Depoimento: Sacizal dos Pererês

 

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Júlio Neves, diretor do Sacizal dos Pererês

Quando decidi escrever um perfil de nosso duende favorito em “Saci Pererê está deprimido“, trazendo as ligações mais do que contemporâneas entre saci, democracia e liberdade, procurei vários companheiros saciólogos que pudessem compartilhar conosco sua visão. O texto já foi publicado, mas com muita satisfação recebi agora a instigante mensagem de Julio Neves de Carvalho.

Julio é diretor da ONG Sacizal dos Pererês, de Brasília. Eles fazem um trabalho maravilhoso de promover o encantamento por meio da organização de festas do saci e da distribuição gratuita do Calendário do Saci – trabalhando a cada ano com mitos e lendas diferentes para cada mês. Nesses tempos sombrios, o Sacizal se tornou asilo cultural para todo tipo de mito brasileiro que tenta escapar dos capitães do mato do feitor Michel Temer.

Confira abaixo na íntegra a sua mensagem:

Por Júlio Neves de Carvalho

Sobre suas indagações, tive a preocupação de andar um pouco, percorrendo as trilhas do Sacizal, ouvindo o que os ‘meninos’ da mata, tinham a dizer sobre tudo o que tem acontecido no nosso querido e sagrado Pindorama.

Alguns deles, eu vi escondidos em meio a bambuzais ressecados, com medo de tudo o que de ‘humano’ se movia na floresta. Tinham no olhar, a certeza de sua extinção. Não porque fossem visíveis, mas pela derrubada desenfreada que o homem anda fazendo em seu habitat.

Outros mais corajosos, tagarelavam indignados com o fato de serem sempre escolhidos para o papel de bodes expiatórios das mazelas praticadas nas urbes desassistidas. Me lembrou um, que os primeiros ambientes atacados pelos golpistas de 64, foram os CPC – Centros Populares de Cultura, criados pela UNE.

Naquela época todos os personagens míticos de nossa identidade cultural, foram castigados por subverterem a ordem da lógica social das elites brasileiras.
Com o desaparecimento dos CPC, nada que pudesse dar formato à nossa história popular pode ser desenvolvido nas escolas.

Um dos Sacis que ouvi, dizia que apenas na democracia é possível sobreviver, mesmo com todos os ataques as florestas, seu território e habitat natural. Me lembrou que na época da escravidão, ele acompanhava alguns escravos ajudando-os a colocarem fogo nas estrebarias, amarrando tochas nos rabos e crinas dos cavalos. Os cavalos fugiam e, assim, davam prejuízos aos Senhores de Engenho, que os tinham como seus bens mais preciosos, semelhante aos ricaços de hoje que possuem Ferraris, Lamborghines, Porches e outros automóveis de grife. Lembrou que os escravos colocavam toda a culpa nos sacis, se eximindo de quaisquer responsabilidades.

Da época da Ditadura, me falou que, por causa da ausência de espaço para se manifestar nas escolas, ele se escondia na zona rural onde, em pequenos grupos, se fazia valorizar com historias contadas pelos matutos. Mas começou a ficar preocupado, quando começou a ser perseguido por vários “pastores” Evangélicos que o identificavam com o Satanás, fazendo com isso, que os matutos ingênuos os desprezassem, não respeitando sua longa história nos territórios de Pindorama.

Solenemente, me pediu asilo cultural no Sacizal dos Pererês para vários amigos que temem desaparecer no meio da desordem estabelecida nas Instituições Brasileiras. Falei a ele que o Andriolli, apesar de abrigar muitos sacis em sua coleção, também se dispunha a acolher mais criaturas míticas, durante o tempo que fosse possível, resistindo ao desmonte da nossa identidade cultural, perpetrado pelos capitães do mato do Temer e outros golpistas.

Me contou que ele e seus amigos das florestas, só conseguem sobreviver em uma democracia, com liberdade para existir plenamente, pois eles, tanto quanto a democracia, foram criados pelo povo, com o povo e para o povo.

sacizal

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