É possível plagiar o folclore?

Guardiões da Floresta

Guardiões da Floresta para PC, feito pelo grupo da Bahia com financiamento

Ontem tive vários acessos no Colecionador de Sacis. Infelizmente eles não se devem a qualidade de alguma matéria ou entrevista que eu tenha feito, mas a uma polêmica sem sentido que de repente me vi envolvido. Na semana passada, fiz um post divulgando um jogo bem mais ou menos que encontrei no Google Play, chamado Guardiões da Floresta que venceu um campeonato de criação de games em um evento da Universidade Federal de Uberlândia.

Fato é que já existia um jogo para PC chamado Guardiões da Floresta, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual da Bahia, com financiamento do CNPq. Então, uma das envolvidas na produção – descobrindo o game a partir do meu post – começou a fazer acusações de plágio contra o primeiro game.

No game, você controla ou um lobisomem ou a Iara, e precisam resolver “enigmas” na forma de minigames para derrotar os madeireiros que atacam a mata. O jogo da Bahia é educacional, com uma outra proposta e jogabilidade. A movimentação, para vocês verem, é estilo tanque (aquela em que você tem que usar as setas para girar o personagem e a direcional para frente para andar). As animações de movimento também são igualmente pobres, e os sprites dos personagens são redimensionados para os minigames, e ficam bem pixelados.

game2

Game do grupo de Minas Gerais, feito de maneira independente. Tem algo a ver?

Já no game para Android e PC do pessoal de Uberlândia, você controla ou o saci ou o curupira, em um jogo estilo plataforma. O objetivo é desviar dos caçadores até encontrar o artefato de poder de cada fase (a carapuça do saci ou o porco do mato do curupira) e, enfim, derrotar os adversários. Qualquer um com um mínimo de noção de videogame vê que um jogo não tem nada a ver com o outro além do nome, e foi o que eu disse a professora, que me chamou no inbox pedindo ajuda.

Quanto a plágio, eu diria para não se preocupar. A proposta do outro jogo é puramente mecânica, então a história (por si só bastante genérica) dos mitos protegendo a mata dos caçadores fica apenas no plano de fundo. Nem é mencionada direito no game, só na descrição na loja de aplicativos. Os personagens também são outros (lobisomem/iara, saci/curupira), mas como a fonte é o mesmo folclore, ainda que se repetissem não seria nada extraordinário. Por fim, a jogabilidade de ambos é completamente diferente.

De nada adiantou. Logo ela fez mil posts em seu Facebook pessoal e nas comunidades virtais de que participa, recebendo muito apoio dos grupos acadêmicos. Saiu até matéria, citando meu nome e a conversa que tivemos. Falam em procurar seus direitos, acionar justiça, denunciar… Mas pelo quê? Pelo nome, talvez, mas certamente uma conversa bastaria de início.

Já vimos que um jogo não tem nada a ver com o outro, e que a história é absolutamente genérica. Se o Curupira, na cultura popular, é descrito desde o século XVI como um protetor da mata, que açoita os caçadores, é realmente muito difícil pensar em um jogo com a plot dos dois Guardiões? É preciso realmente ter tido contato com o game educacional antes para ter essa brilhante ideia? Ou basta ser brasileiro e ter ouvido as milhões de narrativas sobre o mesmo tema?

folk

Em verdade, a ideia que realmente me preocupa não é nem a de acusar alguém por plágio por beber da mesma fonte – as narrativas orais – mas sim a de alguém achar que possui propriedade intelectual sobre algo que é de fundo coletivo. O folclore só pertence ao povo, e a ele recorremos por vezes de maneira inconsciente. Não possuímos o folclore, ele nos possui.

Peço desculpas aos garotos de Uberlândia pela confusão.

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2 Respostas para “É possível plagiar o folclore?

    • Claro, Marcos, pois os jogos tem como fonte as histórias de curupira protegendo a natureza que há séculos são contas e recontadas no nosso folclore. Ninguém precisa ter visto um jogo para pensar no outro.

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