A Volta do Rei dos Sacis

Izak Dahora, que interpretou o Saci no Sítio do Picapau Amarelo retorna ao duende brasileiro como escritor no conto “O Rei dos Sacis”

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Izak Dahora, aos 28 anos, junto ao personagem que interpretou pela primeira vez aos 13 anos de idade.

Por Andriolli Costa

É impossível olhar para o Saci Pererê de Izak Dahora e não recordar sua famosa gargalhada. Afinal, entre roubar os bolinhos de chuva de Tia Nastácia e salvar a criançada das maldades da Cuca, foram exatos cinco anos – entre 2001 e 2006 – em que aquele riso debochado pontuava as traquinagens do perneta quase todas as manhãs na Rede Globo.

Izak conta que a grande marca do personagem surgiu de um incentivo de própria mãe. “Quando consegui o papel, ela me disse que o saci zombava de todo mundo. Ele precisava ter uma risada”, relembra o ator, que começou a interpretar o duende brasileiro aos 13 anos de idade. “Eu ficava dentro do meu quarto rindo igual um maluco até encontrar uma risada que coubesse no saci”, diverte-se.

O Sítio do Picapau Amarelo foi cancelado em 2007, um ano depois da saída de Izak do elenco, marcando o fim dessa retomada da obra de Monteiro Lobato. Recentemente houve rumores de que a Globo poderia voltar com uma nova temporada da série nas tardes de domingo, a partir do ano que vem. No entanto, mesmo com o encerramento oficial tendo ocorrido há quase 10 anos, Izak chegou a reviver o personagem em participações especiais no Mais Você, no Caldeirão do Huck e no Toma lá, da cá.

Agora é diferente.

Em 2017, Izak tornará a dar vida ao diabrete perneta. Dessa vez não mais como ator, mas através das palavras. Izak é autor convidado da coletânea Histórias de Sacis, que se passa no universo do livro Ulisses no País das Maravelhas, de Egídio Trambaiolli Neto – o diretor-presidente da Editora Uirapuru. Cada conto é inspirado em um dos sacis do livro. A Izak, como não poderia ser diferente, coube a tarefa de escrever sobre o Rei dos Sacis.

O convite veio em boa hora. “Há muito que escrevo e quero publicar, e veio a vida me propor começar com esse personagem que já pude fazer como ator. Acredito no poder transcendente das coincidências”, reflete o artista, hoje com 28 anos de idade, e com diversas passagens pela TV, teatro e até mesmo cinema.

A iniciativa pontua essa fase madura em sua carreira. Izak concluiu em 2014 o mestrado em Arte e Cultura Contemporânea na UERJ, e sabia o valor de buscar informação para embasar sua escrita. “Eu tinha que aproveitar essa oportunidade, mas fazer algo diferente. Por isso eu fui para a pesquisa”.

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Os autores convidados para a coletânea Histórias de Sacis

Raízes
Izak conta que não queria utilizar apenas sua experiência como saci para escrever o conto. Claro que ali havia já alguma familiaridade, uma visão das características fundamentais que um saci deveria ter. Que dirá um rei. A majestade, no caso, não estaria na pompa, mas nos extremos. “O Rei dos Sacis, para mim, teria os atributos de todos os sacis elevados ao máximo! Seria o mais engraçado, o mais brincalhão”, descreve. “Eu acredito que o saci é traiçoeiro, mas não é mau. Não se deve confiar nele, por que ele está ai para brincar”.

Para incorporar novas características a narrativa escolhida, procurou os clássicos. Revisitou Monteiro Lobato, mas na obra adulta – principalmente Urupês. Bebeu na fonte de Câmara Cascudo e até mesmo em Darcy Ribeiro. Da pesquisa, o que mais lhe chamou atenção foi perceber as raízes do Brasil em desenvolvimento. As marcas da colonização, o imaginário indígena, as forças que marcavam a formação da cultura nacional através do folclore.

Foi com essas leituras que Izak pode compreender o multiculturalismo do mito, que é o grande motivo pelo qual ainda hoje o saci pode ser considerado um ícone nacional. “Você tem a carapuça, uma referencia talvez inconsciente aos escravos romanos que usavam o piléu vermelho para indicar que foram libertos”, destaca ele. “Há ainda a cor da negritude e, sobretudo, a origem indígena como o Yasy Yateré. É muita riqueza!”, sintetiza.

Negritude

Sítio do Picapau Amarelo

Izak sofreu bullying desde os 6 anos de idade. Quando era chamado de saci, no entanto, não via maldade. Sentia orgulho.

O saci é a perfeita síntese da miscigenação cultural que deu origem ao nosso povo. No entanto, se a mestiçagem é a grande marca do brasileiro, como ainda pode haver tanto racismo no país? Como o preconceito de cor encontra espaço em um país com tantas cores em sua formação? São dúvidas que Izak precisou encarar desde criança.

“Sofri bullying pela primeira vez aos 6 anos de idade. Na escola me chamavam de carvão, e até o motorista do ônibus me chamava de Pelézinho. Isso me incomodava. Eu tinha nome, queria que me chamassem por ele”. Izak estudava em escola particular, e sempre foi o único negro da sala. Em mais de uma ocasião, conta que se sentia como um ET. Alguém que não devesse estar naquele ambiente.

Por sorte, Izak encontrou num ambiente escolar acolhedor as condições para superar o sentimento de opressão. A força veio de pessoas que ele faz questão de nomear. “A coordenadora Eli Tavares Ribeiro e a diretora Jurema Batista do Colégio São Gonçalo foram fundamentais para mim nesse momento”, recorda. “Elas perceberam que eu tinha essa coisa de artista e me colocaram para ler em voz alta, para hastear a bandeira. Isso mostrou para os outros colegas que eu não era diferente deles. E mostrou que eu devia ter orgulho por ser negro”.

Mais tarde, quando entrou de cabeça na carreira de ator e conseguiu o papel no Sítio do Picapau Amarelo, não teve como evitar o apelido óbvio. Era Saci de um lado, Saci do outro… Mas era diferente, e ele já não se importava. “Não achava ofensivo. Era novidade para eles também terem um colega na televisão”. O papel só trouxe orgulho.

Dez anos depois de colocar gelo seco no cachimbo para fazer a fumaça, ou de vestir meião azul para que uma perna fosse apagada digitalmente, Izak Dahora está pronto para dar cara nova ao duende que há tantos anos o acompanha. Um personagem que, negro, carrega na pele a história do próprio Brasil. E cuja gargalhada, mais do que um mero deboche, é um desafio. Uma forma de encarar a vida, um ode à diversão, ao enfrentamento e à liberdade.

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O ator na peça A Menina do Dedo Torto

Serviço
Atualmente, Izak Dahora participa do elenco de dois espetáculos de teatro: A Menina do Dedo Torto e Os Insones, baseado na obra de Tony Belotto. Ambos em cartaz no Rio de Janeiro. Ainda este ano, fez também uma participação no filme O Roubo da Taça, de Caíto Ortiz, estrelado por Paulo Tiefenthaler e Taís Araújo.

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