[Clipping] Morte misteriosa inspirou lenda da ‘Loira do Banheiro’ em Guaratinguetá

Figura folclórica seria Maria Augusta de Oliveira, morta no século XIX

Publicado por G1
Em 30/10/2015

Quando alguma coisa dá errado na escola estadual Conselheiro Rodrigues Alves, em Guaratinguetá (SP), a explicação vem em tom divertido: “Maria Augusta está brincando”. Os funcionários e alunos se referem a Maria Augusta de Oliveira. A jovem morreu aos 26 anos, em 1891, quando o colégio ainda era uma mansão no interior de São Paulo. Após a morte, cercada de mistério, diz a lenda que Maria nunca descansou. Essa história é uma das versões mais famosas sobre o surgimento da “Loira do Banheiro”.

Segundo a lenda urbana, a loira aparece quando uma pessoa bate a porta do banheiro, chuta o vaso sanitário, dá uma descarga e fala um ‘palavrão’. A quantidade de vezes varia de acordo com o local e como a lenda foi passada.

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Espaço no Cemitério dos Passos onde está corpo de Maria Augusta (Foto: Filipe Rodrigues/G1)

A versão contada em Guaratinguetá sobre a “Loira” é de que ela foi forçada pelo pai, o Visconde de Guaratinguetá, a casar aos 14 anos com um homem influente da cidade. Pouco tempo depois, no entanto, fugiu. Vendeu suas joias e foi para Paris com apenas 18 anos. Na Europa, usou sua fortuna para frequentar bailes da alta sociedade.

O corpo de Maria Augusta voltou ao Brasil apenas após sua morte, cujas causas são desconhecidas. À época, uma das empregadas do casarão onde ela morou no Brasil afirmou ter visto o espelho do local se quebrar assim que a jovem faleceu.

No navio na volta ao Brasil, o caixão onde o corpo de Maria Augusta estava foi violado. Ladrões queriam as joias, que estavam junto ao corpo. Com isso, perdeu-se seu atestado de óbito.

“Ninguém sabe do que ela morreu até hoje. Chegando aqui, ficou na casa [hoje a escola estadual Conselheiro Rodrigues Alves] em uma redoma de vidro, onde as pessoas diziam que tinham visto ela pedindo para sair da redoma, que ela não podia ficar lá. O corpo ficou na redoma enquanto faziam o túmulo dela no Cemitério dos Passos em Guaratinguetá. Por isso nasceu a lenda. De que ela saiu da redoma e desde então anda pela casa”, disse Liane Pellegrine, professora da sala de leitura da escola Conselheiro Rodrigues Alves.

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Corpo está enterrado em mausoléu no Cemitério dos Passos, Guará (Foto: Filipe Rodrigues/G1)

Uma das versões para a morte de Maria Augusta é a hidrofobia (raiva), que ainda acontecia na Europa naquela época e tinha como um dos sintomas a desidratação. “Como diziam ver ela andando pedindo para ser enterrada, quando ouviam um barulho estranho no banheiro, começaram a dizer que era ela indo às torneiras para tomar água”, diz Gilberto Borges, diretor independente que está produzindo um filme sobre a lenda da Loira do Banheiro.

Em 1902, a mansão do Visconde de Guará se transformou em uma escola. Em 1916, a lenda ganhou força quando a escola pegou fogo de forma misteriosa. O prédio teve de ser reconstruído. Mas a lenda seguiu viva. Na escola, são atribuídos a ela barulhos estranhos ouvidos. Nos primeiros anos, houve relatos de alunos que viam a torneira abrindo mesmo com o banheiro vazio.

“Falam sobre chutar o vaso sanitário, que ela aparece nos espelhos. Mas isso já é uma adaptação que ela ganhou da Blood Mary (lenda americana) com os anos. Essa lenda diz que se falar o nome dela três vezes no espelho, ela aparece. Isso já é uma adaptação. Veio conforme a história se espalhou pelo Brasil. O original é que ela abre as torneiras para beber água porque está sempre com sede”, disse Gilberto.

Curiosidade na escola
Qualquer aluno ou funcionário da Escola Estadual Conselheiro Rodrigues Alves sabe responder de pronto quem é Maria Augusta. Na revista comemorativa dos 90 anos do colégio, publicada em 1992, um capítulo especial é dedicado a ela. A revista também traz uma carta escrita pelo historiador Carlos Eugênio Marcondes de Moura, parente distante de Maria Augusta, contando sobre a vida e os fatos sobrenaturais que envolvem a jovem.

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Um dos banheiros da escola estadual Conselheiro Rodrigues Alves (Foto: Filipe Rodrigues/G1)

Exemplares da revista estão disponíveis na biblioteca. A publicação é uma das principais fontes de pesquisa para quem quer saber mais sobre o tema, como Daniel Vieira, que ouviu sobre a lenda antes de começar a trabalhar na Escola Estadual. “O mito é o que me fascina e me deixa curioso para pesquisar cada dia mais. Nunca haverá uma resposta definitiva. Quando comecei a trabalhar aqui, achei que era um tabu. Mas um dia a luz falhou em uma visita e a vice-diretora falou: ‘Ó a Maria Augusta brincando’. Foi aí que descobri que o pessoal gostava da história também”, disse Daniel Vieira, agente de organização escolar e funcionário do colégio há quatro anos.

Filme sobre a lenda
As gravações estão apenas começando. Mas em breve, a vida de Maria Augusta deve ganhar as telas. Uma produtora independente de Guaratinguetá começou a fazer um filme sobre a história da “loira do banheiro”. A ideia era apenas usar o “fantasma” em cena de um filme de humor da produtora.

Mas durante uma gravação no cemitério, a repercussão foi tão boa que a ideia foi de fazer algo maior. “As gravações são apenas com atores amadores. Eu ia ser um fantasma e cheguei com um aplique loiro gigante, toda vestida de branco. Na hora, todos falaram “loira do banheiro”. Foi no cemitério de madrugada, e as pessoas paravam para tirar foto, outras tinham medo, achando que realmente a Maria Augusta saiu para passear”, brinca Vanessa Oliveira, que também é cantora.

Um outro filme, também independente, sobre o tema é “Catarina – A Lenda da Loira do Banheiro”. Nele, uma estudante tenta vencer um trauma ao fazer um documentário sobre a história de Maria Augusta.

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