“A bruxaria geralmente nasce nas bordas sociais”: Naê Salatim fala sobre magia e cultura popular

Por Andriolli Costa

Contador de histórias, ator e praticante de bruxaria, Naê Salatim pesquisa as relações entre magia, espiritualidade e cultura popular. Morador de Sumaré, no interior de São Paulo, ele integra a tradição Reclaiming, é iniciado na tradição Feri e atua como sacerdote pela Irmandade de Ísis. Seu trabalho também se dedica à chamada folk magic, expressão usada para designar práticas mágicas construídas a partir dos saberes e recursos disponíveis no cotidiano das comunidades.

Na entrevista, Naê relembra o contato com as histórias ouvidas na infância, a formação em teatro e o percurso inicialmente autodidata pela bruxaria. A conversa procura ainda diferenciar conceitos como magia, bruxaria e feitiçaria, além de discutir como essas práticas aparecem nas margens sociais, no catolicismo popular, no benzimento e em tradições que combinam referências indígenas, africanas, europeias e cristãs.

O episódio também aproxima a experiência contemporânea de Naê das representações da bruxa no folclore. Entram em pauta relatos de bruxedo, amuletos de proteção, metamorfoses, espíritos da terra e pesquisas como as de Franklin Cascaes sobre a Ilha de Santa Catarina. Naê comenta ainda os limites éticos da apropriação de tradições, a presença de personagens do folclore brasileiro em práticas rituais e a importância de estabelecer uma relação respeitosa com os saberes e seres ligados a cada território.

O conteúdo a seguir é uma transcrição editada do episódio 93 do Poranduba, apresentado por mim e publicado originalmente em 12 de outubro de 2020. Para tornar a leitura mais fluida, foram retiradas hesitações, repetições involuntárias e outras marcas excessivas da oralidade, sem alterar o sentido das falas. As inserções musicais e o trecho cinematográfico presentes no programa foram identificados, mas não transcritos.

Entre a contação de histórias e a bruxaria

Andriolli Costa: Bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas do folclore brasileiro. Eu sou Andriolli Costa, o Colecionador de Sacis, e serei o seu guia. No programa de hoje, tenho o prazer de receber o contador de histórias e bruxo Naê. Tudo bem, Naê?

Naê Salatim: Olá, gente! Estou muito feliz de estar aqui. É uma honra imensa. Sou muito fã do programa, falo dele para todo mundo, e é muito estranho porque já passou por este lado tanta gente que me inspira. Agora estou aqui. É uma honra gigantesca.

Andriolli Costa: A honra é toda nossa. Em 2019, fizemos um programa sobre aquela polêmica clássica: Halloween versus Dia do Saci. Em 2020, quis retomar o tema da bruxa, mas agora aproximando, de um lado, a perspectiva do folclore e, de outro, a experiência de algo que está muito presente hoje: a prática mágica e o ocultismo. É um assunto sempre em voga nas redes sociais e há muitos podcasts sobre ele.

O Naê vai falar da sua pesquisa e, principalmente, daquilo que pratica e vivencia. Enquanto isso, vou trazer alguns elementos de leitura para estabelecermos esse diálogo. Para começar, queria que você se apresentasse aos nossos ouvintes com as suas próprias palavras. Quem é você?

Naê Salatim: Sou Naê, tenho 25 anos e moro no interior de São Paulo, numa cidade chamada Sumaré. Costumo dizer Campinas porque as pessoas se localizam melhor. Sou contador de histórias, tenho formação em teatro e sou bruxo. Faço parte da tradição Reclaiming de bruxaria, sou iniciado na tradição Feri e sacerdote pela Irmandade de Ísis, uma vertente da espiritualidade da Deusa.

Também pesquiso folk magic, a magia ou feitiçaria do povo, e tudo o que envolve o contato das pessoas com a magia e a feitiçaria.

Andriolli Costa: Há também a magia da contação de histórias. Como esse caminho começou para você?

Naê Salatim: Meu contato com a arte narrativa surgiu muito no magistério, que ainda existia na minha cidade. Minhas professoras começaram a me incentivar: uma vez por semana, faziam com que eu lesse para a turma. Colocaram muitos contos e histórias nas minhas mãos, e foi aí que comecei a me apaixonar por essa arte.

Com Regina Machado, que já esteve aqui no programa, aprendi a pensar a contação como a arte da presentificação. É o ato de estar presente e também de dar um presente a alguém: a história que você vai narrar.

Depois do magistério, fui estudar teatro para me munir de conhecimentos práticos e teóricos. Hoje sigo nessa pesquisa, ainda no começo e caminhando a passos lentos. É uma arte que me envolve e que quero levar adiante.

Andriolli Costa: Uma pergunta que sempre fazemos aos entrevistados é sobre a infância. De onde veio o seu interesse pela contação? Havia algum familiar que contava histórias ou alguma professora que o incentivava?

