Entrevista com Câmara Cascudo (Manchete, 1964)

Por Pedro Bloch na Revista Manchete
Nº 619, de 29/02/1964


Quando Gervásio Baptista, fotógrafo de Manchete, acabou de bater as chapas de Luís da Câmara Cascudo, em sua velha casa da Av. Junqueira Alves, 377, em Natal, Rio Grande do Norte, pediu de repente ao gênio do nosso folclore: “Posso lhe dar um beijo?” E antes que o autor de Jangada pudesse esboçar um gesto ou palavra, beijou-o e foi embora. Depois perguntei ao Gervásio por que tivera aquele impulso e ele, que nem lhe sabia o nome, explicou: “Senti que o homem é grande mesmo, compreende?

Quando eu disse a Luís da Câmara Cascudo que tinha vindo a Natal especialmente para entrevistá-lo, olhou-me meio desconfiado, os olhos expressivos se encheram de água, a cabeleira grisalha pareceu mais revolta e mastigando comovido o charuto (fuma dezoito deles por dia, em média) comentou: “Eu digo como o meu velho compadre José Mariano Filho: – E mentira, mas é gostoso!” E ficou a me olhar do fundo de sua velha cadeira de balanço. (“Sabe? Meu genro fez aquelas duas poltronas modernas, ali. Levou dois anos desenhando e inventando. Depois de prontas eu descobri uma coisa: – São uma maravilha, mas servem pra tudo, menos pra sentar!”).

A CASA – É antiga (“nesta casa nasceu minha mulher, aqui me casei, aqui nasceram e casaram meus filhos”). Ao subir a escada de pedra a gente dá de cara com flores: Rainha-da-noite. E um aviso: “O Prof. Câmara Cascudo só recebe à tarde e à noite.” (“Eu sou o único homem feliz do Brasil, sabe, Pedro Bloch?”) Grande terreno com bancos e gaiolas, dois cachorros, o Ming e o Mambo. Dentro da casa, livros entulhando estantes e mesas, quadros invadindo todas as paredes, fotos autografadas de grandes de todos os tempos, recortes de revista com o retrato de um cardeal negro, porta com a pintura de um cangaceiro, estátua de S. Francisco de Paula olhando desconfiado certas imagens africanas e indígenas, gavetas entulhadas de anotações e obras em elaboração. Nas paredes, autógrafos de gente famosa e de amigos que por ali passam. Avesso à política, recebe líderes de todas as correntes. No mesmo dia podem ali estar o Francisco Julião e D. Eugênio Sales, o bispo. Graças a este homem singular, Natal é hoje o maior centro folclórico do Brasil. Cascudo é das mais respeitadas figuras de sua especialidade em todo o mundo.

O HOMEM – “A rua em que nasci se chamava lindamente: Rua das Virgens. Em 55 pregaram na rua o meu nome: Câmara Cascudo. Escrevi desaforo, xinguei meio mundo. Mas a placa ficou lá. E na casa ainda me botam uma outra que diz que ali nasci eu, a 30 de dezembro de 1898. Conclusão: sou o único rio-grandense vivo que não pode negar a idade. Sou da geração de Lampião e Luís Carlos Prestes. Também da de seis acadêmicos da Brasileira de Letras. Eu na academia? Pra quê? O Afrânio Peixoto dizia que eu era um provinciano profissional e incurável. Não sou nem federal, nem estadual. Sou municipal. Fico por aqui. E quando saio sou como pombo-correio. Volto certinho pro meu canto. Daqui, só pro Alecrim”. (Bairro do cemitério de Natal.)

A HISTÓRIA – “Meu pai era o Coronel Francisco Cascudo, da Guarda Nacional. Coronel por afeto, de graça. Foi rico. Sou filho único. Pois o homem morreu pobre. Sabe por quê? Porque deixou 1.500 afilhados. E ajudou a todos”. E Cascudo me olha, ainda assombrado com aquela enormidade.

