Rainha Ginga: da diplomacia e da guerra à memória viva no Brasil

Por Andriolli Costa

Presente em congadas, moçambiques, maracatus, rodas de capoeira e movimentos de mulheres negras, a Rainha Ginga atravessou séculos como símbolo de liderança e resistência. A personagem lembrada pela cultura popular brasileira foi Nzinga Mbandi, soberana dos reinos do Ndongo e de Matamba, na África Central, e uma das principais opositoras ao avanço português e ao tráfico de pessoas escravizadas na região que viria a ser conhecida como Angola.

Nesta entrevista, a historiadora e angoleira Mariana Bracks Fonseca reconstrói a trajetória política de Nzinga, desde a missão diplomática realizada em Luanda, em 1622, até as guerras, alianças e negociações que marcaram seu longo reinado. A conversa mostra coma o a soberana organizou quilombos, acolheu fugitivos, comandou exércitos, estabeleceu alianças com holandeses e lideranças africanas e utilizou estrategicamente as relações com o cristianismo e o papado.

Professora de História da África e de História da Cultura Afro-Brasileira na Universidade Federal de Sergipe, Mariana também investiga os caminhos pelos quais a memória de Ginga chegou ao Brasil. O episódio discute sua presença nas coroações de reis do Congo, nos congados e na capoeira, além de questionar as representações europeias que a transformaram em uma governante bárbara e sanguinária. A pesquisadora explica ainda como o movimento da ginga preserva, no corpo, estratégias políticas, diplomáticas e militares associadas à rainha.

O conteúdo a seguir é uma transcrição editada do episódio 111 do Poranduba, apresentado por mim e publicado originalmente em 6 de abril de 2022. Para tornar a leitura mais fluida, foram retiradas hesitações, repetições involuntárias e outras marcas excessivas da oralidade, sem alterar o sentido das falas. As inserções musicais e dramatizadas presentes no programa foram identificadas, mas não transcritas.

Da cultura popular à universidade

Andriolli Costa: Bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas da cultura brasileira. Eu sou Andriolli Costa, o Colecionador de Sacis, e serei o seu guia.

No programa de hoje, tenho o prazer de receber Mariana Bracks Fonseca, professora da Universidade Federal de Sergipe, para falar sobre a história da Rainha Ginga e os rastros dessa personagem na cultura popular brasileira.

Nota da edição: O episódio apresenta um canto sobre a Rainha Ginga. A letra não foi transcrita.

Andriolli Costa: Para que os ouvintes conheçam um pouco mais a nossa convidada, queria que você se apresentasse com as suas próprias palavras. Quem é Mariana Bracks?

Mariana Bracks Fonseca: Sou professora de História da África e de História da Cultura Afro-Brasileira no Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe. Sou mestra e doutora pela Universidade de São Paulo e graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais. Sou angoleira, praticante de capoeira Angola, mãe de três filhos e coreira no tambor de crioula.

Andriolli Costa: Foi em Minas Gerais que você teve o primeiro contato com a capoeira?

Mariana Bracks Fonseca: Sim. Foi por meio do Mestre João Angoleiro e da Associação Cultural Eu Sou Angoleiro. A capoeira abriu as portas para que eu entendesse a Rainha Ginga.

Conheci Ginga por intermédio do Mestre João e da Companhia Primitiva de Arte Negra, uma companhia de dança afro que, há mais de vinte anos, coloca a rainha como personagem do espetáculo Poetas Afro. Foi pela cultura popular que conheci a personagem e, a partir daí, nasceu o meu interesse pela história.

Andriolli Costa: Muitas vezes, quando chegamos à universidade, precisamos construir o entendimento de que temas da cultura popular são dignos de estar naquele espaço. Nem sempre é assim, e sabemos que há dificuldades dentro das próprias instituições e na relação com orientadores. Como foi o processo de assumir a tradição como objeto de estudo?

Mariana Bracks Fonseca: Quando fiz a graduação em História, não havia uma disciplina que falasse sobre isso. Não era um debate nem sequer um tópico. Minha primeira pesquisa foi sobre o Candombe da Serra do Cipó, um rito dedicado a Nossa Senhora do Rosário, e eu não tinha com quem dialogar.

Meu projeto de mestrado foi sobre a Rainha Ginga, mas não havia orientadores interessados em História da África. Quando me formei na UFMG, não existiam no curso as disciplinas História da África ou História da Cultura Afro-Brasileira.