Naê Salatim: Recebi influências de muitos lugares. Estudei a vida inteira em escola pública e, para minha sorte, a escola em que fiz o ensino fundamental tinha uma biblioteca infantil maravilhosa. Quem cuidava dela era uma contadora de histórias. Fomos muitas vezes àquela biblioteca, que era um lugar mágico. Foi ali que ouvi muitas histórias e, com certeza, me apaixonei por isso.

Também havia as histórias da minha família. Meu avô é caminhoneiro e, toda vez que chega de viagem, conta o que viveu. Às vezes traz histórias de assombração, que são as minhas preferidas. Cresci na casa dos meus avós e moro com eles. Minha avó e meu avô sempre contaram coisas da roça e do sertão. Essa bagagem familiar, somada à base que a escola me deu, formou meus primeiros contatos com a narrativa.

Leituras da adolescência e o caminho solitário

Andriolli Costa: E a bruxaria? Ela teve relação com alguma influência da cultura pop? Há cada vez mais livros, filmes e séries sobre o assunto. Para você, isso teve alguma ligação com o sucesso de Harry Potter no fim dos anos 1990 e nos anos 2000?

Naê Salatim: Essa pergunta é muito doida. Foi na adolescência, naquela fase de adolescente rebelde que quer questionar tudo. Eu me sentia muito atraído pela obra de Rick Riordan, especialmente Percy Jackson. Havia algo que eu não sabia explicar, quase como uma voz sussurrando: “Leia-me”. Comprei o livro, li em dois dias e comecei a questionar a ideia de deuses e divindades.

Logo depois, passei a investigar outras vertentes religiosas. Fui estudar xamanismo, Umbanda, espiritismo e tudo o que tinha direito, até chegar à bruxaria pelo contato com os seres da natureza. Acho que muita gente chega por esse caminho: pela curiosidade sobre fadas, duendes, gnomos e coisas assim. Comigo não foi muito diferente.

Andriolli Costa: Lembro também daquelas revistas de Wicca. Na adolescência, eu via muita gente andando com elas. Esse esoterismo da Wicca tem relação com a bruxaria de que você fala?

Naê Salatim: Tem e não tem. A bruxaria de fato trabalha com os espíritos que existem na natureza. Mas este é um assunto sobre o qual gosto muito de insistir: estamos sempre olhando para os seres de fora, especialmente os europeus, e quase nunca para os seres da nossa própria terra.

Sim, a bruxaria tem ligação com esses seres, mas precisamos desconstruir a ideia de que eles são sempre europeus. É preciso voltar um pouco o olhar para cá, para a terra onde vivemos.

Andriolli Costa: Sua iniciação parece ter sido muito autodidata.

Naê Salatim: Totalmente. Primeiro, li tudo o que estava à disposição, assisti a vídeos e fui praticando. Fiz muita coisa errada, muita besteira, até pensar: “Preciso de pessoas que entendam disso para me ensinar”.

Comecei a procurar no Facebook nomes e palavras que eu associava à bruxaria. Encontrei algumas pessoas, fiz amizade com elas e fui aprendendo. Só em 2017 encontrei de fato as tradições das quais faço parte. Antes disso, foi um caminho muito autodidata e solitário — o que chamamos de caminho solitário da bruxa.

Bruxaria, feitiçaria e magia

Andriolli Costa: Para sermos didáticos: muitas vezes usamos “bruxaria” e “feitiçaria” como sinônimos. Elas significam efetivamente a mesma coisa?

Naê Salatim: Podemos analisar por dois vieses: o da bruxaria como religião e o da bruxaria como fenômeno e experiência humana, que é o que sigo. É o caminho do ofício, o caminho da prática com que me sinto mais à vontade. Dentro desse caminho do ofício, do contato e da prática, não há diferença entre bruxaria e feitiçaria. Nessa bruxaria mais ligada à terra, aos espíritos e ao êxtase, elas não se separam.

Algumas pessoas dizem que a feitiçaria é a prática de feitiços, enquanto a bruxaria seria essa prática associada a um sacerdócio: alguém mantém devoção a uma divindade ou a outro ser e presta serviço à comunidade. Nessa classificação, magos e magia estariam mais ligados aos estudos ocultistas. Não é uma classificação errada, mas, do meu ponto de vista, bruxaria e feitiçaria caminham muito juntas e, às vezes, nem se separam.

Andriolli Costa: Na pesquisa para esta pauta, encontrei pessoas que fazem a distinção pela intenção. A feitiçaria envolveria a intenção de realizar o ato mágico, enquanto, na bruxaria, o ato poderia ocorrer de maneira inata: a pessoa pensa mal de alguém e esse mal acontece.

Isso entra em conflito com o programa que fizemos sobre magia simpática. Na minha pesquisa, encontro a ideia de que, para um ato mágico acontecer, é preciso haver intenção. Caso contrário, caímos naqueles memes em que a pessoa tenta aprender alemão, pronuncia algo errado e acaba invocando uma criatura. Não é assim?

Naê Salatim: A bruxaria também parte disso, porque a intenção é a base de toda magia. Antes de a magia acontecer, a pessoa a imagina e tem a intenção de realizá-la. Sem isso, ela não acontece. Acho que vale para todas as vertentes que envolvem magia e feitiçaria.

