Sobre as múltiplas maneiras do Saci ser

Entrevista com Seu Leônidas

Por Andriolli Costa

Seu Luis Terena, morador da aldeia Passarinho em Miranda/MS, conta nessa entrevista à série documental Mitos Vivos quando foi atacado por um saci. Em seu relato, trata-se de um negrinho sem carapuça que carrega uma varinha pontiaguda. É ele quem trança a crina dos cavalos e os atazana durante a noite.

No mesmo dia falamos com Telma, que também é Terena em Miranda, e conta sobre um saci negro, de carapuça. Morria de medo dele, pois sua família dizia que o saci sequestrava crianças que depois eram encontradas presas no mandiocal e “abobadas” pelo encontro.

Bem diferente do Saci da atendente com quem conversei na lojinha do posto a caminho daqui. Não lembro se ela chegou a mencionar a cor, mas o saci que ela conhecia havia sequestrado seu tio com a mais boa das intenções. Quando encontrada, a criança – que sofria de bronquite – havia sido curada pelo saci com bocadas de farinha de mandioca e mel.

Seu Leônidas, curador – como se apresenta – aqui na região ofereceu uma cumbuca em que misturou mel, fumo e cachaça para um saci de duas pernas, cabelos compridos e lisos e feições indígenas. Garrou amizade com o tal, ao ponto de ser acompanhado por um assobio onde quer que fosse. Como sua esposa se assustava com os silvos misteriosos, deixou uma segunda cumbuca agradecendo pela companhia, mas pedindo licença. Nunca mais o ouviu. Seu Leônidas, quando conta essa história, alterna os nomes: ora é saci, ora é Pombero.

Pombero é um mito paraguaio, com grande influência na região da fronteira aqui em Mato Grosso do Sul. Partilha com o Saci o mesmo arquétipo do trickster, e é mais do que natural que as histórias se entremeiem. Aspectos de um mito são intercambiáveis com o outro dentro da mesma estrutura ancestral.

É o que acontece com um mito irmão do Saci Pererê; o Yasy Yateré Guarani, que apesar da semelhança do nome tem a aparência bem distinta. Fragmento da Lua, de onde vem seu nome, é descrito normalmente como branco (como o satélite da Terra) com cabelos loiros e tendo um cajado dourado como objeto de poder.

Dizem que o Mel é um dos seus domínios e que também age durante as siestas – sequestrando quem as viola. Em alguns registros é o Yasy, usando a influência lunar, que é capaz de enlouquecer temporariamente quem ele leva.

Aqui na fronteira os imaginários também se encontram. Às vezes o mito “rubio” (“loiro” em espanhol) vira “ruivo” nas traduções da oralidade. Às vezes o cabelo vermelho já vira carapuça vermelha. E às vezes Yasy vira Saci, como no relato de Seu Rozemberg, funcionário público aqui de Miranda que descreve todas as características do irmão fronteiriço. mas com o nome do nosso conhecido Pererê.

Todos os exemplos acima citados eu ouvi em apenas dois dias de viagem. São todas histórias familiares para qualquer um que abre os ouvidos para as narrativas do povo. Eu já as conheço, mas ainda são únicas. Como isso? Porque são experiências pessoais dentro de um fluxo coletivo. É o imaginário que pulsa e conecta. Eles viveram, ouviram, contaram.

Qual dessas histórias é “o verdadeiro saci”? Ora essa. TODAS, é claro. Todas são verdadeiras, todas são legítimas. Que lógica moderna e excludente é essa de querer impor, para a cultura popular, uma única versão possível? A oralidade não funciona assim. Entre o enunciar e o ouvir, um mundo se cria dentro de cada um. Mundos únicos, mas em conexão. E é nessa conexão que as histórias circulam.

É por isso que sempre que converso com alguém sobre o tema deixo a questão livre. “Como é o seu saci?”. O tesouro está em saber que uma resposta nunca vai ser igual a outra.

Entrevista com Luis Terena

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