Hoje existe um campo muito forte, com ótimas referências e pesquisadores que também participam das culturas estudadas. Não se trata mais apenas daquele olhar externo do pesquisador branco. Temos tatas, mametos, babalorixás, mestres de capoeira e professores doutores que pesquisam e produzem conhecimento. O campo está muito mais consolidado e aberto a esses temas.

Andriolli Costa: O que colaborou para tornar a universidade mais receptiva aos temas da tradição?

Mariana Bracks Fonseca: Antes, a população negra não estava presente de maneira substancial na universidade. Quando essas pessoas passam a ocupar os bancos universitários, não apenas como estudantes, mas trazendo seus temas e suas vivências, isso contribui muito para mudar as perspectivas e força o ensino efetivo da História da África e da História da Cultura Afro-Brasileira.

A Lei nº 10.639 existe desde 2003, mas, sozinha, não vinculava os departamentos nem garantia a formação de profissionais. A abertura de concursos e a presença de professores negros nas universidades fortaleceram esse processo. Isso muda consideravelmente a própria compreensão da história e ajuda a desconstruir o eurocentrismo tão característico do campo científico.

Quem foi a Rainha Ginga

Nota da edição: O programa apresenta um trecho dramatizado sobre a morte do soberano do Ndongo e a disputa por sua sucessão.

Andriolli Costa: Para entrarmos no tema da nossa conversa, quem foi a Rainha Ginga? O nome também aparece em diferentes grafias, como Nzinga e Njinga. Quem foi essa personagem?

Mariana Bracks Fonseca: Nzinga Mbandi foi soberana dos reinos do Ndongo e de Matamba, no século XVII, justamente quando os portugueses articulavam o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. Ela foi uma líder que se posicionou contra a presença portuguesa e contra as intromissões realizadas naquela região, que passou a ser conhecida como Angola.

Ela era filha do ngola, título dado ao rei ou soberano e do qual deriva o nome Angola: as terras do ngola. O reino, porém, chamava-se Ndongo. Ginga nasceu nessa família real.

Quando o pai dela morreu, em 1617, o governador português interpretou a sucessão do irmão de Ginga como uma oportunidade para avançar sobre o território. Os portugueses invadiram as terras e promoveram uma guerra sangrenta.

Ginga aparece pela primeira vez na documentação histórica como diplomata do irmão. Ela foi a Luanda, no litoral, para negociar a paz com os portugueses em nome do reino do Ndongo. A guerra havia devastado o território, e o comércio estava interrompido.

Nessa primeira aparição célebre, em 1622, ocorreu o conhecido episódio da cadeira. O governador não havia colocado um assento para ela: havia apenas uma cadeira, destinada a ele, enquanto Ginga deveria permanecer num tapete. Ela fez um sinal para uma de suas acompanhantes, que se colocou de quatro. Ginga sentou-se sobre ela e conduziu a conferência com naturalidade.

O gesto impressionou pela rapidez e pela sabedoria. Ginga dominava muito bem as palavras. Na reunião, afirmou que o Ndongo não se submeteria a Portugal. Era um reino forte, disposto a guerrear se fosse necessário, mas também a comercializar como uma potência soberana, independente e em posição de igualdade.

Naquele momento, ela foi batizada com o nome de Dona Ana de Sousa e teve o governador como padrinho. O acordo de paz que conseguiu, entretanto, não foi cumprido pelos portugueses.

Andriolli Costa: Mesmo depois de ela ter aceitado o batismo para se aproximar do governo português?

Mariana Bracks Fonseca: Sim. O irmão dela, que era o rei, não aceitou o batismo. De todo modo, os portugueses não cumpriram os acordos. Armaram um inimigo, o jaga Cassanje, para invadir o Ndongo. Depois da invasão, Cassanje se recusou a deixar o território e também começou a atacar os portugueses, tornando-se um inimigo comum.

Outro ponto do acordo determinava a retirada da fortaleza de Ambaca, construída pelos portugueses dentro das terras do ngola. Ginga exigiu a desocupação da região, mas isso também não foi respeitado. Ambaca se tornaria, ao longo dos séculos XVIII e XIX, um dos principais pontos de interiorização da colonização portuguesa.

Quindonga, o kilombo e trinta anos de guerra

Mariana Bracks Fonseca: Ginga se fortaleceu na ilha de Quindonga, no rio Cuanza, onde estabeleceu um kilombo. Uso o termo que aparece na própria documentação: uma fortificação e um acampamento militar.

