Em março de 2023, às vésperas da estreia da segunda temporada de Cidade Invisível, o podcast Poucas Trancas recebeu o jornalista, escritor e pesquisador Andriolli Costa para uma conversa sobre folclore brasileiro. O ponto de partida foi uma pergunta aparentemente simples, mas capaz de desmontar muitas certezas: afinal, o que é folclore?
Ao longo do episódio, Andriolli mostrou que o tema não se limita ao Saci, à Mula-sem-Cabeça ou às atividades escolares de agosto. O folclore aparece nas simpatias de gravidez, nos provérbios repetidos em família, nas superstições de hospitais, nas histórias de assombração, nos rituais funerários e até nos medos que circulam pela internet.
A conversa passou ainda pela ditadura militar, pela violência de gênero escondida em narrativas tradicionais, pelas lendas urbanas, pela presença do fantástico nas grandes cidades e pelos limites de adaptações como Cidade Invisível. Em todos esses caminhos, uma ideia permaneceu: contar histórias sobre monstros, santos, fantasmas e encantados também é uma maneira de falar sobre nós mesmos.
O encontro foi publicado em 10 de março de 2023 como o episódio 76 do Poucas Trancas, dedicado ao folclore nacional. A matéria a seguir recupera os principais momentos da conversa, com trechos editados para dar mais clareza à leitura.
Muito além das lendas
Logo no começo da conversa, Andriolli questionou a ideia de que folclore seria apenas um conjunto de histórias antigas, distantes da vida cotidiana.
“Quando a gente pensa em folclore, normalmente pensa em mitos e lendas. Às vezes, pensa que é mentira. Mas a palavra vem de folk, povo, e lore, conhecimento. É o conhecimento do povo”, explicou.
Na escola, esse universo costuma ser reduzido a atividades como montar um Saci com garrafa PET, ligar pontos ou colorir o desenho da Mula-sem-Cabeça. Embora essas experiências possam servir de introdução, elas não dão conta da dimensão do fenômeno.
Para mostrar como o folclore acompanha uma pessoa durante toda a vida, Andriolli começou antes mesmo do nascimento. Ele lembrou as simpatias usadas para tentar descobrir o sexo de uma criança: o formato da barriga, o desejo da gestante por determinados alimentos ou o teste com garfo e colher escondidos sob almofadas.
“Antes de nascer, a gente já tinha contato com isso. A pessoa nem nasceu e já está sendo atravessada pelo folclore.”
O mesmo acontece na morte. Andriolli contou sobre o gurufim, tradição funerária afro-brasileira na qual a despedida pode reunir comida, bebida, música, choro e celebração da vida. Em alguns relatos, o primeiro prato e o primeiro copo são oferecidos à pessoa falecida.
“Do nascer ao morrer, a gente será atravessado por isso. E não será só por mitos e lendas.”
Uma árvore de raízes profundas
Para explicar a diversidade do campo, Andriolli apresentou a imagem de uma grande árvore. Nas raízes está a tradição, entendida não como algo imóvel, mas como o conjunto de conhecimentos transmitidos, transformados e atualizados pelas comunidades.
Dos galhos surgem os mitos e as lendas, mas também a literatura oral, as festas populares, os provérbios, as parlendas, os brinquedos, o artesanato, as danças e as práticas religiosas.
“Quando a gente fala ‘Deus ajuda quem cedo madruga’, ‘a pressa é inimiga da perfeição’ ou ‘casa de ferreiro, espeto de pau’, está recorrendo ao folclore. Quando a criança fala ‘um, dois, feijão com arroz’, também.”
A cultura material faz parte dessa árvore. É o caso das carrancas colocadas originalmente nas embarcações do rio São Francisco. Além de identificarem os barcos, essas figuras ganharam a função simbólica de afastar perigos e assombrações. Com o tempo, deixaram as proas e passaram a ocupar casas, jardins e estabelecimentos comerciais.
Também entram nessa árvore celebrações como as cavalhadas de Pirenópolis, com suas encenações de batalhas entre mouros e cristãos, seus cavaleiros e personagens mascarados.
“O folclore é tudo isso. É muito mais amplo do que aquilo que normalmente chega para a gente na escola.”
“Folclore não está lá. Está aqui”
Por que, então, uma área tão ampla acabou reduzida a algumas criaturas fantásticas e a uma data no calendário escolar?
Andriolli apresentou uma hipótese histórica. Em sua leitura, o golpe de 1964 interrompeu uma trajetória de pesquisas que aproximava o folclore das disputas políticas, das relações de classe e das formas de resistência popular. Pesquisadores como Edison Carneiro enxergavam essas manifestações como espaços de conflito, não como peças decorativas de uma identidade nacional.