Andriolli Costa: Então vamos ao básico do básico: o que é magia?

Naê Salatim: Acho que farei essa pergunta pelo resto da vida e encontrarei muitas respostas diferentes. Hoje, encaro a magia como o ato de mudar a realidade a partir da vontade e da intenção. É mover os pauzinhos do seu destino por meio da sua vontade. Consigo defini-la dessa maneira.

Andriolli Costa: O leitor talvez possa estranhar que estejamos discutindo magia assim, mas ela interessa há muito tempo à antropologia e à sociologia. Não é necessário acreditar que seja possível fazer magia. O fato é que as pessoas acreditam e, por isso, fazem ou deixam de fazer determinadas coisas. Aí está um fenômeno que merece ser estudado e evidenciado. Malinowski, por exemplo, foi retomado por muitos ocultistas. De maneira bastante sintética, podemos pensar a magia como um conjunto de ações voltadas a determinado fim. Ao cabo, temos a magia como técnica: algo que procura transformar a natureza e, com isso, criar uma esfera mais interessante, habitável ou valiosa para o indivíduo..

Magia à margem e cultura popular

Andriolli Costa: É possível pensar numa ligação entre magia e cultura popular?

Naê Salatim: Não consigo separar uma coisa da outra. Falando especificamente da bruxaria, eu a compreendo como um fenômeno humano. Se um dia a humanidade desaparecesse da Terra e outra espécie surgisse, acredito que a bruxaria existiria novamente. Alguém olharia para a Lua e sentiria renascer dentro de si os mistérios e a vontade de conhecer o que há de oculto na natureza.

Como fenômeno, a bruxaria geralmente nasce nas bordas sociais, nas margens. Ela é quase uma ferramenta que a população usa para lidar com a opressão, a pobreza e outras questões ligadas à marginalidade. Por isso, não consigo dissociá-la das coisas folclóricas, do povo e da terra. Para mim, bruxaria é isso.

Andriolli Costa: Às vezes pensamos naquela magia ritualística tradicional e elitista: pessoas ricas, maçons, sociedades secretas, couro de leão, adagas de ouro, toda aquela cena. Mas não precisa ser assim.

Naê Salatim: De modo algum. As pessoas praticam magia com aquilo que têm e conseguem. A bruxaria e a feitiçaria são muito associadas às classes baixas e às pessoas marginalizadas. Se não há cera, usa-se sebo; se não há determinado ingrediente, vai-se ao mato procurar. São práticas muito ligadas às ervas e ao conhecimento das propriedades das plantas. As pessoas usam o que têm à mão.

Andriolli Costa: Isso me lembra um episódio do Mundo Freak sobre vodu. Marcos Keller contava que, no Haiti, uma prática mágica muito ligada à população negra e à resistência durante e depois da escravidão empregava principalmente elementos da cozinha: sálvia, alecrim, colher de pau, faca. Aquilo que estava próximo ganhava outro contexto e se tornava elemento da prática mágica.

Naê Salatim: Sim. Há vertentes da bruxaria italiana, por exemplo, que são muito caseiras. A prática mágica é voltada para a casa: faz-se um feitiço usando o fogão, empregam-se coisas que estão ali, santos, Bíblia, o que houver. É o que faz parte da vida do povo, literalmente.

Catolicismo popular, hoodoo e benzimento

Andriolli Costa: Você mencionou santos e Bíblia. A relação entre magia e cristianismo parece tão distante e oposta, mas, na verdade, pode ser mais próxima do que imaginamos.

Naê Salatim: Basta olhar para o catolicismo popular. Desculpem-me os ouvintes católicos, mas, do meu ponto de vista, ele é cheio de feitiçaria.

Eu estudo folk magic e pratico uma feitiçaria comum no sul dos Estados Unidos, o hoodoo. Ela reúne influências de conhecimentos indígenas, africanos e europeus. Há muito uso de elementos populares e muita influência do cristianismo: existem conjuras — como chamamos certos trabalhos — que recorrem a salmos, orações para santos e velas acesas para eles.

No Brasil, encontramos coisas parecidas nas práticas das benzedeiras. Se você disser a elas que estão fazendo magia, talvez rezem um terço na sua frente. Mas, de um ponto de vista prático e teórico, curar alguém e benzer alguém são atos mágicos. As coisas estão conectadas, uma entra no campo da outra. O catolicismo influenciou muitas práticas de feitiçaria e bruxaria.

Andriolli Costa: Na UFRGS, aqui em Porto Alegre, há uma tese muito interessante de Susana de Azevedo Araújo, pesquisadora da Ilha da Pintada. Eu já tinha ouvido histórias daquela região, inclusive sobre o Vampiro da Pintada, mas não sabia que era um terreno tão fértil para narrativas de bruxas e lobisomens.

Ela estudou a crença em bruxas e percebeu algo muito interessante: na comunidade, essa crença permanece viva, em parte, por causa das benzedeiras. São elas que identificam quando uma criança está com bruxedo, quando foi embruxada. Se a criança está com bruxedo, pressupõe-se que uma bruxa a enfeitiçou. A presença da benzedeira mantém vivo esse antagonismo com a bruxa. São forças em polaridade. Você já tinha ouvido histórias de bruxedo? Elas se aproximam do que você lê?