Ali começou a receber numerosos fugitivos, entre eles pessoas escravizadas e soldados africanos que tinham sido armados e treinados pelos portugueses e fugiam levando as armas. Quando os governadores portugueses tentavam negociar, ela respondia: “Primeiro cumpram aquilo que já me prometeram: desocupem Ambaca e retirem Cassanje”.

Os portugueses perguntavam onde estavam os escravizados fugitivos. Ginga respondia: “Aqui não há escravos. Aqui está o povo do Ndongo. Se foram escravizados, isso aconteceu injustamente naquela guerra sanguinária”. Ela se recusava a devolvê-los.

Quando também os soldados começaram a fugir, o conflito se agravou. O governador Fernão de Sousa articulou um golpe político: reconheceu outro soba, Are a Kiluanje, como rei do Ndongo e declarou Ginga fugitiva e inimiga. Mandou divulgar, em português e em quimbundo, uma ordem para que a perseguissem e lhe levassem a cabeça.

Essa guerra durou cerca de trinta anos. Durante todo esse período, os portugueses tentaram capturá-la nas ilhas do Cuanza, enquanto ela se movimentava e os enganava de diferentes maneiras.

Andriolli Costa: Quantos anos ela tinha quando realizou a conferência sentada sobre a acompanhante?

Mariana Bracks Fonseca: O episódio aconteceu em 1622. Não sabemos exatamente quando ela nasceu, mas, trinta anos depois, ainda estava lutando. Viveu mais de oitenta anos. Calculamos que tivesse aproximadamente quarenta anos quando apareceu como diplomata.

Andriolli Costa: Então morreu com mais de oitenta anos depois de uma vida inteira de enfrentamentos.

Mariana Bracks Fonseca: Sim. Há registros do fim da vida em que, já muito idosa, ainda fazia movimentos corporais e demonstrava destreza com as armas. Ela ainda “tirava onda”. É uma personagem muito interessante.

Andriolli Costa: Quando lemos um resumo histórico, acontecimentos de décadas parecem durar apenas alguns meses.

As fontes e o enfrentamento ao tráfico

Mariana Bracks Fonseca: O principal objetivo dos portugueses passou a ser a captura da Rainha Ginga. Como historiadora, trabalho com fontes primárias. Para escrever essa história, pesquisei as cartas do governador Fernão de Sousa.

A historiadora alemã Beatrix Heintze reuniu na Biblioteca da Ajuda essa coleção documental. Fernão de Sousa era considerado prudente e pedia autorização ao rei para praticamente tudo, o que deixou uma documentação muito extensa. Heintze organizou esse material em dois volumes, com centenas de páginas: cartas, correspondências com o rei e relatórios dirigidos aos seus filhos.

Esses documentos não deixam dúvida sobre como Ginga atrapalhava os interesses portugueses. O rei cobrava do governador explicações para a diminuição do número de pessoas escravizadas que saíam de Angola. Fernão de Sousa respondia que as guerras movidas pela Rainha Ginga impediam o tráfico: ela atacava os mercados, interrompia os caminhos, assaltava as caravanas que levavam os prisioneiros ao litoral e impedia que os sobas pagassem tributos, que também eram cobrados em pessoas escravizadas.

Ginga sabia que o interesse português era o comércio de escravizados e tentou dificultá-lo de diferentes formas.

Matamba e a aliança contra os portugueses

Andriolli Costa: Quando os holandeses entram nessa história?

Mariana Bracks Fonseca: Assim como invadiram Pernambuco e Salvador no século XVII, os holandeses conquistaram Luanda, o principal porto da região, em 1641. Ginga se aliou a eles, que lhe forneceram armas de fogo.

Andriolli Costa: E Matamba? Ela fundou um reino ou conquistou um território que já existia?

Mariana Bracks Fonseca: Matamba já existia. Era um reino vizinho e fronteiriço ao Ndongo, de origem próxima, mas tinha outra soberana, a rainha regente Muhongo a Cambolo.

Por volta de 1630, Ginga assumiu o poder de Matamba. Há debate historiográfico sobre como ocorreu essa conquista. Entendo que ela chegou como rainha dos jagas, consagrada como a principal liderança feminina dos kilombos. Os jagas aparecem na documentação como guerreiros altamente especializados na arte da guerra.

Ginga passou a comandar esses grupos e, graças a eles, conseguiu enfrentar os portugueses e deslocar-se pelo território. Quando chegou a Matamba com um exército muito forte, Muhongo a Cambolo manteve um poder regional, e sua filha continuou governando localmente, enquanto Ginga assumiu o poder central.

