado em tudo, inclusive na capital. Está no sertanejo, no jeito que as pessoas se vestem, está naquilo que está na moda ou não, é só a gente abrir o olho.

Então, no caso do Nordeste, existem vários nordestes, o meu Nordeste é diferente do seu, o seu Nordeste é diferente do [nordeste] do outro? Claro que é. Mas se a gente só olhar a separação e não a ligação, a gente está trabalhando com folclore da maneira errada. Por que? Porque folclore é comunhão, isso é uma coisa que eu sempre defendo. Folclore é comunhão, ele vem dessa troca com o outro e nesse outro eu me reconheço.

No último texto, escrito pelo Alec, ele fala que o objetivo ali não é que alguém de fora do Nordeste possa escrever sobre ele. A questão é que, se essas pessoas fizerem, elas estão sujeitas a críticas. Mais do que isso, as pessoas podem escrever sobre qualquer coisa, mas a visão que elas vão ter é que será o diferencial. À essa ponderação, faz muito sentido aquilo que o Ian Fraser escreve num texto resposta, apontando o seguinte: ele [Ian] enquanto um baiano branco, ao retratar Salvador, vai fazer um trabalho muito bom em trazer o sotaque, em trazer o cenário, em trazer esse colorido para a narrativa só que, se ele for trazer uma discussão de racismo na Bahia, talvez um gaúcho negro faça um trabalho mais completo e mais competente do que ele seria capaz de fazer, mesmo nunca tendo ido na Bahia.

A discussão aqui é não o que a gente pode ou não pode fazer, mas sim qual é o alcance do nosso olhar. O que eu consigo ver que vai fazer com que meu texto tenha a acrescentar? E o que você, que é da região, é capaz de produzir e de fazer. Essa é uma das belezas da literatura, da arte. O Ian vai falar em empatia, eu acho que não é só empatia, pra mim é a comunhão. E entendendo o outro, captando anseios do outro, eu tenho que desenvolver minha sensibilidade ao ponto de poder comungar com ele.

Então, se você quer fazer arte inspirada em outro lugar, faça. Mas comungue dessa cultura, visite se puder, se não puder pesquise, leia, ouça… especialmente ouça, porque é ouvindo que se consegue captar a voz do contemporâneo. E é essa voz que precisa estar presente no seu texto.

Por fim, para a gente encerrar o programa de hoje e as pessoas não me falarem “ai, Andriolli, é muito fácil falar como tem que ser feito, mas você não mete a mão na massa”. Pelo contrário, aproveitei esse momento aqui, em que eu tinha que entregar um conto para a antologia do professor Assis Brasil da PUCRS, e é uma antologia sobre distopias, o livro vai ser lançado agora na feira do livro de Porto Alegre e eu escrevi uma história de, digamos assim, cyber cerrado. Ali, eu tento trabalhar com questões polêmicas de uma maneira que eu consiga resolvê-las do jeito mais reflexivo, atento e atencioso possível.

Eu me comprometo que, assim que o livro sair, eu leio um trecho dele aqui pra vocês. Só pra vocês terem uma ideia de que o que acontece é: a minha distopia brasileira tem início quando aquela carta famosa, que foi conhecida como a carta de suicídio dos povos indígenas, caso dos Guarani kaiowá aqui no Mato Grosso do Sul foi efetivada. Não só daquele povo, mas no mundo que eu criei ali, em todo o Brasil, os povos indígenas a partir de uma data, eles morreram. E isso dá origem a Brasil dividido por uma casta racial. A minha história vai seguir por aí com um protagonista que vai descobrir sobre esses povos indígenas que existiram e que a história fez questão de apagar e, assim, é um conto chamado Retomada.

De coisas que eu acho que faço opções felizes ali é: o meu protagonista estar descobrindo, assim como eu, por assim dizer, estaria descobrindo, já que não sou indígena. O que estou fazendo é lendo a partir dessas leituras e entendendo essa cosmovisão, essa feitura, do barro, do fazer com as mãos influencia e se distancia ou não da tecnologia. Ali também tem uma coisa muito contemporânea que é povos indígenas que perderam a sua cultura e que redescobrem a partir de documentos. Isso acontece.

