[Resenha] Lobisomem versus Saci

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Como pesquisador de folclore e pretenso escritor que trabalha diariamente na finalização de um original, fico duplamente ofendido quando encontro literatura de péssima qualidade envolvendo cultura popular.

Ocorre, como lembra o amigo Vilson Gonçalves, que aqueles que se interessam por essa temática não tem margem de erro. O mercado ainda é bastante reticente quanto a livros que falam de monstros locais – como cucas e curupiras – ao invés de tratar da centésima versão do mito de vampiros ou fantasmas. Trabalhos ruins, ou muito ruins, só reforçam essa imagem negativa que quem procura realizar um trabalho mais sério vai precisar se esforçar em dobro para romper.

Um desses textos ofensivos é Lobiomem versus Saci, de Henrique Louis Ferreira. Comprei o conto na Amazon, por cerca de R$ 10, e me arrependi imensamente. Tudo está errado nessa história, a começar pelo início. Não temos um conto, mas um preâmbulo. Um amalgama de descrições encontradas na internet sobre os mitos do saci e do lobisomem, de forma absolutamente informativa e descolada da narrativa. Só depois de várias páginas genéricas assim é que a história começa de verdade, e o que era ruim consegue ficar ainda pior.

A história acompanha dois personagens, o Lobisomem Bisomem (é…) e o Saci Sacirillo. O primeiro tenta quebrar sua maldição lupina cultivando, por meio de transgenia e produtos químicos “de dar inveja à Monsanto”, o antigo Maracujá Negro. Sacirillo, por outro lado, também dá umas de cientista maluco, sem propósito algum. Seu grande objetivo é apenas passar o fim de semana “muito louco”, fumando a erva de seu cachimbo. Mais a frente, os dois acabam se bicando quando Sacirillo urina nos maracujás do licantropo.

Poderia ser uma história divertida, mas também para fazer comédia é preciso talento. Coisa que não há. O narrador mistura passado e presente na conjugação verbal o tempo todo, denotando pouca qualidade literária. Em meio a cenas sem pé nem cabeça, descrições pobres e efemeridades (como o Saci que faz Rá, “como o Sérgio Malandro”), o autor comete grosserias de deixar o cabelo em pé.

O pior momento é quando os “Guaranis” da Amazônia (!) davam o maracujá negro às preguiças gigantes em tempos ancestrais. Como elas gostavam muito da fruta, alguns achavam que aquilo só podia ser “macumba”, ou ainda “coisa do demônio”. Lamentável. Anacronismo, a gente vê por aqui.

Dei 1 de 5 na Amazon, mas a vontade mesmo era dar zero. Veja esse trechinho abaixo e tenha uma ideia do que estou falando:

 

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Leia essa atrocidade aqui.

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2 Respostas para “[Resenha] Lobisomem versus Saci

  1. Pingback: 10 problemas de quem escreve ficção folclórica no Brasil | Colecionador de Sacis·

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