Foi em Matamba que ela se tornou ainda mais forte. Alberto da Costa e Silva define o reino como um dos principais estados militares da África Central no século XVII. Ginga aliou-se ao Reino do Congo, aos dembos e a diferentes chefes independentes. Construiu uma grande confederação para combater os portugueses.

Por muito pouco, os portugueses não foram completamente expulsos de Angola. Isso não aconteceu porque uma elite sediada no Rio de Janeiro financiou uma expedição para reconquistar Luanda. As tropas partiram do Brasil, inclusive com soldados indígenas, e retomaram Angola para Portugal em 1648, permitindo a continuidade do tráfico. A operação foi comandada por Salvador Correia de Sá e Benevides, integrante de uma das primeiras oligarquias brasileiras.

A recuperação da rainha pelos movimentos sociais

Andriolli Costa: A figura da Rainha Ginga ganhou mais visibilidade no Brasil nas últimas décadas, muitas vezes como representação de uma mulher poderosa e fonte de inspiração para outras mulheres. Como você avalia esse movimento de recuperação da personagem histórica? Existe o risco de contar fatos que não ocorreram exatamente daquela maneira?

Mariana Bracks Fonseca: Ginga chegou ao Brasil por meio dos movimentos sociais antes de chegar pela academia. Nenhum professor do curso de História me apresentou a personagem. Até pouco tempo atrás, uma geração inteira se formava sem conhecê-la por intermédio da universidade.

A cultura popular foi a minha primeira referência. Mesmo entre os movimentos sociais e políticos organizados, especialmente os coletivos de mulheres negras, o nome Rainha Ginga aparece pelo menos desde as décadas de 1980 e 1990. Isso já tem uma trajetória de várias décadas.

Acredito que esses coletivos recuperaram Ginga mais por meio da cultura popular do que dos livros. O Mestre João Angoleiro e a Mestra Lena Santos, poetisa e compositora, criaram um espetáculo de dança em que ela era personagem. Não fizeram isso simplesmente porque leram um livro, mas porque receberam essa memória oral alimentada pela cultura popular. Depois, algumas obras escritas também passaram a circular.

O cristianismo como estratégia política

Mariana Bracks Fonseca: A vida de Ginga não terminou nas guerras. Ela viveu mais de oitenta anos e, no fim, aliou-se aos portugueses, principalmente aos padres capuchinhos italianos enviados pelo Vaticano. Morreu cristã, reconhecida como católica e acompanhando missas de joelhos.

Andriolli Costa: Como se deu essa mudança?

Mariana Bracks Fonseca: A vida dela foi marcada por esse jogo de deslocamentos e negociações. Uma de suas irmãs permaneceu por cerca de dez anos como refém dos portugueses. O resgate da irmã foi uma razão importante para Ginga aceitar um acordo.

Quando os capuchinhos italianos chegaram para catequizar a região, Frei Antonio da Gaeta conviveu com ela e foi responsável pela reconversão. Em seus relatos, ele descreve milagres e afirma que Ginga teria sido tocada pelo Espírito Santo e pelo sangue de Jesus.

Sabemos, porém, como ela era estrategista. Ginga compreendeu que o caminho para a paz passava pela adoção pública do cristianismo. Conseguiu a paz que desejava e morreu sem estar em guerra. Ela dizia que estava cansada de andar pelos matos guerreando e queria paz para o reino.

Esse acordo permitiu sedentarizar a população, retomar a agricultura, cultivar os campos e fazer comércio. Ela também garantiu a sucessão para a irmã, Dona Bárbara Mocambo. A irmã, no entanto, já estava idosa, cega e doente, e o marido acabou exercendo o poder em seu nome.

Ginga também se correspondeu com o papa. Podemos imaginar seu raciocínio: os portugueses se diziam cristãos e eram seus inimigos; então ela procurou diretamente a maior autoridade do cristianismo. Enviava cartas ao papa e recebia respostas e bênçãos.

Era uma líder política visionária. Ao longo dos anos de guerra, sempre lembrava que tinha sido batizada e assinava as cartas como Dona Ana de Sousa. Dizia aos portugueses: “Eu acreditei em vocês, aceitei o Deus de vocês e fui enganada. O que mais querem?”. Usou o batismo como argumento durante toda a trajetória.

Andriolli Costa: Sabemos como foram os últimos momentos da vida dela?

Mariana Bracks Fonseca: Sim. Eles foram descritos minuciosamente por Giovanni Antonio Cavazzi, o capuchinho italiano que lhe deu a extrema-unção. Ele escreveu a Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola.

