[Resenha] Ouro, Fogo e Megabytes

Desde o ano passado, quOuro fogo e megabytes_frente - Copiaando comecei a frequentar oficinas literárias para estruturar o projeto do meu livro, que os colegas são unânimes em uma indicação: Felipe Castilho. Pouco depois encontrei em uma promoção os dois livros da recém concluída trilogia de Felipe, O Legado Folclórico, e os deixei bonitinhos aqui na estante. Vários motivos, no entanto, me fizeram adiar a leitura. O primeiro foi meu próprio acumulado de textos na fila de espera. O segundo foi que, ao folhear as edições, o livro me pareceu muito infantil. Eu gosto desse tipo de livro, mas não sempre. É preciso estar na vibração correta para se deixar levar pela história. E, mais do que isso, era o tema que eu tanto gostava. Admito que tive medo do autor não fazer jus às minhas expectativas.

Este ano, finalmente, resolvi dar o braço a torcer. Passei a levar o primeiro livro da série, Ouro, Fogo e Megabytes comigo para a Universidade. Como o percurso, entre ida e volta, demora cerca de duas horas, seria uma ótima companhia para passar o tempo. Foi uma boa pedida, gostei bastante da história. Tanto que ela pede uma resenha mais aprofundada e, obviamente, pessoal.

A história acompanha Anderson Coelho, um garoto comum, que divide seus dias entre a falta de traquejo social na escola e as inatas habilidades de liderança que manifesta como o elfo Shadow em um MMORPG. Certo dia, primeiro em ambiente virtual, depois no mundo físico, Anderson é convidado a se juntar a uma irreal empreitada: ele seria o “especialista em computadores” durante uma missão de resgate a uma empresa de fins escusos.

Novo Documento_1Mais tarde, Anderson descobre os detalhes: seus contratantes não eram pessoas comuns. Eram membros da Organização – uma instituição cujo objetivo é “organizar o mundo” – comandada pelo Patrão; o próprio Saci Pererê. Tal qual um Mistumassa Kido brasileiro, o Patrão recolhia jovens órfãos, os educava e treinava para que integrassem as fileiras da Organização. Com contato mínimo com tecnologias modernas, os membros viviam em um Casarão no bairro do Bexiga, em São Paulo, onde plantavam, tiravam leite da vaca e colhiam ovos. Não comiam carne, entretanto. Todo fim de semana, os jovens vão para o Centro da cidade fazer a Coleta – algo que é melhor não revelar, para evitar o spoiler.

Os membros de elite da Organização, assim como o Saci, são criaturas folclóricas. Ou ao menos compartilham parte desta estirpe. Uma das criações mais interessantes para mim foram os meio sangue: Um meio-caipora, que ao beber fica mais próximo à sua herança monstruosa, e a meio-iara, capaz de induzir pensamentos e sensações. Junto a Anderson, o grupo planeja invadir a empresa Rio Dourado para resgatar “algo que lhes pertence” das mãos do empresário Wagner Rios. Um homem cuja história se mistura com a dos mitos folclóricos. Isto posto, vamos às críticas.

Estrutura narrativa
Ourofogoemegabytes_pag23_webTalvez nem todo mundo considere isto um problema, mas em matéria de estrutura literária o que pode ser questionado é logo o começo do livro. Felipe Castilho começa com um glossário de termos rpgísticos – organicamente escrito pelo protagonista – e uma cena de batalha medieval da luta de um grupo de elfos e anões contra um dragão. A primeira cena, tecnicamente, é a que dá o tom do seu universo, e estabelece o mundo que será retratado no livro. No entanto, ainda que seja sempre referenciada, em nenhuma outra cena Anderson volta a jogar. O mundo do MMORPG é o da vivência diária do garoto, não o de “Azgorath“. Uma opção melhor teria sido abrir com uma cena da Organização num prólogo – que é o tema do livro – e depois introduzir Anderson jogando. O glossário, inclusive, se faz redundante e dispensável. Afinal, durante a própria narrativa, Anderson explica novamente os termos para seus interlocutores – inclusive as siglas.