“Não existe uma fortuna em Natal que não deva nada a ele. Andava de polainas, monóculo e bengala trazida do Egito. Papai, comerciante, era um homem tão extraordinário que manteve, do próprio bolso, um jornal, de 14 a 27, para que a geração nova pudesse escrever. A imprensa, naquele tempo, defendia até direito de greve! Escrevi meu primeiro artigo em outubro de 1918. Daí por diante nunca mais me restabeleci. Papai, apesar das poucas letras, era inteligentíssimo, resolvia qualquer eleição, derrotava qualquer governo. Mas era tão bom, que em vida dele nunca ninguém chorou por sua causa. Quando morreu, sim. Foi o maior enterro que já se viu por estas bandas. Veja a grandeza de papai: sendo um homem prático, nunca quis fazer de mim um homem prático. Respeitou a minha mania de livros. Pra manter este filho inútil só pediu uma coisa: – que estudasse Latim. Estudei”.

“Mamãe (Anamaria) morreu no ano retrasado. Era ela a única pessoa do mundo para quem eu continuei sempre criança”. Câmara Cascudo se manteve fiel ao seu estado. Fora dele o esperavam o Rio, a academia, a projeção fácil. Mas, além do seu amor ao Rio Grande do Norte, o prendeu um pai que adoeceu e que não quis abandonar. Escolheu, então, por vocação e obrigação, algo que só pudesse ser feito em Natal. – “Resolvi fazer a valorização da cultura popular brasileira”.

“Estudei, em pequeno, em casa, com grandes professores, passei pelo Ateneu Norte-Rio-Grandense, fui estudar Medicina na Bahia, em 1918 (“nesse tempo nem havia candomblé de verdade”). Fui até o quarto ano. Depois fui vadiar, usar polainas e escrever em jornal. De 24 a 28 estudei Direito, no Recife. Em 29 casei com Dália, nome de flor sem espinhos. Minha sogra está com 95 anos. E uma marquesa de fidalguia. Até os noventa tocava piano comigo, a quatro mãos. Tenho dois filhos, Fernando Luís, que você conhece (trabalha em publicidade e é compositor inspirado. Todo o Brasil canta Prece ao Vento, que compôs com Gilvan Chaves), e Anamaria, que me deu uma neta: Daliana“.

FOLCLORE – Djalma Maranhão, prefeito de Natal, diz: “O Rio Grande do Norte tem seu folclore mantido, defendido, vivido. Câmara Cascudo, sem sair da província, com recursos pessoais, incompreendido durante certa época e até negado, iniciou sua campanha pelo folclore num ângulo original. Ajudei-o quanto pude.”

Desde Animais Fabulosos do Nordeste a Vaqueiros e Cantadores até o monumental Dicionário do Folclore Brasileiro e obras mais recentes, as dezenas de trabalhos do grande estudioso, abrangendo vários setores da cultura, mas convergindo para a cultura popular, têm assombrado nossos centros. Seu nome, Câmara Cascudo, é hoje quase folclore também.

“Nunca me interessei pelo folclore. Ele é que se interessou por mim. Eu não achava graça no que se escrevia por aqui. Era tudo na base do alto gabarito. Eu achava interesse mais era no trivial cotidiano. Comecei a fazer rodapé: ‘Ronda da Noite.’ Acompanhava, a cavalo, a ronda policial e ia descrever o que vira: pileques e prostitutas, brigas e trapaças. O escândalo maior era isso ser feito por menino rico, bem. Depois vieram, naturalmente, as outras coisas que eu via: ‘Festas dos Reis Magos’, tanta coisa! Mário de Andrade não podia compreender. Pensava que eu tinha sido levado à cultura popular pela erudição. Mentira! A cultura popular é que me levou a esta. (“Por esta sala já passaram Juscelino e Villa-Lobos. Mas também aqui vieram Jararaca e Ratinho.”) Compreenda bem. Quando comecei a trabalhar, observei que as pessoas só viam o matutismo, o anedotário da cultura popular. Prometi a mim mesmo: “só escreverei de corpo inteiro. “ Estudo poesia sertaneja no duro. Por que isso? De onde veio? Por que baixa o violão? Por que isso e mais aquilo? Todo o trabalho é orientado no sentido de conservar o essencial e dispensar o acessório.