É claro que Cavazzi enxergava a presença do diabo em muitas práticas africanas, mas continua sendo uma fonte histórica de grande valor pela quantidade de detalhes que registrou. Foi ele quem garantiu que os ritos cristãos fossem realizados após a morte de Ginga.

Muitas pessoas não acreditavam que ela havia morrido. Depois de viver mais de oitenta anos, vencer a varíola e enfrentar tantas guerras, era vista como um mito vivo e considerada imortal. A própria Ginga teria dito que sabia que o povo não acreditaria em sua morte, mas que estava se despedindo.

Parte da população queria realizar sacrifícios funerários e morrer junto com a rainha, como ocorria nos ritos dedicados a soberanos muito poderosos. Cavazzi tentou impedir essas cerimônias. É um episódio muito interessante para observar os confrontos entre o cristianismo e os ritos tradicionais.

Sucessão, matrilinearidade e estereótipos

Andriolli Costa: Há um episódio segundo o qual o irmão de Ginga, com medo de que a descendência dela disputasse o trono, teria agido contra seu filho. Você encontrou essa narrativa nas fontes?

Mariana Bracks Fonseca: Sim. É um ponto polêmico que nos leva aos próprios mitos de fundação do reino do Ndongo. A transmissão do poder era matrilinear. Quem deveria assumir não era necessariamente o filho do rei, mas o filho de sua irmã. O soberano podia não ter certeza da paternidade dos próprios filhos, mas sabia que o filho da irmã nascera de um ventre real.

Essa passagem aparece em diferentes fontes. Há também relatos de que Ginga teria mandado matar o sobrinho. As fontes portuguesas destacaram muito esses episódios para afirmar que os reinos africanos eram fratricidas, como se disputas violentas pela sucessão não acontecessem na Europa.

Não é o foco principal da minha pesquisa justamente porque não quero reforçar o estereótipo de uma história africana reduzida à morte, à guerra, à destruição e à barbárie. O próprio Hegel recorreu à história da Rainha Ginga para defender a ideia de que a África não tinha história e seria apenas uma sucessão de governantes sanguinários.

A vida de Ginga circulou muito na Europa, mas foi lida por essa perspectiva da barbárie. Diziam que ela devorava dezenas de crianças, era sedenta de sangue e mantinha um harém de homens. Essa imagem da “rainha devoradora de homens” foi hiperexplorada pela literatura francesa do século XVIII. O Marquês de Sade e outros autores recorreram a ela. Esse imaginário europeu permaneceu por séculos.

Minha pesquisa aborda essas construções, mas elas não são o centro do trabalho. O objetivo é compreender a personagem e as memórias produzidas sobre ela sem repetir o enquadramento colonial.

Nota da edição: Neste ponto, o programa apresenta o canto “Rei Congo, Rainha do Congo”, registrado pela Congada de Santa Efigênia de Mogi das Cruzes. A letra não foi transcrita.

Da resistência em Angola à memória no Brasil

Andriolli Costa: Enquanto a Europa construiu um imaginário literário demonizante e negativo, o Brasil, por meio da oralidade e da cultura popular, parece ter preservado Ginga como símbolo de resistência. Podemos pensar assim?

Mariana Bracks Fonseca: Sim, porque foi isso que ela representou para diferentes povos. Não apenas para os ambundos, grupo de sua identidade étnica, mas para várias populações. Ginga representava uma possibilidade de enfrentar o caos provocado pela presença portuguesa.

Ela era um refúgio. As pessoas abandonavam suas terras e buscavam a proteção da Rainha Ginga. Existe uma documentação muito extensa sobre deslocamentos populacionais em direção ao seu kilombo, entendido como um lugar onde não seriam invadidas, aprisionadas nem escravizadas.

Andriolli Costa: No Brasil, Ginga aparece nas coroações de reis do Congo, festas fundamentais para a população negra durante o período da escravidão. Em meio a rotinas extremamente extenuantes, essas celebrações ofereciam um espaço para a expressão da própria cultura.

A Rainha Ginga surge como personagem ao lado do rei do Congo. Quem seria esse rei com quem, em algumas versões, ela aparece relacionada?

Mariana Bracks Fonseca: Essas celebrações e autos, muitas vezes chamados de folclóricos, apresentam vários enredos. Ginga nem sempre está ao lado do rei do Congo; em determinadas versões, é sua inimiga.

Encontramos referências à personagem em Congos e Moçambiques do Nordeste ao Sul do Brasil. Ela está presente até hoje em comunidades de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. Durante a pesquisa, entrevistei uma Rainha Ginga viva: o nome continua sendo um título dentro de uma comunidade.