Com a perseguição a intelectuais e a desarticulação de instituições, essa dimensão crítica teria perdido espaço. Restou um folclore mais facilmente convertido em símbolo patriótico, curiosidade regional ou atração turística.
“Foi sendo retirada a parte contestatória, a parte complexa, e ficou aquilo que era bonitinho, exótico e podia ser transformado em uma estética nacional.”
Essa transformação também ajudou a produzir a sensação de que o folclore pertence sempre ao outro: ao indígena, ao ribeirinho, ao morador do interior ou a alguma comunidade distante dos grandes centros.
“Folclore não está lá. Está aqui. Faz parte da minha vida e faz parte da sua. Povo somos nós.”
Hospitais, plataformas de petróleo e assombrações
O avanço tecnológico não elimina o folclore. Em muitos casos, oferece novos ambientes para que ele se manifeste.
Andriolli mencionou as superstições presentes em hospitais. Entre profissionais da saúde, por exemplo, existe a crença de que jamais se deve dizer que o plantão está tranquilo. Basta pronunciar a frase para surgirem emergências, complicações e uma noite de trabalho caótica.
Também existem histórias sobre gatos que entrariam nos quartos ou se aproximariam de pacientes prestes a morrer. São narrativas que buscam dar forma a uma experiência cotidiana cercada de medo, incerteza e perda.
Em plataformas de petróleo, ambientes dominados por tecnologia avançada, circulam histórias de fantasmas e presenças inexplicáveis. O isolamento, a escuridão do oceano e a distância de casa criam condições férteis para essas narrativas.
“O folclore não acontece porque a pessoa é ignorante ou porque não tem acesso à tecnologia. Ele acontece porque somos humanos e precisamos lidar com o medo, a esperança, a ansiedade e o desconhecido.”
Nem tudo, porém, nasce do medo. A devoção ao Negrinho do Pastoreio, lembrada na conversa, também está ligada à esperança e às promessas feitas por pessoas que desejam recuperar objetos perdidos.
“Isso é vivo. É agora. É passado, presente e futuro.”
Histórias também cumprem funções
Uma narrativa pode ajudar uma comunidade a organizar comportamentos, transmitir cuidados e alertar sobre perigos. Isso não significa que tenha sido inventada deliberadamente com essa finalidade, mas que passou a desempenhar uma função social.
Andriolli citou Jasy Jatere, personagem presente em tradições guaranis e paraguaias. Associado ao horário da sesta, ele ameaça levar crianças que saiam sozinhas enquanto os adultos descansam depois do almoço.
“Não quer dizer que alguém sentou e falou: ‘Vou criar uma história para impedir as crianças de saírem’. Mas a narrativa cumpre essa função.”
Outro exemplo é a Cuca. Nas cantigas, sua aparência nem precisa ser descrita. Basta que a criança saiba que existe uma criatura capaz de pegá-la caso não durma.
“Enquanto a música está sendo cantada, a criança está protegida. A ameaça está na própria canção, mas a canção também cria um espaço de segurança até o sono chegar.”
A relação com o Saci pode ser igualmente variada. Há histórias em que ele assusta, bate ou desorienta viajantes. Em outras, recebe oferendas de angu e cachaça nas encruzilhadas, realiza favores ou estabelece uma espécie de pacto com quem sabe respeitá-lo.
“O medo não impede a relação. Às vezes, aquilo que assusta também pode se tornar um aliado.”
Uma essência que está sempre em movimento
Os mitos não atravessam os séculos sem mudanças. Eles se transformam de acordo com os lugares, as épocas, os narradores e os meios pelos quais circulam.
Andriolli lembrou que as sereias gregas foram representadas originalmente como mulheres-pássaro. A imagem da mulher com cauda de peixe foi se consolidando por meio de encontros entre diferentes tradições e representações artísticas.
A literatura, o cinema e a televisão também interferem nesse processo. Monteiro Lobato, por exemplo, registrou uma versão da Mula-sem-Cabeça na qual a criatura seria uma rainha surpreendida enquanto devorava cadáveres. Apesar disso, as adaptações posteriores voltaram repetidamente à mulher castigada por se relacionar com um padre.
“Os mitos têm uma essência, mas é uma essência movente. Se não mudassem, não sobreviveriam.”
O problema aparece quando uma adaptação escolhe apenas os elementos mais reconhecíveis ou visualmente impactantes, abandonando os sentidos construídos pelas comunidades que narraram aquelas histórias.
