Live do FolcloreBR parte de uma disputa entre estátuas para discutir memória, regionalismos, comidas, pertencimento e as rivalidades que movimentam festas populares
Um caranguejo gigante instalado em Aracaju foi convocado para uma briga imaginária contra monumentos de todo o Brasil. A provocação partiu do jornalista Andriolli Costa, que publicou no Twitter a pergunta: “Que estátua da sua cidade pode sair na mão com o caranguejão de Aracaju?”. Vieram cristos redentores, animais, personagens históricos e esculturas difíceis de explicar. O duelo ultrapassou 28 mil curtidas e chegou a canais de grande audiência.
A brincadeira circulou no mesmo período em que o monumento ao bandeirante Borba Gato foi incendiado em São Paulo. De repente, a comparação bem-humorada entre figuras urbanas dividia espaço com uma discussão sobre quem merece ser homenageado nas cidades. Foi a deixa para o FolcloreBR abrir o Somando Visões 2021 perguntando o que as pequenas e grandes “tretas” culturais revelam sobre o país.
Transmitida em 15 de agosto de 2021, a live Tretas Culturais reuniu o ilustrador Anderson Awvas, o jornalista Andriolli Costa, o escritor Ian Fraser e o concept artist Mikael Quites. Ao longo da conversa, o grupo passou das estátuas ao cuscuz, dos sotaques aos bois de Parintins e das rivalidades carnavalescas às provocações do repente. O ponto em comum era a maneira como humor, afeto e conflito expõem disputas por memória, identidade e poder.
Quando o caranguejo entrou na guerra das estátuas
O sucesso da publicação surpreendeu até Andriolli. A pergunta havia sido feita como convite para que as pessoas mostrassem figuras curiosas de suas cidades. “Você sabe que o negócio está um sucesso quando chega no WhatsApp de pessoas que você nem sabia que conheciam você”, brincou um dos participantes.
Os participantes aceitaram o jogo. Anderson apresentou o Cristo Redentor de Conselheiro Lafaiete, em Minas Gerais, cuja cabeça desproporcional parecia usar um capacete. Ian escolheu as “Meninas do Brasil”, conhecidas como “Gordinhas da Ondina”, que apontam de Salvador para a Europa, a África e o interior do país. Mikael lembrou o Laçador e o Monumento aos Açorianos, em Porto Alegre. Andriolli ofereceu ao combate uma estátua do sobá, prato ligado à comunidade okinawana de Campo Grande.
O duelo produzia orgulho local, mas também valorizava aquilo que muitas vezes se torna invisível pela convivência diária. “A estátua é tipo um símbolo da cidade”, observou Anderson. Mesmo quando considerada feia ou desproporcional, ela reúne histórias, acidentes, festas e lembranças reconhecidas por quem vive ao seu redor.
A brincadeira mudou de temperatura quando o debate chegou a Borba Gato. Nas redes, a defesa do monumento frequentemente se transformava em defesa do próprio bandeirante. O grupo questionou a ideia de que retirar, deslocar ou intervir numa estátua equivaleria a apagar o passado. “A história não depende do monumento para ter acontecido”, sintetizou a mesa. A construção de uma homenagem faz parte da história, mas sua contestação também faz.
“A história continua se fazendo quando você bota fogo no Borba Gato”, acrescentou um dos participantes. O incêndio não eliminou o personagem dos documentos nem encerrou a discussão sobre o bandeirantismo. Criou outro acontecimento a ser interpretado, agora ligado à permanência de homenagens públicas a agentes da violência colonial.
As cidades contam histórias até quando ninguém pergunta
Ian levou o tema para o campo dos signos. Enxergar não seria apenas receber uma imagem, mas aprender a reconhecer e interpretar aquilo que aparece diante dos olhos. “O mundo é signo e decodificação”, afirmou. Uma cadeira, um trono e um banco podem ter funções semelhantes, mas os nomes e as formas carregam relações sociais diferentes.