Naê Salatim: Já ouvi falar, mas, na minha região, o bruxedo é muito associado ao mau-olhado e à inveja.

Andriolli Costa: O mau-olhado e o bruxedo aparecem quase como a mesma coisa e afetam principalmente crianças pequenas. Por isso, alguns pais evitam mostrar os bebês, com medo desse olhar. E ele não precisa necessariamente vir de uma bruxa; pode vir de uma pessoa muito invejosa e causar algum mal à criança.

Proteções contra o bruxedo

Andriolli Costa: Quando se trata da bruxa, existe uma série de elementos de proteção contra o bruxedo. Câmara Cascudo menciona alguns. Durante muito tempo, colocava-se o Sinal de Salomão na entrada do quarto da criança ou espalhava-se sal no batente da porta. Também se escondia uma lâmina virgem.

Naê Salatim: E havia a tesoura de aço.

Andriolli Costa: Isso. Colocava-se uma tesoura sobre um copo com água. Também se deixava um molho de gravatá para obrigar a bruxa a contar as fibras e, assim, impedi-la de fazer mal à criança. São histórias muito ricas. Essas proteções também aparecem contra as fadas na Europa. A tesoura de aço era uma proteção típica para que elas não roubassem as crianças. A ligação entre fada e bruxa volta a aparecer. Você conhece outras proteções?

Naê Salatim: Já vi alho na porta, potes enterrados sob a entrada da casa com muitos pregos enferrujados e água — o que algumas pessoas chamam de água de guerra — e símbolos colocados debaixo do tapete para prender a bruxa quando ela pisa. Há muitas armadilhas para impedir que ela se aproxime das crianças.

Andriolli Costa: Cascudo também registra como o aço e o ferro são empregados para afastar espíritos. Uma faca pode ser cravada no barco para repelir seres malfazejos ou atravessada entre os dentes. Em muitos benzimentos, movimenta-se a tesoura como se ela cortasse o mal. A tesoura em cruz também pode capturar a bruxa ou o demônio.

Naê Salatim: Há ainda o costume de pingar azeite na água e cortar o fio do azeite.

Andriolli Costa: É muito interessante pensar no simbolismo da tesoura, da faca e da espada. A lâmina separa e distingue: o bem do mal, a luz da treva, o certo do errado. É esse uso simbólico que se atribui a ela. A tesoura também parte, cinde uma coisa da outra. Há todo um arcabouço arquetípico aí, embora quem realiza a prática não precise ter consciência dele nesses termos.

Naê Salatim: Esses amuletos aparecem também na proteção contra fadas e outros seres da natureza. Por isso, muita gente na bruxaria diz que as fadas são alérgicas ao ferro. Acho essa explicação simplista, mas, se o símbolo funciona para a pessoa, não vejo problema.

Na minha prática, uso o ferro quando volto de um transe ou de uma meditação muito profunda. Ao retornar, seguro algo de ferro para aterrar novamente a consciência no presente.

A bruxa folclórica e suas transformações

Andriolli Costa: Você é um praticante de magia e se apresenta como bruxo. É ofensivo ouvir que a bruxa causa bruxedo, enfeitiça crianças e lança mau-olhado?

Naê Salatim: Acho que já foi muito ofensivo para mim. Hoje, vejo as pessoas reinventando e reivindicando o termo. Algo parecido acontece com a palavra “diabo”. Muita gente se assusta quando a bruxaria é associada a ele e tenta negar qualquer relação. Ao mesmo tempo, vejo bruxas reivindicando tanto “bruxa” quanto “diabo” dentro de suas práticas, explicando essas palavras de outras formas e inserindo-as em outros contextos.

Hoje não considero ofensivo, embora já tenha ouvido comentários muito desagradáveis sobre minha prática. Existe uma grande diferença entre esse universo simbólico e aquilo que se vive numa tradição. À medida que trazemos o simbólico para o campo do conhecimento, ele também se modifica.

Andriolli Costa: Podemos distinguir a chamada bruxaria tradicional, da qual se fala no folclore, e a bruxaria moderna, hoje ressignificada e ligada a diferentes doutrinas. Elas têm semelhanças, mas não são a mesma coisa. Portanto, ninguém precisa se ofender. Você conhece a obra de Franklin Cascaes?

Naê Salatim: Não conheço.

Andriolli Costa: Cascaes foi um grande folclorista de Santa Catarina. Ao longo do século XX, circulou pela Ilha de Santa Catarina recolhendo histórias de bruxas. Não por acaso, Florianópolis ficou conhecida como Ilha da Magia.