Mário de Andrade reuniu registros muito interessantes em Danças dramáticas do Brasil. Durante sua viagem de pesquisa à Paraíba, encontrou um informante que lhe apresentou os cantos e as falas. Não era apenas música, mas uma encenação em que os personagens negociavam.

Um dos enredos apresenta a embaixada da Rainha Ginga diante do rei do Congo e gira em torno da morte do príncipe Suena, herdeiro da coroa. Suena é um título associado à Lunda, portanto a outro estado que não era nem o Congo nem o Ndongo.

Percebemos que as populações centro-africanas no Brasil reconstruíram seus títulos, enredos, histórias e valores. Nesses autos, aparece a rainha que não se rende nem se curva. Os versos afirmam que ela tem soldados numerosos e que não se pode desistir: é lutar ou morrer.

Esse também era o grito de guerra associado à Rainha Ginga no século XVII. Seus guerreiros não deveriam abandonar o campo de batalha. Os Congos do Nordeste cantam justamente essa determinação: vencer ou morrer, avançar e não recuar. É a imagem de uma soberana poderosa, cercada por um batalhão considerado indestrutível.

Andriolli Costa: A Rainha Ginga histórica teve alguma relação com o Reino do Congo?

Mariana Bracks Fonseca: Sim. Durante o período em que os holandeses controlaram Luanda, Ginga formou uma confederação com o rei do Congo. Eram aliados contra os portugueses.

Essa aliança também contribuiu para a ruína posterior do Reino do Congo. Quando a operação luso-brasílica retomou Luanda, em 1648, os portugueses procuraram negociar com Ginga porque sabiam que ela era muito poderosa. O Reino do Congo, porém, nunca foi perdoado pela aliança com os holandeses. Anos depois, foi atacado e destruído sob a acusação de ter traído Portugal.

Andriolli Costa: Em alguns autos aparece o nome Dom Henrique Cariongo como rei do Congo. Esse nome tem algum significado específico?

Mariana Bracks Fonseca: Dom Henrique é um nome cristão comum entre os reis do Congo, que adotaram nomes usados pela monarquia portuguesa, como Dom Afonso e Dom João. Não consigo localizar exatamente qual personagem histórica está por trás desse rei, porque a minha pesquisa se concentrou na figura feminina dos enredos.

Há muitos estudos sobre os reis do Congo. Recomendo o trabalho da professora Marina de Mello e Souza, que analisa profundamente esses símbolos e representações.

Nota da edição: O episódio apresenta outro canto sobre Ginga e sua presença no Brasil. A letra não foi transcrita.

A ginga da capoeira e a memória do corpo

Andriolli Costa: Além das congadas e dos moçambiques, onde mais encontramos os rastros da Rainha Ginga na cultura popular?

Mariana Bracks Fonseca: Esse foi o tema do meu doutorado: compreender como a memória da Rainha Ginga está presente na cultura afro-brasileira. Pesquisei os congados, buscando registros desde o século XIX, e também a capoeira, que é um ponto muito forte para mim por ser angoleira.

Sempre percebi uma relação. Não me parecia possível tratar como coincidência o fato de ser o mesmo nome, com a mesma pronúncia. Ginga é o movimento básico da capoeira, e a soberana também foi chamada de Ginga nas fontes portuguesas.

Ao pesquisar a trajetória dela durante o mestrado, observava sua movimentação: ela enganava, dissimulava e fingia. Eu associava isso ao movimento corporal. No doutorado, propus-me a analisar o significado da ginga da capoeira.

Segui dois caminhos. No primeiro, entrevistei mestres e mestras de capoeira Angola para compreender o que os detentores desse saber ensinam sobre a ginga. Confrontei essas respostas com os significados encontrados nas fontes do século XVII.

É muito interessante porque aparecem os mesmos adjetivos. A ginga engana, é escorregadia, finge que vai para um lado e segue para o outro. Na capoeira, serve para o jogador se locomover sem se tornar um alvo fácil. Ginga fazia exatamente isso: nunca permanecia parada.

Tudo o que o capoeirista realiza com o corpo pode remeter às estratégias militares, diplomáticas e políticas da rainha. Ela podia se apresentar como católica e amiga dos portugueses enquanto preparava outro movimento. Na capoeira, existe a chamada, a aproximação ambígua, a dissimulação.

Foi o corpo que contou essa história. Uma sabedoria manifestada pelo corpo negro recebeu o nome de ginga.