O mesmo acontece com monumentos. “A estátua vem num signo atemporal”, explicou Ian. Uma figura escolhida em determinado contexto continua agindo sobre as gerações seguintes, mesmo quando poucos sabem por que foi colocada ali. “As estátuas contam histórias constantemente.”
Em Salvador, Ian citou a permanência do nome de Luís Eduardo Magalhães em espaços públicos. O aeroporto, antes associado ao Dois de Julho e à Independência da Bahia, passou a homenagear o político. Para o escritor, a troca não foi neutra: deslocou o centro da narrativa e definiu qual memória receberia visibilidade cotidiana.
Andriolli propôs um exercício simples de educação patrimonial. “Você sabe o nome da sua rua? Quem é essa pessoa? Aquela estátua por que você passa direto, quem é?” Investigar nomes anteriores, mudanças e intervenções permite perceber como as disputas de poder se materializam no trajeto entre casa, trabalho e escola.
O mesmo vale para estados e cidades. Rondônia remete ao marechal Rondon; Amazonas carrega a interpretação europeia sobre as mulheres guerreiras encontradas pelos colonizadores; Florianópolis substituiu Nossa Senhora do Desterro por uma homenagem a Floriano Peixoto. Até hoje, lembrou a mesa, há moradores que recusam o nome dado à capital catarinense.
Conhecer essas histórias pode produzir desconforto, sobretudo quando a pessoa homenageada participou de ditaduras, massacres ou processos de escravização. A saída mais comum é falar apenas das virtudes. “Você vai falar sempre das potências, dos heroísmos, das questões que tornam aquilo forte”, criticou a mesa. Ao evitar as contradições, a celebração transforma figuras complexas em heróis sem conflito.
O grupo não propôs substituir uma narrativa simples por outra. Ian lembrou que George Washington liderou a independência dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, foi proprietário de pessoas escravizadas. “Entender as complexidades é muito importante”, defendeu. O problema não está em reconhecer a ambiguidade, mas em usar a homenagem pública para naturalizar um único lado da história.
Qual é o cuscuz verdadeiro?
A conversa saiu das praças e entrou nas cozinhas por meio de outra publicação viral. Felipe Neto havia reunido 14 fotografias de cuscuz e declarado que somente uma mostrava o prato verdadeiro: o cuscuz doce, de coco e leite condensado, encontrado no Rio de Janeiro. A brincadeira levou o assunto aos temas mais comentados do Twitter.
Na live, cada participante reconheceu primeiro o cuscuz ligado à própria experiência. Apareceram o nordestino, servido com manteiga ou ovo; o paulista, preparado com molho, legumes e sardinha; e o doce carioca, semelhante a um pudim de tapioca. A variedade desmontava a busca por uma origem capaz de invalidar todas as demais.
Andriolli lembrou que o cuscuz possui uma trajetória ligada ao Norte da África e à Península Ibérica. O prato chegou ao Brasil por diferentes caminhos e foi transformado pelos ingredientes e costumes de cada região. “Não é por acaso que cada região tem o seu, mas tem o mesmo nome”, explicou.
A pergunta central apareceu no meio da brincadeira: “Por que não podem ser todos verdadeiros?”. Para a mesa, a necessidade de escolher um vencedor costuma esconder o modo como a comida se torna prova de pertencimento. Defender um prato é, muitas vezes, defender a família, a cidade e a memória de quem ensinou a prepará-lo.
Isso não significa que qualquer alteração seja irrelevante. Ian citou o chamado “acarajé de Jesus”, nome usado por grupos evangélicos para separar o bolinho de suas relações com o candomblé. “A conversa já começa ali”, observou. Mudar a designação, nesse caso, não é apenas experimentar outro recheio. Pode participar do apagamento de uma história religiosa e afro-brasileira.