Quando lemos as histórias reunidas por ele, a bruxa às vezes parece um contraponto direto ao lobisomem. Se o lobisomem é o sétimo filho depois de seis homens, a bruxa pode ser a sétima filha depois de seis mulheres, com pequenas variações. Se o lobisomem se transforma na noite de quinta para sexta-feira, a bruxa de Cascaes também passa por uma metamorfose. Às vezes assume a forma de pato ou de outra ave; em outros casos, ganha uma aparência monstruosa, com unhas muito compridas, e se torna capaz de passar pelo buraco da fechadura. Você já encontrou histórias parecidas?

Naê Salatim: A questão das sete irmãs, não muito. Mas associo plenamente a ideia da transformação. Já encontrei relatos e livros de bruxaria que ensinam práticas desse tipo. É mais um estado extático da alma.

A bruxaria se aproxima muito do xamanismo, que tem uma forte conexão com os animais. Ela compartilha algo desse caminho em direção a uma alma selvagem, a um estado mais primal. Às vezes, perguntam se a bruxaria é um caminho de evolução no qual se deve fazer o bem para elevar a alma. Para mim, não é isso. A bruxaria é um caminho para tornar a existência humana tão humana quanto possível, para se fazer presente no aqui e agora.

O êxtase de se transformar em animal se aproxima de experiências encontradas no xamanismo e em certas pajelanças no Brasil. Dion Fortune, uma ocultista, também escreveu relatos de pessoas que se transformariam em lobisomens e de bruxas que assumiriam a forma de mariposas. É um tema que aparece em suas obras.

Andriolli Costa: Acho interessante extrapolar e pensar no que significa essa oposição entre o lobisomem e a bruxa. Os mitos estão espelhados: surgem de maneiras parecidas nas narrativas populares, mas assumem formas específicas para o homem e para a mulher. Podemos pensar na anima e no animus dessas transformações.

O homem vira uma criatura bestial, feroz, violenta, grande e forte. A mulher se torna a bruxa insidiosa, cuja identidade não se revela, que age às escondidas e usa sortilégios. Há muito dessa oposição simbólica.

Naê Salatim: São quase polaridades, quase opostos.

Andriolli Costa: Hélio Serejo, folclorista de Mato Grosso do Sul, recolheu narrativas na fronteira com o Paraguai. Numa delas, quando a bruxa e o lobisomem se encontram, eles bailam. Dançam loucamente, e esse bailado cria uma tempestade.

Pense no que significa o encontro entre bruxa e lobisomem: masculino e feminino — não macho e fêmea, mas masculino e feminino como potências da alma. Quando anima e animus se encontram, surge a tempestade. O que isso pode significar?

Naê Salatim: É muito poético. Gostei.

Espíritos da terra e saberes locais

Andriolli Costa: Entrando mais diretamente na sua prática, que ligação você faz entre os seres do folclore e a bruxaria?

Naê Salatim: No meu caminho existe um lore, um conhecimento transmitido oralmente que recebi e transmito a outras bruxas, sobre como alguém se torna bruxa. Segundo essa narrativa, as bruxas nascem quando são tocadas pelos espíritos da terra. Não me refiro a um espírito abstrato de Gaia, mas aos espíritos daquele lugar: Saci, Curupira e outros seres locais.

Quando alguém é tocado por um desses espíritos, tem três saídas: morre, enlouquece ou se torna poeta. Acho isso muito bonito e rico.

Uma vez, pesquisando práticas religiosas no Brasil, encontrei a pajelança cabocla no arquipélago do Marajó. Há um documentário lindíssimo sobre ela. Pajés entrevistados contam que recebem o dom da pajelança quando são levados pelos caruanas, espíritos das águas. No fundo do rio, recebem o dom de curar e o conhecimento das ervas. Depois, voltam para cuidar da comunidade.

Mais uma vez, encontramos pequenas comunidades ribeirinhas e pessoas que adquirem um saber para tratar, curar e servir aos outros. Vejo uma semelhança simbólica com o lore que recebi nos Estados Unidos: a pessoa passa a servir à comunidade depois de ser tocada pelo espírito do local e da terra.

A bruxaria, para mim, está profundamente ligada a isso. Por essa razão, insisto tanto com as bruxas que voltam os olhos apenas para questões europeias. Se você se tornou bruxa porque os espíritos o tocaram, foi a terra onde você vive que o chamou para um trabalho, uma ação ou alguma responsabilidade diante da comunidade.

Apropriação e limites éticos

Andriolli Costa: Cada vez mais, integrantes de povos indígenas reivindicam as próprias culturas e questionam o uso indevido de suas espiritualidades, crenças e manifestações. Aqui, não estamos apenas no âmbito do folclore; entramos diretamente em espiritualidades indígenas, como a pajelança. Como pensar isso de uma maneira que não seja colonial nem envolva a apropriação desses saberes?

Naê Salatim: A relação que fiz com a pajelança foi somente simbólica. Não gosto quando as pessoas usam a bruxaria como uma espécie de carteirinha branca que autorizaria entrar em qualquer cultura, retirar seus seres, entidades, deuses e práticas e enfiar tudo numa prática particular. Isso é extremamente colonizador.