O segundo caminho foi etimológico. Pesquisei nas línguas angolanas e em diferentes línguas centro-africanas o significado da palavra ginga e de seus cognatos. Eles se aproximam do sentido que encontramos na capoeira.

As tradições orais dizem que ela recebeu esse nome porque nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço, sinal de que teria uma vida difícil e tortuosa. Ginga está relacionada a enrolar. E o que faz o capoeirista? Enrola o outro.

Confrontei dicionários, os significados da palavra, a trajetória da rainha e o movimento da capoeira para entender como o termo chegou ao Brasil. Alguns dicionários antigos afirmavam que “ginga” viria da marinha e teria origem numa palavra germânica.

Nunca me conformei com essa explicação. A base da capoeira seria atribuída a uma palavra alemã, apesar de a marinha brasileira ter contado historicamente com muitos marinheiros negros e africanos, em diálogo com culturas africanas. A palavra pode descrever a oscilação de um remo, mas por que atribuir sua origem ao alemão?

Essa explicação circulava nas academias e em livros considerados grandes referências. Para mim, isso se aproxima do epistemicídio: apaga-se a herança africana da língua e procura-se uma origem europeia. Busquei fundamentar a afirmação de que a ginga da capoeira vem de Angola. Parece óbvio, mas, academicamente, a explicação estabelecida era outra.

Uma Rainha Ginga viva em Minas Gerais

Andriolli Costa: Conte um pouco sobre o encontro com a Rainha Ginga que você entrevistou durante a pesquisa.

Mariana Bracks Fonseca: Fiz a pesquisa de campo do doutorado numa comunidade de Visconde do Rio Branco, na Zona da Mata de Minas Gerais. Ela realiza um congado há centenas de anos, e o título feminino máximo é o de Rainha Ginga.

Foi uma oportunidade muito importante para observar a atuação dessa rainha: acompanhar a festa, compreender como ela coordena a comunidade e entrevistar uma Rainha Ginga em ação. A análise e as fotografias estão na tese, disponível gratuitamente no site da USP, e no livro publicado posteriormente.

Esse congado é particularmente interessante porque, além da personagem Rainha Ginga, preserva um elemento importante da organização política dos reinos centro-africanos: os sangamentos.

Os sangamentos são performances rituais realizadas com armas e espadas. Os participantes fazem acrobacias, riscam as espadas no chão e executam movimentos de grande destreza. Isso remete às formas de expressão do poder político na África Central. Nas cerimônias, os guerreiros dos reinos do Congo e do Ndongo faziam exibições e batalhas simuladas para demonstrar a força do soberano e do exército.

É exatamente o que a comunidade de Visconde do Rio Branco realiza. Alguns congados adotaram outras formas de dança, mas, nesse caso, a relação com os sangamentos é muito visível. É uma celebração muito bonita e permite compreender como esses elementos atravessaram o Atlântico.

Plasticidade cultural e catolicismo africano

Andriolli Costa: A forma como Ginga assume estrategicamente o cristianismo também permite um paralelo com as populações negras no Brasil. Em muitos casos, assumir o catolicismo era uma questão de sobrevivência. Ao mesmo tempo, surgiram desvios e negociações que permitiram celebrar a própria cultura, aproximando santos e orixás ou encontrando, nas irmandades negras e na devoção a Nossa Senhora do Rosário, caminhos de continuidade.

Mariana Bracks Fonseca: Recorro à ideia de plasticidade cultural dos povos africanos e à noção de xenofilia: a cultura africana mostra-se disposta a somar aquilo que vem de fora.

Para a Rainha Ginga, não havia problema em cultuar os ossos dos ancestrais e, ao mesmo tempo, rezar uma Ave-Maria diante do crucifixo. Não existia contradição. Adotar o cristianismo podia significar um acréscimo de poder; ela não precisava negar as ancestralidades.

Percebemos algo semelhante no Reino do Congo, onde o cristianismo também foi utilizado para ampliar o poder. Para muitas populações africanas, era possível reconhecer Jesus Cristo como uma força poderosa, fazer oferendas aos ancestrais e manter a relação com os inquices.

Essa perspectiva é fundamental para compreendermos o catolicismo africano no Brasil. Alguns historiadores e intelectuais afirmam que essas populações apenas fingiam: que o cristianismo seria uma dissimulação e que não havia fé em Cristo. Mas havia fé, sim.

Quem chega a uma comunidade de congado percebe uma devoção absoluta e genuína a Nossa Senhora do Rosário. Não é necessário dizer que ela “na verdade” representa Oxum. A comunidade tem fé em Nossa Senhora e compreende essa devoção a partir de sua própria lógica. No dia seguinte, a mesma pessoa pode receber um benzimento dedicado a Dandalunda sem enxergar contradição. Não existe necessariamente a oposição excludente, o “ou isto ou aquilo”, construída pelos europeus.