Explica Maranhão: “Já em 13 ele dava as permanentes do conto popular: antigüidade, anonimato, divulgação, persistência, subentendendo-se oralidade como meio de transmissão. Foi Cascudo, em 1942, quem distinguiu história de estória, quando se refere ao conto popular. Pouca gente se lembra disso.”


“Neste trabalho, Seu Pedro, é preciso em primeiro lugar honestidade na colheita do material. Depois, é preciso confrontar, cotejar com outras regiões dentro e fora do país. Finalmente se pesquisa a origem. Por que o Rio Grande do Norte é tão rico de material? É que o povo defende há séculos o seu teatro, o seu direito ao divertimento, da maneira mais pura, quase sem enxertos”.

“Dois estados valorizaram o seu folclore: o Rio G. do Sul, com aquelas danças, e o Rio G. do Norte. Sabe por quê? Porque não era pra mostrar pra turista. O povo dançava pra si mesmo. Guardava dinheiro pro Auto no tempo de Natal. Por isso mesmo é dos mais puros aqui. Eu não deixava deturpar. Agora já não posso intervir tanto: foram pra Brasília e usam fitas e coisas, mas oitenta por cento ainda são autênticos. A verdade é uma só: onde aparece o turista, acaba o folclore. A não ser que esteja tão estratificado que não se deixe conspurcar: ‘se não gostar, não venha!’ De outro modo vai, de ‘concessão em concessão’, até se despersonalizar”.

“Aqui nós temos os autos que existem no Nordeste com algumas variações, da Bahia ao Maranhão. Você conhece o Boi-Culemba? O Fandango (A Marujada) é um auto de temas portugueses, mas feitos todos no Brasil. Portugal não tem. O Moçambique, por exemplo, existe entre nós, e em Moçambique tal dança nunca viveu. Você assistiu ao Bambelô. Viu que beleza? Pois é. Duas palavras cuja origem sempre me intrigaram: bambelô e vatapá. Não sei. Aliás, sou o único professor no Brasil que tem a coragem de dizer “não sei”, sem se julgar diminuído ou desmoralizado. “Não sei, não sei”, pronto, está acabado! A Chegança veio em 26. Foi um oficial que mandou encenar no Teatro Carlos Gomes e o povo gostou. Aliás, todo o romanceiro partiu do alto pra baixo.

Veja você se não é curioso: O desafio, que é português, vem pro Brasil e se torna popular, e o fado, que é eminentemente brasileiro, se torna canção nacional em Portugal. Os portugueses que voltaram com D. João VI é que levaram o fado”.

“A Severa (acreditem ou não!) nunca ouviu um fado na vida dela. Nem podia, seu mano! Quando os primeiros fados foram cantados ela já tinha morrido! Você pode afirmar isso com a minha responsabilidade”.

ATRAVÉS DO BRASIL –
Câmara Cascudo me dá algumas das nossas preciosidades folclóricas:

  • Em Natal temos o Bambelô, Coco de Roda, danças em círculo, acompanhados de instrumentos de percussão, fazendo figuras no centro da roda um ou dois dançarinos. Comum nas praias. Só se vê no Rio G. do Norte.
  • No Ceará, temos o Desafio.
  • No Maranhão, o Bumba-Meu-Boi. A indumentária é assombrosa! Aliás os autos populares maranhenses superam tudo o que possa existir de parecido no mundo. Nem Diaghilev. E depois, a multiplicidade dos centros de interesses é impressionante. A coisa é tão fabulosa que o grande fotógrafo que me acompanhava perdeu vários momentos importantes. Ficou como que hipnotizado … e esqueceu de fotografar!
  • No Pará temos as Festas de Nazaré.
  • Em Manaus, que ninguém perca as Festas de São João. ,
  • Recife, o frevo. No mundo, só em Pernambuco existe o frevo. É a grande alucinação do carnaval pernambucano. A multidão fica a ferver. É justamente de frevura, frever, que vem a palavra frevo. Essa dança apareceu em 1909! Foi o Zuzinha, ensaiador da brigada Militar de Pernambuco, quem estabeleceu a linha divisória entre o frevo e a polca-marcha. A coreografia é individual. Centenas de dançarinos, ao som desta música excitante, dançam diversamente. Instinto, improvisação, variabilidade. Vale tudo!
  • Em Alagoas, os Reisados. Má música, enredo pobre, mas uma indumentária que nem Luís XV sonhou! Cascudo indaga: “Você já imaginou um chapéu que pesa seis quilos e ornado com 400 espelhos? Pois aqui está! As vezes o chapéu reproduz toda uma igreja!”
  • Na Bahia você pode ver a Capoeira, o Candomblé, Iemanjá.
  • “Eu poderia ficar a noite inteira falando de coisas pra ver neste Brasil assombroso. Mas nada existe de mais impressionante que Os Guerreiros de Alagoas, que pertence ao ciclo dos reisados. Quando eles aparecem acaba tudo. Um homem da Life parou assombrado olhando pra mim. Cadê jeito pra bater a chapa? A mão tremia de emoção”.
  • Você sabia que nosso cantador nordestino é o único no mundo que vive a fazer versos e cantar? Em todos os cantos da Terra isso já desapareceu.
  • E a jangada? E a mais antiga embarcação conhecida pelo homem, que desapareceu mesmo na Polinésia, onde existiu comumente. Duas mil jangadas sustentam famílias do Ceará ao Sergipe. E a rede de dormir? Mais de meio milhão é produzido por ano. Na rede milhões de brasileiros nascem, vivem e morrem.