Andriolli distinguiu o “verdadeiro” do modo reconhecido por uma tradição. “Comida tem jeito certo de comer”, afirmou, sem transformar esse costume numa proibição. Ao provar tacacá, ele imaginou que o prato ficaria melhor com arroz. Quando contou a ideia numa oficina, recebeu uma resposta imediata: “Arroz? Nada a ver”. Também se revoltou quando amigos sugeriram abrir a sopa paraguaia de sua família e recheá-la com carne moída.
O estranhamento mostra que receitas não são combinações abstratas de ingredientes. Elas chegam acompanhadas por gestos, ocasiões e expectativas. Ainda assim, continuam mudando. Pizza, cachorro-quente e pastel receberam no Brasil tamanhos, recheios e modos de consumo que os afastaram dos modelos encontrados em outros países. A transformação também pode se tornar tradição.
Reencantar a cidade em que se vive
Das comidas, a live passou à defesa das características regionais. A treta surge quando gostar de uma cidade, de um sotaque ou de um gênero musical exige declarar todos os outros inferiores. No extremo oposto, há quem descreva o próprio lugar como desprovido de qualquer interesse, mesmo quando reconhece seus atrativos ao apresentá-los a visitantes.
Andriolli relacionou essa indiferença ao efeito do cotidiano. Um parque próximo pode ser visitado menos vezes do que uma atração encontrada durante uma viagem, justamente porque parece estar sempre disponível. Um antigo manual de coleta folclórica alertava pesquisadores para o mesmo problema: ao perguntar o que havia de especial numa comunidade, seria comum ouvir que não havia nada. Para quem mora ali, a manifestação procurada pelo visitante era apenas parte do dia a dia.
“Ser capaz de reencantar o seu cotidiano, de olhar com outros olhos para as coisas que estão no seu entorno, é um exercício que nem todo mundo faz”, afirmou Andriolli. O trabalho de pesquisa e divulgação pode ajudar moradores a reconhecer uma festa, um maracatu, uma comida ou uma narrativa que a repetição havia tornado invisível.
Ian observou que o orgulho local muitas vezes é apresentado pela linguagem militar do patriotismo: defender a terra, sangrar pelas cores da bandeira ou tratar a nação como valor superior à vida. Neto de uma estadunidense e consumidor de cinema norte-americano, ele criticou a ideia de pertencimento transformada em obediência. “A identidade fica mais valorosa do que a humanidade”, resumiu.
Ao mesmo tempo, o escritor não abriu mão da busca por referências nacionais. “Hoje em dia consigo dizer: minha busca como escritor é a busca do ser brasileiro”, declarou. Esse encontro não se produziria pela repetição de personagens cristalizados, mas pela atenção às experiências que atravessam pessoas diferentes.
A novela apareceu como exemplo de linguagem capaz de criar reconhecimento. Frequentemente tratada pela crítica como arte simples, ela faz circular bordões, comportamentos e imagens que passam a fazer parte da vida coletiva. “O brasileiro quer se encontrar”, disse Ian. A complexidade de uma obra também pode estar na maneira como ela transforma o cotidiano em espelho compartilhado.
A rivalidade que faz parte da festa
No último bloco, Anderson levou a discussão para conflitos incorporados aos próprios festivais. Em Parintins, Garantido e Caprichoso dividem a cidade entre vermelho e azul. Há galpões que proíbem a entrada com a cor adversária, torcidas que evitam mencionar o outro boi e uma categoria de julgamento dedicada à participação da galera.
Mikael, que acompanhou o festival no Amazonas, lembrou ter visto a proibição do azul na entrada do galpão do Garantido. A disputa, porém, não é exclusividade de Parintins. Andriolli encontrou vermelho e azul em cordões de pastorinhas, maracatus e outras celebrações brasileiras. “É difícil cravar alguma coisa, mas é muito legal ver que não é só Parintins. É Brasil mesmo”, afirmou.
