[Poesia] Saci-Pererê – Ulysses de Souza e Silva

Saci 3

Horas da ave-maria
E dizem que a velha estrada,
Muda, deserta, sombria
É muito mal-assombrada

Apenas a voz do rio
Turba o silêncio noturno –
– Com seu longínquo e sombrio
Cantochão de água – soturno.

Pelas grotas, de ermo em ermo,
Lá vão as águas, lá vão…
Sob esse silêncio enfermo –
Nesse triste cantochão…

Velhas árvores paradas –
Como que estão modorrando –
– Nos barrancos das estradas
Ou como que meditando.

E tosca cruzinha preta,
Surge, às vezes, dos barrancos,
Por onde o luar projeta
Estranhos fantasmas brancos…

E peja-se toda a terra
Do aroma dos vegetais-
– Sob o pálio, que descerra,
O luar – de seus cristais.

Longe, no meio dum campo,
Um velho rancho isolado –
Ergue para o céu escampo
Um lume, triste e magoado.

E, da cerca do terreiro,
Um velho galo anuncia
Com seu canto alviçareiro,
Aos ermos, o fim do dia.

Às vezes, de longe em longe,
Passa um soluço no ar;
É o urutau – velho monge
Do ermo – rezando ao luar.

Lá, por longe, a voz do vento
Ulula pelas taquaras
E solta um gemido lento
Passando pelas coivaras.

Não há ninguém que se afoite
Por essa deserta estrada –
Em horas altas da noite
De medo d’alma penada.

E passam almas vestidas
De branco e vão se casar
Nas silenciosas ermidas –
Feitas do branco luar…

Que estranho assobio é esse
Que as sombras da noite corta?
E o caminhante estremece
Nos ermos da noite morta…
De folhas secas – em frente
Um montículo farfalha –
Surge um vulto, de repente
Daquele monte de palha…

Sexta-Feira da Paixão!…
Corre o corpo em calafrio…
E estruge, na solidão –
Aquele estranho assobio…

Olhos de brasa, pretinho
De carapuça vermelha –
Uma só perna, um negrinho
Saltita – na estrada velha.

E vivo, esperto, na estrada,
Assobia, guincha, pula,
Solta a estranha gargalhada
Que dói até na medula…

Puxe, depressa, o “bentinho” –
Caminheiro – pois não vê
Que esse maldito negrinho
É o Saci-Pererê?

Tire o cachimbo da boca,
Pelos ermos – não se afoite,
Deixe a pretensão tão louca
Que o faz andar nesta noite.

A noite é santa. Os velhinhos
ensinam que não se saia –
Que o saci – pelos caminhos,
Guarda a flor da samambaia.

Ao clarão da lua cheia,
Quanta vez, na velha estrada
Para alguém de minha aldeia,
Passei por alma penada.

E minha alma, a luz da lua,
Resvalava pelo espaço –
Doida por se unir à tua –
Num leve e místico abraço.

E minha alma que vivia
A sonhar em ser feliz –
Em seu sonho sempre via
Um lindo par de sacis.

Eram nada mais, nem menos,
Que esses teus olhos, Maria,
Espertos, vivos, pequenos,
Doces sacis de alegria.

E, minha alma, ansiosa e louca,
Pelos ermos a sonhar –
Era a flor da tua boca
Que ela andava a procurar.

(Em LOBATO, Monteiro. O saci-pererê; resultado de um inquérito. Edição fac-similar. Rio de Janeiro, Gráfica JB, 1998)

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