No País do Saci

a1

No País do Saci, de Beatrice Tanaka, foi escrito e publicado pela primeira vez em 1973 no idioma francês. Quem acha estranho tamanha mistura cultural, não sabe da missa a metade. Nascida em 1932, na cidade de Cernauti, Romênia (hoje Ucrânia), Beatrice fugiu durante a Guerra para a Palestina para depois emigrar, em 1947, para o Brasil. O nome oriental vem do casamento com o pintor brasileiro de origem japonesa Flavio-Shiró Tanaka.

A ideia do livro, conta ela, surgiu ao escutar as histórias das negras que frequentavam sua casa – a cozinheira de seus pais, bem como as babás de seus filhos. Apenas anos mais tarde percebeu que aqueles contos populares compartilhavam todos a origem africana. Foi Jorge Amado quem a encorajou a escrevê-los em francês.

O texto de abertura, de Lise Bourquin Mercadé, compartilha uma informação interessante. “Na tradição Vodu do Haiti – análoga ao candomblé – também se conhece um anão feiticeiro que vive nas árvores e vira o mundo numa perna só”. E é assim, com toda essa mistura, que o livro apresenta primeiro a um público estrangeiro, e depois a nós mesmos, as grandes narrativas. Reproduzimos abaixo o trecho sobre o saci.

O Saci

Há quem diz que o Saci nasce dos gomos do taquaruçu, derrubados pela ventania nas noites de tempestade. Outros acreditam que ele é filho do Curupira, o Espírito da Floresta, cujos pés estão virados para trás. Mas o Curupira cavalga num porco do mato ou num grande jabuti, enquanto o Saci só monta nos mais bonitos cavalos. Nas noites sem lua, quando o cavalo passa por baixo duma árvore, o Saci lhe pula no lombo e o põe a correr, agarrado na sua crina, que vai amarrando em mil nós complicados; na manhã seguinte, os vaqueiros terão a maior dificuldade para desfazê-los…

O Saci tem somente uma perna, com a qual saltita pelo mundo afora, como numa gigantesca amarelinha. Se não fosse aquela única perna, a gene poderia confundi-lo com um negrinho brincalhão que apanhara um gorro vermelho no varal e roubara o cachimbo de seu avô, que fuma sem parar; e quando o fumo se apaga, fica esperando um viajante, lhe pede mui educadamente um foguinho… e lhe sopra as cinzas na cara.

Quando fica com sede, o Saci entra às escondidas numa cozinha onde vê leite fervendo, bebe tanto quanto pode e entorna o resto. Então a cozinheira se zanga, grita, xinga e o pequeno malas-artes ri até perder o fôlego, pois adora palavrões. E é ele também quem esconde os objetos mais diversos na casa, ele quem faz os viajantes perderem o caminho…

O Saci não faz tudo isso por maldade, mas porque gosta muito de reinações. E gosta ainda mais de crianças: de fato, gosta tanto delas que jamais lhe pregou uma peça. É para diverti-las que ele começa a rodopiar na sua perninha como se fosse a ponta de um pião, rápido, mais e mais rápido, até ficar invisível!

Quanto aos adultos – sobretudo os que vivem na cidade – eles fingem desconhecer o Saci e não temer as suas artes.
— Besteira e superstição – dizem. —Este tal de Saci é somente um redemoinho de poeira.

Está bem… É um redemoinho. Mas é o Saci que o faz, é o Saci que está rodopiando no seu centro. Prova isso o fato de que é possível agarrar o Saci quando o redemoinho vira rapidíssimo: basta aprisioná-lo numa velha peneira de palha, daquelas que têm uma cruz trançada no meio. Então a gente passa a mão por baixo da peneira, arrancando o gorro vermelho da cabecinha do Saci: e o capetinha fará tudo o que lhe pedirmos para recuperar o seu gorro.

a2.jpg

Ele nos levará pelos ares até as mais distantes estrelas. Ele nos fará escutar o canto do uirapuru e a voz cativante da Iara, a sereia dos rios silvestres. Ele nos mostrará os tesouros escondidos no coração das rochas ou as grutas de cristal no fundo do mar.