Às vezes, alguém me pergunta como faço para chamar “deuses brasileiros”. Já respondo: não são deuses brasileiros, são deuses indígenas. Essas divindades ainda têm cultos vivos. Por que eu as chamaria para o meu círculo de bruxaria? É muita audácia e egocentrismo imaginar que uma divindade de uma comunidade indígena precise ir a um círculo mágico na capital de São Paulo. É algo completamente desconexo.

Vejo a questão de algumas maneiras. Acho válido e saudável trabalhar com os espíritos da nossa terra e com personagens folclóricos que já fazem parte do imaginário compartilhado e dos nossos saberes. Afinal, a bruxa procura ouvir a voz desses espíritos.

O problema aparece quando ela ultrapassa essa linha para se apropriar de divindades, saberes, rapé, ayahuasca e medicinas indígenas. Aí considero uma postura colonizadora e apropriadora.

Vou citar um sonho que tive. É algo empírico e simbólico, mas acho que exemplifica esse cuidado. Tive uma bisavó indígena e, dentro da minha prática, mantenho um culto muito forte aos ancestrais. Num sonho profundo, vi toda a minha família, tanto do lado paterno quanto do materno, diante de uma chácara. Lá havia uma senhora indígena sentada, olhando para mim, e um homem ao lado dela.

As pessoas da minha família tentavam abrir o portão. Então, esse homem se transformava numa grande onça-pintada e saltava sobre o portão para afastá-las. Não chegava a morder, mas avançava para impedir a entrada.

Quando acordei, pensei: “Não tenho que entrar nesse lugar. Não tenho que tocar nesse saber tão sagrado e importante para aquele povo”. Minha bisavó era indígena, mas eu não sou. Como pessoa branca, preciso entender que esse lugar é sagrado e que não tenho o direito de invadi-lo sob a desculpa de cultuar meus ancestrais. Há muitas maneiras de fazer esse culto sem usar uma comunidade nem tomar conhecimentos que lhe são sagrados.

Quando o folclore entra no ritual

Andriolli Costa: O ouvinte Maycon Torres enviou uma pergunta. Você percebe alguma diferença entre os seres com os quais trabalha na prática mágica e aqueles encontrados nas leituras dos folcloristas? Haveria diferença, por exemplo, entre um Saci que aparece num trabalho mágico e o Saci descrito por Monteiro Lobato ou Câmara Cascudo em suas obras de não ficção?

Naê Salatim: Com certeza. Acho que são entidades bastante diferentes. Uma vez, ouvi um mestre juremeiro falar sobre os encantados no culto da Jurema. Ele contou que, antigamente, juremeiros chamavam o Saci em rituais de descarrego. Os médiuns recebiam o Saci para descarregar as pessoas.

Achei fantástico, porque isso revela características do Saci: sua malandragem, suas brincadeiras e sua relação com o vento, que também pode ser pensado como movimento e limpeza.

Os espíritos acabam se apresentando de modo diferente, embora guardem semelhanças com o que encontramos no folclore e nos registros escritos. Usamos esses registros para aprender a nos aproximar: é na pesquisa que descobrimos de quais oferendas a Caipora gosta, o que fazer e o que não fazer diante desses seres.

Eles não são fofinhos nem completamente amigáveis. Na minha visão, também não operam segundo uma polaridade simples entre bem e mal. São seres selvagens, ligados à natureza. Por isso, é preciso cuidado quando a escrita os romantiza demais.

Andriolli Costa: Você poderia dar um exemplo desse trabalho para que a gente consiga visualizá-lo?

Naê Salatim: Na minha comunidade de bruxaria, trabalhamos com esses seres em todos os rituais. Às vezes eles se apresentam; em outras, surgem espontaneamente na fala e entendemos isso como um sinal. Já trabalhamos com a Cuca, invocamos a Cobra Grande e trabalhamos com a Caipora. Dentro da nossa experiência ritual, eles chegam de maneira muito intensa. A Cuca tem uma energia densa e eu a encaro como uma força de transmutação muito grande, ligada ao caldeirão e também a elementos que Monteiro Lobato plantou no nosso imaginário, como a Cuca-jacaré.

Esses seres se apresentam de maneira selvagem. A Cobra Grande chega quebrando tudo, fazendo a terra tremer. Com a Caipora, ouvimos gritos e assobios. São presenças fortes e marcantes; algumas chegam a causar medo.

Andriolli Costa: Não sou praticante de magia e não tenho experiência com isso. Mesmo assim, de vez em quando alguém aparece nas redes sociais dizendo: “Quero fazer um trabalho com o Saci, mas estou com medo de ele ficar na minha casa, bagunçar tudo e sumir com minhas coisas”. Eu respondo: é bom ter medo mesmo.

Naê Salatim: É bom ter medo, sim. Houve uma época em que decidi começar a fazer oferendas ao Saci e levava fumo para o meu jardim. Em determinado momento, parei. Então algumas coisas começaram a acontecer em casa: meu celular aparecia embaixo do sofá, a revista de passatempo da minha avó surgia no jardim e a bucha de lavar louça ficava no meio das plantas.

É preciso ter, pelo menos, respeito e cuidado. Esses seres não se orientam pela mesma polaridade humana de bem e mal. Estão mais ligados ao caráter selvagem da natureza, que é, ao mesmo tempo, grande tormenta e grande calmaria.