Suspensão de descrença
É preciso muita suspensão de descrença para aceitar que um menino de 12 anos é procurado para fazer as vezes de hacker simplesmente porque era bom com jogos de computador. Durante boa parte do livro fiquei com isso na cabeça, mas esperava que houvesse uma solução mais plausível. Imaginei, por exemplo, que o sistema de segurança da empresa pudesse ser derrotado como um videogame, ou ainda que o menino criaria um servidor para o jogo no terminal da empresa, diminuindo sua capacidade operacional para as defesas. Nada disso. Há outra explicação, mas no fundo é realmente porque ele era bom no MMO mesmo, e o Patrão não tem noção.

Outro detalhe, que vem me preocupando muito nas minhas próprias histórias, é em como resolver conflitos envolvendo uma criança sem ser de forma violenta – ou com uma violência compatível com o que um garoto de 12 anos pode fazer. Em Ouro, Fogo e Megabytes, Anderson dá pauladas, mata adversários com uma facada na barriga e chega ao cúmulo de pegar dois cacetetes de seguranças para poder cair na porrada como seu elfo ambidestro. É… um pouco difícil acreditar.

Achei muito interessante os trechos em que a confiança do virtual se mistura com o mundo concreto e o protagonista tem rompantes de coragem. Agora, ver um garoto sedentário virar guerreiro simplesmente porque é um no RPG não faz sentido. Detalhe é que Anderson treina arco e flecha no período em que está na Organização. Se ele tivesse aprendido defesa pessoal, ao menos ajudaria a explicar um pouco disso.

O capitalismo como adversário
image_previewChamo atenção aqui para a diferença de duas abordagens presentes no texto: uma em favor do vegetarianismo, outra contra o capitalismo. No primeiro caso, a mensagem é muito orgânica. Pelas vivências dos personagens da Organização, o jeito como encaram o mundo, a simpatia que é criada em torno da causa geram uma suporte natural ao seu estilo de vida. Eles não comem carne, vivem em harmonia com os animais, não tiram deles mais do que precisam… Nessa sutileza, a bandeira é passada com bastante eficácia para um público infantil.

O mesmo, a meu ver, não acontece com a crítica ao capitalismo. Diálogos em que o menino de 12 anos discursa contra o “capitalismo selvagem” parecem simplesmente bobos. Palavras repetidas, sem qualquer significado. Isso fica muito claro quando Wagner Rios e Anderson Coelho conversam. Ou ainda quando o protagonista brada, à la Stalone Cobra, que “Rios é a doença, e nós somos a cura”. É constrangedor. Fosse a critica mais baseada em cenas e ações, e menos em diálogos, não seria tão embaraçoso e, para mim, deixaria a pulga certa na orelha dos leitores.

Efemérides
A última crítica é a mais pessoal de todas, e uma preocupação que trago sempre em todos os meus projetos: a incorporação de referências contemporâneas. Pensei bastante sobre isso enquanto lia, e encontrei um ponto para mim mais adequado. Quando a referência vem na fala do personagem, ela funciona. Quando vem do narrador, soa boboca.

Exemplo: quando o narrador fala que o caipora Zé tem voz do Bob Esponja, a obra como um todo fica mais infantilizada. Agora, quando Anderson grita para a Cuca “Me deixe em paz, Paquita dos infernos!”, a cena fica divertidíssima.

Temos ainda menções a Youtube e outros serviços reais. Me parece preocupante. Não é simplesmente questão de gosto, mas uma preocupação com a durabilidade da obra. Vai saber se daqui 5, 10 anos, aquilo ainda fará sentido. Harry Potter acerta, por exemplo, ao não fazer referências tecnológicas. Isso não data a obra, ela permanecerá atual pelo tempo que for.

Funciona, no entanto, quando Felipe cria seu mundo de Asgorath. Isso porque o software não existe, mas é uma mistura imaginada de vários outros jogos que funcionam muito bem na descrição.

Em resumo

A obra funciona para o público que procura. Para aqueles com mais referências literárias, é preciso um pouco de boa vontade, mas ainda vai. Ela tem seus erros, mas é um fantástico exercício criativo. Ah, e o Saci estilo Professor Xavier ficou bem bacana, com uma origem inovadora para o mito. Fico feliz de a obra estar tendo a repercussão que merece. Recomendo: 4/5

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