Um dia, um homem conseguiu pegar o Saci e lhe pediu um palácio de ouro em troca do gorro. No mesmo instante viu torres e muralhas, árvores, cúpulas e portões dourados e cintilantes surgirem à frente. Mas o matuto, deslumbrado por tanta riqueza, esqueceu-se de benzer o presente maravilhoso e, tendo recuperado o seu gorrinho, o Saci sumiu com tudo o que acabara de criar.

Noutra vez, umas crianças apanharam o Saci. Não lhe pediram nada, mas também não lhe devolveram o gorro: achavam que ele era um companheiro engraçado demais para deixá-lo partir!

Os seus pais discordavam: porque, se já era difícil ficar de olho nas brincadeiras dos filhos antes da chegada do capeta, ficara impossível controlá-las depois de ele entrar na família. Em pouco tempo, todas as crianças do bairro estavam se divertindo no seu quintal; e entre os gritos alegres da meninada e as queixas dos vizinhos, a vida dos pais virou um inferno. Desesperados, eles acabaram furtando o gorro escondido pelos filhos e o devolveram ao seu legítimo proprietário, esperando que ele fosse logo embora.

O Saci enfiou a cabecinha no gorro, agradeceu com uma bonita reverência e… ficou na casa, dizendo que não queria entristecer seus amiguinhos abandonando-os. Mas a verdade é que ele estava feliz demais na sua companhia.

Não sabendo mais como se livrar do malandrinho, os pais decidiram mudar-se para uma cidade distante. Escolheram a hora na qual o Saci costuma dormir no seu esconderijo e esperaram até a última hora para avisar os meninos da mudança.

Quando o Saci acordou, a casa estava vazia: ele só achou uma velha esteira, tão rasgada que fora deixada no chão. Mas como ela tinha ouvido o endereço que os pais deram para o motorista do caminhão, o Saci a pôs na cabeça e foi correndo para a cidade.

Na hora mais quente daquele dia, um lavrador observou um negrinho alegre, de cachimbo na boca e esteira na cabeça que avançava com uma perna só. O homem não acreditava no que via: não podia ser um Saci, pois nunca se ouviu falar de um Saci que aparecesse no início da tarde!
— Onde vai, menino? – perguntou.
— Para a casa dos meus amigos. Eles mudaram, esquecendo esta sua esteira, e eu gosto demais deles. Não quero que nada lhes falte!

De noitinha, ao voltar do seu serviço, o nosso homem reparou novamente no negrinho com a esteira, mas que pulava agora na direção oposta.
— Você não encontrou os seus amigos? – perguntou o lavrador.
— Encontrei sim… Só que os coitados enlouqueceram! Moram agora numa encruzilhada, dentro duma montanha feita de casas empilhadas, perto duma torre três vezes mais alta que a torre da igreja da aldeia! E em torno desta nova moradia correm bichos estranhos com patas redondas, com olhos brancos em frente e olhinhos vermelhos atrás, que latem como dez cachorros e fedem como doze gambás. O sino da torre toca a cada hora, e nos arredores tudo assobia e ronca e rfange e berra… Não, aquilo não é lugar para capetinha ficar! Vou voltando para a roça, o mato e os morros!

O Saci estava zangado. Ofendido. Infeliz. Ele se sentia expulso, e de fato o era. Então ele foi embora e se refugiou no interior. Lá, ele se balança nas velhas pontes, assustando os raros viajantes com seus gritos as suas caretas, e os faz tropeçar ou cair. Ele vira fogo-fátuo nos pântanos, para os garimpeiros se perderem ao seguirem a luzinha do seu cachimbo. Ele se esconde na folhagem das mangueiras e joga frutas maduras na cabeça dos que passam…

Mas as crianças da cidade não encontram mais Saci nenhum para brincar.

TANAKA, Beatrice. No País do Saci: Contos afro-brasileiros. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s