Festas do território

Andriolli Costa: Se no começo falamos em não pensar apenas nos encantados de outros países, algo parecido vale para os festivais pagãos. É comum celebrá-los segundo datas e estações do hemisfério norte. O Halloween representa determinado momento lá, mas aqui a estação é outra; o mesmo vale para Beltane. Como você trabalha com essa sazonalidade das datas de interesse mágico?

Naê Salatim: No começo do meu caminho, fiz o que chamamos de “rodar a roda”: segui a Roda do Ano conforme o calendário do hemisfério norte. Realizava meus rituais e festividades ligados à terra segundo aquelas datas.

Depois de algum tempo, isso deixou de me contemplar, principalmente quando mergulhei no folclore. Hoje já não celebro aquelas festividades. Celebro as festas brasileiras, porque elas também estão conectadas à terra e às estações vividas aqui.

Há aproximações possíveis entre Samhain e o período de Finados, entre festividades com fogueiras, Beltane, Ostara e a Páscoa. Mas, para mim, participar de uma festa junina, de uma quermesse, celebrar a Páscoa ou viver o Finados aproxima muito mais a prática da terra em que estou.

Não sigo mais formalmente a Roda do Ano do paganismo. Celebro nossas festas e nossos costumes.

Inquisição, perseguição e memória

Andriolli Costa: Para nos encaminharmos ao final, há uma questão que não pode ficar de fora quando se fala em bruxas: a Inquisição. Muita gente do nosso grupo de apoiadores pediu essa pergunta. Afinal, tivemos Inquisição no Brasil? O que você conhece sobre isso?

Naê Salatim: Houve atuação inquisitorial relacionada ao Brasil. Existem livros e pesquisas sobre isso. Um deles é O Diabo e a Terra de Santa Cruz, de Laura de Mello e Souza, publicado nos anos 1980. A obra trata do Brasil colonial e das práticas de feitiçaria do período.

Minha pesquisa não se concentra na Inquisição. Eu buscava compreender as práticas mágicas e, nesse caminho, lia dissertações, teses e artigos que encontrava. Acabei me deparando com muitas histórias de pessoas negras, escravizadas ou livres, submetidas a processos inquisitoriais.

Isso acontecia, por exemplo, por causa do uso de patuás e de cartas de tocar. Nessas cartas, escrevia-se o nome da pessoa que se queria prender amorosamente ou seduzir, acompanhado de símbolos mágicos. Elas chegaram a ser comercializadas, inclusive na Bahia. Patuás, cartas de tocar, feitiçarias e práticas de cura podiam levar alguém a um processo inquisitorial. Muitas pessoas tiveram destinos trágicos; outras conseguiram escapar.

Andriolli Costa: Também é importante colocar em perspectiva a imagem de uma Inquisição que queimava bruxas indiscriminadamente. Não houve milhares de fogueiras nem um “holocausto das bruxas” no Brasil. Houve, porém, perseguição, denúncias, prisões, tortura, degredo e outros tipos de condenação relacionados a práticas consideradas heréticas ou supersticiosas. Muitos casos recaíam sobre mulheres estrangeiras ou pessoas vistas com maus olhos pela comunidade, sob acusações de promiscuidade, prostituição ou sexualidade excessiva. A maneira como a mulher era julgada, somada ao fato de ser estrangeira, pobre ou socialmente marginalizada, formava um grande arcabouço de preconceitos.

Um caso muito divulgado é o de Mima Renard, apresentada como uma francesa que teria vivido em São Paulo no fim do século XVII. Segundo essa narrativa, depois da morte do marido, ela teria recorrido à prostituição para sobreviver e sido acusada de usar feitiçaria para atrair homens casados. Também há registros de feiticeiras portuguesas na América portuguesa. Maria Gonçalves, conhecida pela alcunha “Arde-lhe-o-rabo”, atuava em Salvador no final do século XVI e ficou associada a práticas de feitiçaria amorosa.

Outro caso é o de Luzia Pinta, mulher angolana, negra e forra, que vivia na região de Sabará, em Minas Gerais. Ela realizava curas e ritos de calundu e foi denunciada ao Santo Ofício. Seu processo mostra como práticas religiosas africanas e afro-brasileiras foram enquadradas como feitiçaria e perseguidas pelas autoridades coloniais.

Nota da edição: A fala original atribui a Mima Renard uma execução na fogueira em São Paulo, em 1692, mas essa história, muito difundida na internet, não conta com comprovação documental conhecida. A gravação também afirma que Luzia Pinta teria sido queimada viva. O processo preservado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo registra outra sentença: abjuração, proibição de regressar a Sabará e quatro anos de degredo em Castro Marim, Portugal. As afirmações foram ajustadas no corpo da transcrição e a divergência foi registrada aqui por transparência editorial.