“Estamos criando mulas sem cabeça todos os dias”
A Mula-sem-Cabeça permitiu que a conversa entrasse em um dos pontos mais incômodos do imaginário brasileiro: a transformação da mulher violentada, enganada ou considerada transgressora em monstro.
Nas versões mais conhecidas, a mulher é castigada por manter relações com um padre. Outras variantes falam em padrinho, padrasto ou até no próprio pai. Em muitos desses casos, a narrativa pode esconder situações de abuso, mas é a mulher quem recebe a punição.
Para Andriolli, essas histórias continuam sendo recriadas quando a sociedade responsabiliza meninas e mulheres pela violência que sofreram.
“Quando ouvimos um caso de abuso e perguntamos o que a menina estava usando, por que estava naquele lugar ou se ela não provocou, estamos criando mulas sem cabeça todos os dias.”
Olhar criticamente para uma narrativa tradicional não significa abandoná-la. Significa compreender o que ela revela sobre a sociedade que a conta.
“A história não é sobre monstros encantados. É sobre nós. Os mitos são nossos espelhos.”
O folclore como ferramenta de educação
Essa dimensão simbólica também pode ser explorada na educação. Andriolli contou o caso de uma professora que trabalhava com crianças pequenas e queria conversar sobre o combate ao mosquito da dengue.
Em vez de apresentar apenas uma explicação genérica, ela virou os pratinhos das plantas e disse às crianças que o Saci havia passado por ali. A travessura do personagem foi usada para lembrar que não se deve deixar água parada.
“A criança pode esquecer uma placa dizendo ‘preserve a natureza’, porque isso é muito genérico. Mas ela se lembra de que o Saci virou o pratinho para não deixar a água acumular.”
Para que essa aproximação funcione, é preciso encontrar mediadores capazes de relacionar o repertório tradicional com a experiência concreta dos estudantes.
“Não adianta usar o personagem só porque ele é brasileiro. É preciso entender o que ele representa e o que pode mobilizar naquela situação.”
O folclore que nasce na internet
Se o folclore acompanha as pessoas, ele também está presente nos espaços digitais. Fóruns, redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de vídeo se tornaram ambientes de criação e circulação de narrativas.
Durante o episódio, surgiram exemplos como Baleia Azul, Momo, Slender Man e Siren Head. Algumas dessas figuras começaram como histórias ficcionais ou criações artísticas, mas produziram comportamentos reais, pânicos morais, brincadeiras e desafios.
Andriolli explicou o conceito de ostensão: quando alguém transforma uma lenda em ação. Isso acontece, por exemplo, quando um grupo visita um prédio abandonado para testar se a assombração realmente existe ou quando adolescentes reproduzem um ritual narrado em uma história de terror.
As lendas urbanas brasileiras também continuam circulando. Entre elas estão a quadrilha que rouba rins e abandona vítimas em banheiras de gelo, a agulha contaminada escondida no assento do cinema, a Loira do Banheiro, a Mulher do Algodão e os veículos usados para sequestrar crianças.
Essas histórias mudam de forma conforme os medos da sociedade. A Kombi branca pode se tornar um Opala preto, um carro com palhaços ou qualquer veículo que pareça ameaçador em determinado momento.
“Folclore não é sobre estética. É sobre a gente. Essas histórias falam dos nossos medos reais, mesmo quando usam elementos fantásticos.”
Quando o público deixa de rir
As transformações sociais também alteram a maneira como as histórias são recebidas. Andriolli recordou um conto tradicional recolhido na Bahia, no qual uma mulher considerada preguiçosa é enganada e espancada pelo marido para que passe a realizar o trabalho doméstico.
Na gravação original, feita na década de 1990, a narradora ria enquanto contava. Naquele contexto, a violência aparecia como o desfecho cômico de uma história sobre a suposta esperteza masculina.
Hoje, a mesma narrativa provoca desconforto. A mudança não está apenas no conto, mas no público, que já não aceita com a mesma naturalidade a violência doméstica como motivo de riso.
“Algumas histórias deixam de ser contadas porque as pessoas param de rir. É parecido com o que acontece com certas piadas preconceituosas: sem a cumplicidade do público, elas começam a morrer.”
O que falta em Cidade Invisível
A proximidade da segunda temporada de Cidade Invisível levou a conversa para a série da Netflix. Andriolli reconheceu sua importância para ampliar o interesse pelo folclore, mas apontou problemas na maneira como alguns personagens foram adaptados.
