O que é ficção folclórica?

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Legado Folclórico, por Karl Felippe

Por Andriolli Costa

Em dezembro de 2018 foi publicado na revista Abusões, da UERJ, o meu artigo intitulado “Breves notas sobre a ficção folclórica no Brasil”. De breve, admito, o texto tem muito pouco, servindo apenas para denotar o caráter inicial de suas mais de 40 páginas. Ainda assim é um grande ponto de partida, que busca dar cidadania acadêmica a este que descrevo como um subgênero da ficção especulativa – aquela que compreende terror, ficção científica e fantasia.

A primeira vez que utilizei o termo foi para descrever aquilo que observava como um conjunto emergente de obras de ficção especulativa que buscavam inspiração no folclore e nas culturas tradicionais que compuseram a identidade brasileira. E se de início era suficiente seu uso leviano em postagens do blog, logo tornou-se necessário conceituá-lo para distingui-lo de outras tentativas de denominação contemporâneas desse tipo de literatura.

Fala-se, por exemplo, de uma fantasia rural, em oposição à já institucionalizada fantasia urbana. Seria aquela que centra o cenário e os espaços de agência dos personagens não na metrópole, mas nas regiões interioranas. Isso, entretanto, nos leva a uma restrição espacial que é desinteressante: folclore não está apenas na zona rural, mas em todos os espectros da vida humana. Reforçar isso faz parte do nosso trabalho de divulgação folclórica e não poderia gerar essa dubiedade de interpretação na academia.

Roberto de Sousa Causo descreve a saga de Tajarê, de “A Sombra dos Homens”, como um livro de borduna e feitiçaria. Uma referência aos clássicos de espada e feitiçaria aos quais pertencem as obras de Robert E. Howard, por exemplo. A borduna, uma espécie de porrete que pertence ao arsenal dos povos indígenas brasileiros, faz as vezes da lâmina. Ocorre, entretanto, que a limitação agora é quanto ao gênero, enquadrando apenas narrativas de fantasia heroica com foco indigenista.

Simone Sauressig, que há 30 anos escreve fantasia no Rio Grande do Sul, já descreveu por vezes suas obras como “fantasias de registro folclórico”. O termo remeteria, entretanto, a um folclorismo típico das primeiras fases da literatura regionalista, no qual havia uma confusão entre a coleta memorial e a ficcionalização. E não é isso o que Simone faz.

O lastro da ficção folclórica remete à própria emergência do movimento folclorista, que seria uma inspiração do Romantismo. Um dos desdobramentos dessa corrente no Brasil seria justamente o Regionalismo acima mencionado, cuja catalogação deve ser feita com cuidado. Afinal, como critica Lúcia Miguel-Pereira, “se considerarmos regionalista qualquer livro que, intencionalmente ou não, traduza peculiaridades locais, teremos que classificar desse modo a maior parte da nossa ficção”.

Regionalismo é então entendido, conforme a própria pesquisadora, como obra cujo seu fim primordial deve ser a fixação de tipos, costumes e linguagens, Nisso temos a diferença da ficção folclórica: seu fim primordial é explorar o Brasil fantástico, a partir de seus mitos, lendas, crenças, simpatias, cantigas e parlendas. O país, seus tipos e costumes entram à reboque.

Quer saber mais sobre ficção folclórica? Leia o artigo completo ou escute o episódio de Poranduba dedicado ao tema.

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