“Sou professor de Direito Internacional da universidade e no Estado me aposentei de terceiro-consultor-geral, com 36 anos de serviço”.

BRASIL – “Quando nasci, o Brasil estava à beira do abismo. Passados os anos compreendi que uma das duas coisas deve ter acontecido: ou o abismo fechou ou o Brasil alargou. O que está se processando no Brasil é uma fase lógica com a presença dos problemas mundiais que aqui arribaram. Falar em problemas brasileiros, em abismos, é ignorar o que se passa e passou na resto do mundo. Desvalorização da moeda, desajustamento psicológico, tudo isto são ciclos. Antes de tudo é preciso acreditar que estamos aqui numa missão humana e que nada disso é castigo nem penitência acima de nossas possibilidades de resolução. O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro”.

SUPERSTIÇÕES – Sim. Desconfio que sou supersticioso. Não é bem o pé direito, nem o 13, nem o gato preto. Pesquiso superstições, mas devo ser supersticioso. Napoleão, Goethe e Vítor Hugo eram supersticiosíssimos. Alguém já disse que o jumento não tem nenhuma superstição. .

VILLA-LOBOS – “Quer saber de uma coisa engraçada? Quase sempre meus encontros com Vila-Lobos eram no estrangeiro. O grande bem que Villa me queria era … porque eu nunca lhe falava de música. E o mais assombroso é que fui durante vinte anos professor de História da Música!”

BOCA DO POVO –
Depois começamos a falar de frases do povo, coisas do povo, e Cascudo me mostra umas frases de deliciosas como: No Ceará quem faz coisa impossível “dá nó em pingo d’água”.

Vejam o sabor destes ditos: “Boca calada é remédio”; “Defunto de esteira é que faz visagem”; “Gato com fome come farofa de alfinete”; “Silêncio também é resposta”; “Queda de velho não levanta poeira”; “Em terra que não tem carne, espinha de peixe é lombo”; “Cada um com a sua certeza”.

Vejam estas comparações: “Velho como o chão”; “Apertado que só um pinto no ovo”; “Encarnado como fita”.

VIAGENS – “Em 1909, viajei pela primeira vez com meus pais. Sem passaporte. Agora é diferente: a gente tem que carregar um negócio pra provar que a gente é a gente. Se eu viajei muito? Viajei seis passaportes”.

HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO – “Em 1940, me apaixonei pela alimentação. Não estava pensando em hidratos de carbono ou proteínas. Queria era a história da comida. Tentei seduzir Josué de Castro para escrevermos juntos a história da cozinha brasileira. Mas ele estava mais preocupado com o que o homem deixa de comer, com a fome. Continuei com uma teima de jumento jagunço pesquisando. Os povos escolhem determinados alimentos e, mais tarde, a ciência vem provar que o povo tinha razão, embora, na hora, estivesse contrariando a ciência. Chateaubriand, esse homem fabuloso, a convite de quem eu já havia escrito Jangada e Rede de Dormir, me convidou para escrever uma História da Alimentação no Brasil. Quem resiste a essa força da natureza que se chama Assis Chateaubriand? O primeiro volume já está no prelo, na Brasiliana. O segundo está pronto, e o terceiro, em andamento. Salomão já disse: “Todo o trabalho do homem é para a sua boca.”

