Após mapinguari gigante, artesão faz Iara e Curupira no jardim de casa

Jardim da casa do Enock (Foto: Tácita Muniz/G1)

Jardim da casa do Enock (Foto: Tácita Muniz/G1)

Autora: Tácita Muniz – G1 AC
Pubicado em 05/09/2014

Cultivar e incentivar o imaginário social é o que o professor de artes, Enock Tavares, de 64 anos, resolveu transmitir através de suas obras no jardim da sua casa. Do monstro mapinguari à sereia Iara, o quintal do professor expressa, de forma divertida, as lendas amazônicas. O local conhecido como “A Casa do Mapinguari” chama a atenção de quem passa pela Vila Custódio Freire, na BR-364, em Rio Branco. Formado em artes pela Universidade Federal do Pará (UFPA), o professor que nasceu em Belém, está no Acre há sete anos e defende a conservação das lendas da região Norte.

O artesão conta que aprendeu as histórias com os moradores de Belém (PA), cidade onde morava quando adolescente. Ele diz que desde pequeno rabiscava esboços do que futuramente tinha a intenção de esculpir. E foi isso que Enock fez. Na entrada da sua casa, já é possível se deparar com um dos protagonistas dessas lendas: um mapinguari de 5 metros.

“Eu sempre fui muito ligado à história da Amazônia, principalmente nas lendas. Porque eu morei em um local próximo à floresta e alguns moradores indígenas, pescadores e seringueiros contavam essas histórias para a gente. E eu, já com 14 anos, rabiscava como eu pensava ser essas criaturas. Eu fui crescendo com a vontade de tornar essas imagens em tamanhos reais para que pudessem servir de lazer e conhecimento também”, destaca.

Os personagens, por vezes, ganham um aspecto exagerado na anatomia de alguns membros, como os braços e pernas. O motivo é simples: quem visita a casa sempre quer tirar a foto com um desses personagens que são repassados de geração em geração. Ou quem nunca ouviu a história do boto rosa, que sai do rio à noite para encantar as moças, ou da Iara, uma linda mulher que encanta os homens com a sua voz?

Enock mostra as novas esculturas que fez no jardim de casa (Foto: Tácita Muniz/G1)

Enock mostra as novas esculturas que fez no jardim de casa (Foto: Tácita Muniz/G1)

“O público que mais tem visitado o espaço é feito de alunos. Os colégios trazem as crianças para conhecerem os personagens, por horas, eles ficam aqui, sobem em cada personagem, escutam as lendas de cada um deles. É por isso que a grossura dos braços parece exagerada, é porque como é feita de cimento e ferro, não posso fazer muito fino porque pode quebrar com mais facilidade”, explica.

As esculturas têm como matéria-prima o cimento, a brita, ferro e arame recozido. Todas retratam personagens amazônicos, exceto o saci, que nasceu no sul do país, mas é lembrado por Enock por representar os negros.

A altura varia, a maior é a do mapinguari, de 5 metros. O prazo para a finalização de cada escultura é de três dias. Questionado sobre seu trabalho e o fato de não cobrar nada pelas visitações, Enock diz que a intenção é disseminar cada vez mais essas histórias para que elas continuem habitando o imaginário das pessoas. “Eu sou professor de artes, preservo essas lendas. Não podemos deixar morrer”, pontua.

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Saci, da região Sul, também está entre as lendas típicas do Norte (Foto: Tácita Muniz/G1)

“Tem gente que vira o rosto e pensa que é macumba”
Apesar dos personagens do jardim da casa de Enock serem velhos conhecidos da região Norte, ele garante que ainda sofre com o preconceito de algumas pessoas que não conhecem o seu trabalho.

“Apesar de serem lendas da nossa região, as pessoas confundem. Tem gente que passa por aqui e vira o rosto com medo, dizem que é macumba. Não podemos confundir, existe religião, seitas e lendas. Lendas surgem nas nossas raízes culturais e o que faço é apenas para preservar a nossa história”, destaca.

O espaço é aberto para visitação e não é preciso pagar nada. O artista deixa uma espécie caixa para quem quiser contribuir, mas não é obrigatório. O plano do artesão é que em breve ele consiga fazer um trabalho voluntário no qual possa ensinar arte gratuitamente para as crianças.

Conheça alguns personagens das lendas retratados por Enock:
Curupira – Personagem do Folclore Brasileiro. Diz a lenda que ele é um menino ruivo e de pés ao avesso. Ele é responsável por ser o protetor da floresta e com os pés contrários engana aqueles que querem destruir a floresta, principalmente madeireiros.

Mapinguari – Um gigante peludo com o olho na testa e pele semelhante a de jacaré. A lenda diz que ele vive na floresta e ataca caçadores, muitos alegam já terem visto a criatura por perto.

Matita Perera – A lenda diz que é uma velha que à noite se transforma em um pássaro que pousa sobre os muros e telhados das casas e se põe a assobiar, e só para quando o morador lhe promete algo. Pela manhã, a velha volta para pegar o que foi combinado, caso não seja cumprido, uma desgraça acontece.

Boto – O Boto rosa é considerado muito fértil e leva as moças para engravidá-las. A lenda diz que em festas populares, as mães são alertadas para que cuidem de suas filhas, fazendo com que não acreditem nos rapazes que se aproximam querendo namorar, pois pode ser o Boto Rosa disfarçado de homem.

Iara – Segundo a lenda, é uma bela sereia que com seu canto consegue levar os homens para o fundo do rio. Os índios acreditam tanto na Iara que evitam passar por rios durante o entardecer.

Vitória Régia – Diz a lenda que a lua era um deus que escolhia moças para levar consigo durante a noite. Naiá era uma índia apaixonada pela lua, deixando de beber água e comer para admirar o Deus. Um dia, ao ver o reflexo da lua em meio ao rio, a índia se atirou pensando que o Deus havia descido, ao perceber o engano não conseguiu se salvar. Dizem que a lua comovida a transformou em uma estrela das águas, a Vitória Régia; por isso as flores brancas e perfumadas só abrem durante a noite.

Cobra Norato – A lenda diz que uma cabocla de nome Zelina deu à luz um casal de gêmeos: Norato e Maria Caninana, duas cobras. Norato matou Caninana, pois ela vivia fazendo o mau. Para quebrar o encanto, deveria chegar ao corpo adormecido da serpente, pôr um pouco de leite na sua boca e ferir-lhe a cabeça, de forma que sangrasse. O jovem ficou humano.

Saci – Lenda da região Sul. O saci possui apenas uma perna, usa um gorro vermelho e sempre está com um cachimbo na boca. Se diverte com travessuras, brincando com animais na floresta.

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