Essas perseguições ainda encontram ecos no presente. Um caso trágico é o de Fabiane Maria de Jesus, espancada por uma multidão no Guarujá, em 2014, depois de ser confundida, por causa de um boato nas redes sociais, com uma mulher acusada de sequestrar crianças para rituais. Ela morreu em decorrência das agressões. É um episódio que mostra como a ignorância, a intolerância e a circulação de informações falsas podem literalmente acabar com a vida de alguém.

Muita gente me pergunta se o folclore não poderia alimentar esse tipo de preconceito e levar a atrocidades. Eu diria que não necessariamente. A tese sobre a Ilha da Pintada mostra uma situação interessante: as benzedeiras identificavam quando uma criança sofria de bruxedo, mas não revelavam quem seria a bruxa. Não apontavam alguém para a comunidade. Isso evitava comoção e funcionava como forma de controle social. As benzedeiras, donas daquele saber, reconheciam o mal e agiam para proteger a criança, mas não mobilizavam uma caça às bruxas. Nesse caso, o conhecimento folclórico servia à mediação dos conflitos e à proteção, não como gatilho para destruir a vida de alguém.

Intolerância e firmeza no caminho

Andriolli Costa: Falamos de intolerância religiosa. Sua família aceita pacificamente a sua prática mágica, que para muita gente deve ser uma novidade?

Naê Salatim: Com certeza não. Metade da minha família é evangélica, inclusive minha mãe. Já houve episódios em que ela entrou num grande drama, chorou e disse que eu estava chamando o diabo. Em muitos lugares, não me sinto à vontade para dizer que sou bruxo. No trabalho, por exemplo, não falo sobre a prática. Isso é ruim porque a pessoa se priva de dizer quem é. Quando alguém pergunta, fico pensando no que responder e em como ela vai reagir.

No começo, sofri mais. Eu ainda era adolescente quando comecei a praticar e demorei a compreender a rejeição da minha família. Houve situações em que eu me aproximava de uma criança e algum parente a tirava de perto de mim. Hoje já não me abalo da mesma forma.

O mais engraçado — e irônico — é que, quando as coisas apertam, as pessoas procuram a bruxa para resolver. É a bruxa que vai tirar o mal-olhado ou ajudar a curar uma doença. Parece estranho, mas é um fenômeno que acontece.

Andriolli Costa: Para suas últimas palavras, queria que você se dirigisse ao ouvinte que talvez não se interesse por magia, mas cultive algum interesse, prática ou identidade que os outros olham de maneira torta e não procuram compreender. Com base na sua experiência, como encarar esses olhares?

Naê Salatim: A partir do momento em que você torna aquilo tão sagrado dentro de si que ninguém consegue invadir e deturpar esse espaço, já avançou muito.

Na internet, há várias dicas para quem precisa praticar escondido: como realizar um ritual quando a família não aceita ou como manter um altar dentro de casa. Acho essas orientações valiosas, mas o ponto principal é conquistar firmeza nesse lugar sagrado, para que ele não seja destruído pela falta de conhecimento das outras pessoas. E, se alguém realmente quiser entender, explique o que é. Muita coisa vem da falta de informação.

Hoje, a bruxaria passa por um processo de popularização. Isso também pode ser perigoso porque, às vezes, ela é higienizada demais. Encontramos muitos discursos de “paz, amor e gratiluz”, mas não é exatamente por aí que a bruxaria caminha.

Há uma frase de que gosto muito: “A bruxa não é uma trabalhadora da luz; é uma caminhante da noite”. Para mim, ela sintetiza o que a bruxa representa. A sociedade ainda a coloca num lugar muito negativo, lado a lado com o diabo. Reivindicar a palavra “bruxa” exige coragem e audácia.

Costumo dizer que a bruxaria é um caminho aberto para todo mundo, mas nem todo mundo está aberto para a bruxaria. É um caminho no qual precisamos reivindicar poderes e lugares que nos são completamente negados pela sociedade.

Redes, referências e despedida

Andriolli Costa: Muito obrigado. Foi um grande prazer ouvi-lo neste programa especial para o Dia das Bruxas — ou o Dia do Saci, você decide. Acho importante não forçar ninguém a gostar do Saci. A gente mostra como ele é fascinante e, assim, chama as pessoas para o lado dele. Queria que você apresentasse suas redes sociais e falasse um pouco do seu trabalho para quem quiser conhecer mais.

Naê Salatim: Meu Instagram é @naesalatim, com “m” no final. O perfil de contação de histórias é @naelobardo. Há também a página, o site e o Instagram da tradição de bruxaria, onde sempre falamos de folclore de alguma forma: Reclaiming Brasil.

Quero recomendar ainda o trabalho de Rafael, da Vila Pagã, no Piauí. Ele desenvolve um trabalho sobre paganismo piaga e seres folclóricos, como a Caipora. É um projeto incrível. Também publicou o livro Mitologia Piaga, no qual fala sobre modos de aproximação com esses seres. Recomendo muito.

Referência da entrevista

SALATIM, Naê. Bruxaria e folclore. Entrevista concedida a Andriolli Costa. In: Poranduba 93: Bruxaria e Folclore. Apresentação: Andriolli Costa. 12 out. 2020. Podcast.

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