Em sua avaliação, a produção muitas vezes privilegia a imagem de impacto e deixa em segundo plano a dimensão simbólica. O Curupira em uma cadeira de rodas é uma cena potente, por exemplo, mas a primeira temporada não explica com profundidade por que o guardião da floresta foi parar naquela situação.
O Saci aparece vivendo em uma ocupação urbana, escolha que Andriolli considerou coerente com a trajetória de um personagem negro, marginalizado e perseguido. Entretanto, ele é retratado como ingênuo e incapaz de proteger a própria carapuça.
“Se conseguisse encaixar o impactante com o sensível e o simbólico, podia ser muito melhor.”
A mudança dos personagens para o Rio de Janeiro também cria uma tensão. De um lado, existe o risco de retirar as narrativas de seus contextos regionais. Do outro, a série ajuda a enfrentar a ideia de que o folclore pertence somente ao Norte, ao Nordeste ou às comunidades rurais.
“O desafio é descentralizar sem transformar as histórias apenas em uma estética regional. O folclore não está lá. Está aqui.”
A tribuna do povo
Em outro momento, Andriolli retomou a ideia de Edison Carneiro, para quem as manifestações populares poderiam funcionar como uma “tribuna do povo”. Mesmo tradições aparentemente conservadoras podem abrir espaço para crítica, disputa e transformação.
A malhação de Judas é um exemplo. Os bonecos queimados ou espancados nem sempre representam apenas o personagem bíblico. Ao longo do tempo, receberam rostos de governantes, políticos, técnicos de futebol e outras figuras responsabilizadas pelos problemas de uma comunidade.
Os tapetes de serragem também podem assumir uma dimensão política. Em Ouro Preto, homenagens a Marielle Franco foram destruídas por agentes da Guarda Municipal em 2018 e novamente em 2019, mostrando como uma tradição religiosa e artística pode se tornar espaço de memória e conflito. O segundo episódio foi registrado pela imprensa em abril de 2019.
Andriolli lembrou ainda que manifestações como congadas e reisados preservaram memórias africanas sob condições de repressão. Ao chamarem essas práticas de “brinquedos”, comunidades negras encontraram meios de negociar sua continuidade e manter formas próprias de expressão.
“A tradição pode preservar o estado das coisas, mas também carrega a semente da mudança. Cultura popular e resistência estão na veia.”
Por que colecionar Sacis?
No final da conversa, Andriolli contou como surgiu O Colecionador de Sacis. A relação começou dentro de casa, ouvindo o pai e os avós falarem do Saci como parte de experiências vividas, não como um personagem reservado às crianças.
“Eu tive o privilégio de ter o Vô Oliveira e a Vó Marlene. Muitas pessoas não tiveram alguém para compartilhar essas histórias.”
Em 2015, Andriolli fotografou um toco de árvore coberto por orelhas-de-pau. Segundo uma tradição registrada por Monteiro Lobato, o Saci viveria 77 anos e, depois de morrer, se transformaria nesse tipo de fungo.
Ele publicou a imagem com a frase: “Esta cidade é um cemitério de Sacis”. Ninguém entendeu a referência.
“Eu pensei: como ninguém entendeu? Alguém precisa fazer as pessoas entenderem. Acho que posso ser eu.”
Nascia ali um projeto dedicado não apenas ao estudo, mas à coleta e à circulação de histórias. Colecionar Sacis tornou-se uma maneira de criar pontes entre a pesquisa acadêmica, a memória familiar, a cultura popular e as pessoas que ainda reconhecem o encantado no cotidiano.
Histórias para continuar contando
Ao encerrar o episódio, Andriolli apresentou alguns dos projetos nos quais trabalhava naquele momento. Entre eles estava um jogo de cartas produzido com dezenas de artistas, acompanhado por textos, áudios e recursos digitais. A iniciativa se transformaria no Poranduba — Cartas de Cultura, ampliando o trabalho iniciado pelo site.
A conversa com o Poucas Trancas mostra que o folclore não é um inventário de criaturas congeladas no passado. É uma linguagem usada para interpretar o medo, a violência, a esperança, o trabalho, a política, a infância, a morte e as transformações da sociedade.
“Quando a gente olha para essas histórias, precisa olhar além do fantástico e além do terrível. Precisa perguntar o que elas estão dizendo sobre nós.”
Talvez essa seja a principal tarefa de quem pesquisa, conta ou coleciona Sacis: não apenas preservar personagens, mas continuar fazendo perguntas a eles. Porque, quando uma lenda permanece viva, ela nunca fala somente sobre o monstro.
Ela fala sobre quem está contando.