VER PARA CRER – Eu estava desconfiado de toda a minha sabedoria, ao começar o trabalho. Queria ver as áreas de origem dos escravos que tinham chegado ao Brasil. A comida devia ser, na essência, a mesma. (“Uma das forças aculturativas mais poderosas e sutis é justamente a cozinha. Quando um emigrante começa a gostar da cozinha local é porque.está conquistado pela nova pátria. Os cozinheiros franceses têm feito pela França tanto quanto os escritores ou diplomatas. Mas não é cozinha de requinte a que dura. Para o etnógrafo o que interessa é a culinária, ordeira e pobre, a de todo dia, sem enfeite.”)

Corri a Africa e fiquei doutor em negro. Eu queria ver o que ele planta, colhe, come e dança. Voltei encantado. Fui ver a criatura humana em sua mais encantadora naturalidade. A Europa é uma constatação (a gente já a conhece antes de ir); a Africa é uma revelação. Possui cidades supermodernas e, em outros aspectos, está no passado: canta século XV e passeia de lambreta. Imagine que o mesmo negro, que, tatuado e de lança na mão, me aparecia naquele ritual belíssimo da véspera, surgia, agora falando cinco línguas, piloto do meu avião e com ar mais civilizado do mundo. O negro é inteligentíssimo. Vive sua cultura. Tem mercado para o seu artesanato e cria coisas admiráveis.

“É preciso compreender bem a diferença entre civilização e cultura. Cultura é o conjunto de técnicas que podem melhorar e facilitar a produção, tornar a vida mais fácil, a terra mas produtiva. Civilização é uma capitalização de sensibilidade através de gerações. É a fisionomia da cultura no tempo”.

“Você sabe que um Ministro da Nigéria é descendente de um escravo brasileiro que voltou para a África?”

DESPEDIDA – Câmara Cascudo é membro de não sei quantas associações, academias, dono de não sei quantas honrarias e títulos. Mas o mais humano e curioso é o de Presidente de Honra de Os Inocentes, um grupo que assalta as casas em Natal e carrega com as bebidas. Trabalha sempre em casa. Quando está concentrado, fica se balançando na rede até amadurecer idéia. Gosta de música de Caymmi, Ari e Noel.

Cascudo (tratado pelos íntimos de Cascudinho) ordena à fiel criada Anália quando lhe confesso minha sede: “Traga o copo de prata de meu pai, que o Pedro Bloch vai beber nele. Água só em copo de prata.”

Diante do espanto de Anália percebo o tamanho da homenagem que me presta.

Luís da Câmara Cascudo me acompanha até o carro que me aguarda, descendo a escadaria de pedra. Ao lhe reafirmar que foi ele quem me trouxe a Natal, seus olhos se enchem de água outra vez e me sufoca com um abraço agradecido, como se sua grandeza não justificasse até a viagem à Lua.

O chofer que me leva, contudo, ao divisar pelo espelho do carro a figura do grande brasileiro que acena de longe, diz: “Este homem é grande, doutor!…”. E conta:

“Às vezes, quando ele está cansado de trabalho, venho apanhá-lo e, de amigo em amigo, de conversa em conversa, vamos varando a noite. De manhãzinha eu trago ele pra casa. Mas cadê coragem de cobrar? É a pior hora, doutor. Cobrar desse homem. Pode?”

E olha com a mesma cara do fotógrafo Gervásio Baptista quando pergunta ao velho Cascudo: “Posso lhe dar um beijo?”.

O que o Gervásio sentiu é que estava diante de um pedaço do Brasil. Gervásio não beijou Cascudo. Beijou o próprio folclore brasileiro, em sua beleza, em sua grandeza, em sua expressão maior e mais pura.

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