Nota da edição: Neste ponto, o programa apresenta um trecho de “Rainha Nzinga do Rap”, da rapper angolana Eva RapDiva. A letra não foi transcrita.

Livros, quadrinhos e materiais para as escolas

Andriolli Costa: Para encerrarmos, queria que você falasse sobre as suas publicações. Além do livro e da tese, há também trabalhos de divulgação da história da Rainha Ginga.

Mariana Bracks Fonseca: Em 2016, produzimos o livro em quadrinhos Rainha Ginga: guerreira de Angola. Eu já havia defendido o mestrado e pensava que uma história tão interessante não poderia ficar restrita aos acadêmicos ou às pessoas com fôlego para ler uma obra historiográfica de duzentas páginas.

Essa história precisa chegar às escolas. Todos deveriam conhecer esse exemplo, porque ele desconstrói muitos estereótipos sobre a África, os estados africanos e as mulheres.

O ilustrador foi o Mestre João Angoleiro, que sempre trabalhou com Ginga nas artes plásticas e conhece os segredos da capoeira. Ele levou essa corporalidade para as ilustrações. O resultado ficou muito bonito.

Andriolli Costa: O livro ainda pode ser encontrado?

Mariana Bracks Fonseca: Sim. Pode ser adquirido comigo ou por meio da Editora Ancestre. É um livro de leitura acessível, pensado para crianças do ensino fundamental. Apresenta um contexto difícil de guerra numa linguagem direta e utiliza muito do movimento da capoeira para construir a identidade visual.

Há também o caderno pedagógico Rainha Ginga nas escolas: atividades e reflexões. Ao longo dos anos, desenvolvi atividades em escolas e reuni propostas para usar o livro de forma interdisciplinar, envolvendo Educação Física, Geografia e Língua Portuguesa. O caderno conta ainda o processo de produção da tese e dos quadrinhos. Está disponível gratuitamente no site da Editora Ancestre.

Quero mencionar também o livro mais recente, Poderosas rainhas africanas, lançado em 2021. Ginga não foi a única mulher a exercer poder no continente. Ao longo da pesquisa, percebi que havia muitas outras.

É um livro ilustrado, desenvolvido como recurso didático, com a participação de 23 artistas do Brasil, de Angola e de Camarões. As obras foram produzidas a partir de descrições históricas para criar outras representações da mulher negra no poder, com símbolos e vestimentas específicos de cada cultura.

O livro apresenta trinta mulheres que comandaram sociedades, estados, exércitos e instituições. Além das biografias, discute a matrilinearidade, a matripotência e as formas pelas quais instituições africanas pré-coloniais incluíram mulheres na governança. Percorremos diferentes regiões do continente, da Antiguidade ao presente, para mostrar que o poder feminino tem uma história de longuíssima duração.

Andriolli Costa: Mariana, foi um prazer enorme conversar com você. Para encerrar, deixe uma mensagem aos nossos ouvintes.

Mariana Bracks Fonseca: Agradeço a oportunidade de divulgar este trabalho. Tanto a Rainha Ginga quanto as outras mulheres que pesquiso precisam ter suas histórias conhecidas pela população brasileira e pelo mundo.

Essas trajetórias apresentam outras formas de compreender a participação das mulheres, especialmente das mulheres negras, na constituição das instituições e do poder político. Muitas vezes imaginamos que elas sempre foram oprimidas e excluídas, mas isso não corresponde à história de muitas sociedades africanas.

O estudo dessas instituições mostra como mulheres garantiram, de diferentes maneiras, a sobrevivência política e a continuidade de valores culturais. Esse conhecimento precisa chegar à sala de aula. Há referências acadêmicas sobre o tema, mas elas ainda circulam pouco no ensino fundamental.

Conhecer essas histórias transforma a maneira como nos relacionamos com a história das populações negras e africanas. É preciso compreender essas culturas a partir de suas próprias referências e reconhecer o lugar das mulheres nessas sociedades. Convido os ouvintes a conhecerem também o perfil Poderosas Rainhas Africanas no Instagram.

Referência da entrevista

FONSECA, Mariana Bracks. Rainha Ginga. Entrevista concedida a Andriolli Costa. In: Poranduba 111: Rainha Ginga. Apresentação: Andriolli Costa. 6 abr. 2022. Podcast.

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