Tem muitas histórias de cantos, danças que são reinstituídas dentro de uma comunidade indígena porque os líderes encontraram esse material em trabalhos de antropólogos e reintroduzem isso. E aquilo volta a fazer sentido. Também tem no meu conto uma discussão sobre auto identificação indígena, que é uma coisa muito atual e, colorindo tudo isso, tem representações do meu estado, que estão no modo de falar, de pensar, de tradição que a gente esquece de onde vem a origem. Do chimarrão que o gaúcho toma e o tereré que a gente toma aqui, ele tem lastro indígena. Quantas vezes a gente se lembra disso? São todas discussões que eu fui capaz de trazer para transformar a minha discussão cyberpunk em algo regionalizado, com sentido e sem fugir de polêmica.

E para vocês terem uma ideia do que eu deixei de fazer, a primeira ideia que eu tive era que o meu protagonista poderia trabalhar com questões de biotecnologia e descobrir no DNA que, por mais que os indígenas tivessem morrido, ele tinha sangue e tinha uma descendência indígena por causa dos genes. Eu abandonei essa ideia porque eu percebi que isso daria espaço para aquele discurso de que “somos todos indígenas”, “todo brasileiro tem um pouco de sangue indígena” e isso permite que eu me identifique, faça, aconteça… e eu não concordo com isso. Eu não acho que isso seja realmente válido, e se eu colocasse esse elemento na minha história, por mais que pudesse ou não fazer sentido, eu estaria alimentando um discurso que eu não concordo.

Então a gente faz essas ligações, entre um trabalho que é puramente estético, como o do Vitor, e entrar, efetivamente, numa narrativa punk e entender politicamente a importância de a gente ir para além da estética e ver o que a gente está contando e o que a gente está propondo. Como esse é um assunto muito espinhoso, tenho certeza que ele não se encerra aqui, nesse programa. Eu faço questão de ouvir o que vocês têm a dizer, por favor, comentem abaixo e digam qual é a sua impressão sobre o cyberagreste é sobre essa liberdade que a gente tem (ou não) de escrever sobre lugares que a gente não conhece e, especialmente, faço um convite a vocês.

Entendo, você, companheiro, que está aí mandando dar porrada em cyberagrestiano. Eu sei que isso é mais uma brincadeira do que qualquer coisa, mas vai lá na página do artista e manda uma mensagem pra ele, explica o que está acontecendo, explica como você se sentiu e se, bom, se ele não der atenção, paciência. Mas eu tenho certeza que, um artista consciente, que é capaz de refletir sobre o seu próprio trabalho, com certeza vai entender se você explicar. Então, comunhão, né. =)

2 Respostas para “PORANDUBA 54 – Cyberagreste

  1. Curti demais a discussão do episódio. Eu não estava sabendo dessa polêmica sobre representatividade nordestina, muito bom saber.

    Li os textos do Alan e do Alec, que estavam no post, concordo com eles. Apesar que “Sertãopunk” também tem lá seus problemas assim como a expressão “Cyberagreste”, esta porque traz “agreste” sendo que isso é uma tripa no mapa do Nordeste, por isso, não serviria tão bem para representar o todo, além do mais, nas ilustrações do cara aparece mais um semiárido do que o agreste. Já o “Sertãopunk” pela palavra “sertão” ia deixar de fora o agreste, a parte litorânea da zona da mata, o meio-norte com o Maranhão e o Piauí. Aí fica difícil. Por que não um simples “CyberNordeste”?

    Creio que o maior problema não seja trazer a seca e o cangaço numa obra de arte – seja quadrinho, romance, poema etc. –, mas sim só retratar esses aspectos. É o problema da história única que a Chimamanda fala. O Nordeste (e o Brasil) tem uma identidade fragmentada, são muitas faces.

    P.S.: nos textos, descobri algo novo: Livusia.

    P.S.2: sou um dos que gosta da arte do Vitor Wiedergrün. O sanfoneiro e o lanceiro são muito bons.

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  2. Pingback: QUEM PODE IMAGINAR O NORDESTE? | ricardoescreve·

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