As rivalidades também atravessam o Carnaval. A apuração das escolas de samba transforma notas e décimos em tensão pública. Antes da institucionalização dos desfiles, cordões podiam entrar em confrontos que terminavam em mortes. Ainda assim, a festa continuava até mesmo nos cortejos fúnebres.
Andriolli recorreu a uma formulação de Luiz Antonio Simas para explicar essa persistência: “A gente não festeja porque a vida é boa. Pelo contrário: é por isso que a gente festeja”. A celebração não ignora a violência nem a precariedade. Pode ser uma forma de enfrentá-las e de sustentar a vida coletiva apesar delas.
Ian recuperou uma ideia ouvida anteriormente: “Os cortejos e as festas populares são espaços onde realmente a democracia pulsa”. Neles, o povo ocupa a rua, organiza movimentos extensos e negocia diferenças no próprio corpo da festa. Brigas existem, mas não resumem a capacidade de milhares de pessoas caminharem, cantarem e dançarem juntas.
O escritor contou que se reconhece como torcedor da Mangueira porque, ainda criança, admirava Mussum. “Eu sou Mangueira. Não tenho ninguém na minha família. Sabe por quê? Porque eu adorava um artista chamado Mussum, e ele era mangueirense.” Um vínculo criado pela televisão permaneceu por décadas e voltou a se manifestar sempre que a escola entrava na avenida.
A esculhambação também comunica
Nem toda treta festiva procura definir um vencedor. Algumas tradições organizam a provocação como forma de convivência. Andriolli citou a Serração da Velha, brincadeira em que jovens simulavam serrar o corpo de uma pessoa idosa enquanto pediam dinheiro ou presentes. Nem todos aceitavam o deboche: há relatos de penicos despejados sobre os brincantes.
No Testamento de Judas, ainda realizado em diferentes cidades, a comunidade distribui heranças imaginárias e usa cada presente para expor hábitos e defeitos conhecidos. “É quase o jogo da indireta”, definiu Andriolli. Aquilo que incomodou durante meses pode reaparecer em público como piada autorizada pela celebração.
Ian chamou esse movimento de “esculhambação festiva”. Para ele, saber rir das próprias falhas é uma medida de intimidade. “Um cara com quem eu não posso brincar, dar uma cutucadinha de leve, e que leva aquilo como se eu estivesse ofendendo anos de amizade, é um cara de quem eu vou manter distanciamento.”
O limite entre provocação e agressão, porém, nem sempre é claro. Nas redes sociais, uma ironia sobre cuscuz pode ser recebida como ataque à região. Em Parintins, a defesa de um boi pode parecer tão intensa que quem observa de fora não sabe se está diante de encenação ou ameaça verdadeira. Essa tensão faz parte do jogo, mas pode ultrapassá-lo.
Repentistas e rappers mostram outra maneira de usar o confronto. Cada verso provoca o adversário e exige uma resposta mais inventiva. O público participa, reage e aumenta a pressão. “O movimento seguinte só acontece dependendo do quanto o outro te instigou”, observou a mesa. A treta não é ruído externo à criação: é o motor que faz a performance avançar.
Ao final, o grupo não tentou eliminar os conflitos culturais. Procurou distinguir aqueles que abrem espaço para humor, reconhecimento e invenção dos que repetem preconceitos ou transformam orgulho em violência. A estátua, o prato e a torcida não possuem sentidos fixos. São pontos em torno dos quais as pessoas contam quem são e decidem que histórias desejam continuar contando.
“A gente fica preso na terra não por maldição, mas por afeto”, concluiu Andriolli ao falar das comidas que, segundo narrativas regionais, impedem visitantes de abandonar uma cidade. A frase também serve para as outras tretas da live. É porque há vínculo com ruas, receitas, festas e memórias que as disputas ganham força. O desafio é fazer desse apego uma oportunidade de conhecer o outro, e não uma justificativa para apagá-lo.
Assista à íntegra de Tretas Culturais | Live 1, no canal do FolcloreBR no YouTube.