[Resenha] Terrores Urbanos – 1ª temporada

loira - terrores urbanos

Loira do Banheiro, no episódio de estréia da série

Por Andriolli Costa

Terrores Urbanos, série de terror – ou, melhor dizendo, suspense psicológico – produzida pela Sentimental Filmes em parceria com a Record estreou em outubro no serviço de streaming da rede de televisão, o PlayPlus. Na TV aberta mesmo, a estreia acontece nesta quarta-feira, 02 de janeiro. Contando com diretores jovens, mas já consagrados na nova safra do cinema brasileiro, a série é uma aposta que vinha sendo anunciada desde 2016 e finalmente foi concretizada.

A direção geral da série é de Fernando Coimbra (Castelo de Areia, 2017), que assina também o primeiro e último episódio. Os demais ficam a cargo de Juliana Rojas (As Boas Maneiras, 2017) e Felipe Adami. Bastante alardeada antes do lançamento, a recepção da crítica, para dizer o mínimo, foi morna. Quem não se limitou a replicar o release de lançamento, acabou não se impressionando com o clima da série. Daniel Castro do Notícias da TV, por exemplo, fez a avaliação mais ácida, e pontua: “com cinco episódios, Terrores Urbanos retrata lendas que metem medo em crianças, mas que adultos já não levam mais a sério há muito tempo”.

Essa é uma opinião que, prevejo, encontrará bastante eco quando a série for lançada para o grande público. É a balança sobre a qual se sustentam todas as obras de inspiração folclórica: por um lado, o reconhecimento imediato que permite ao público se identificar com a adaptação a partir de uma relação já estabelecida com os mitos e lendas que atravessaram gerações. Por outro, desde sempre o imaginário popular enfrentou o desprezo das elites, resumido como coisa de criança, de interioranos ou de tempos passados que nada mais tem a dizer a um mundo supostamente ilustrado e esclarecido.

Tolice. No espelho do banheiro assombrado pela loira, para além das feições monstruosas da visagem, o que vemos é nosso próprio rosto refletido. Nossas angústias, medos, sonhos e esperanças. E, por essa ótica, a série é muito bem-sucedida. Não por acaso encontramos no título Terrores Urbanos a chave de leitura para a obra. A série mexe com o que nos aterroriza nesse ambiente metropolitano; pressões sociais, traumas e culpas. Mitos e lendas, como sempre fizeram, canalizarão tudo isso na forma de criaturas fantásticas. Metáforas vivas para nosso estar no mundo.

Cada episódio é completamente independente do outro, e se centra em uma lenda e em um grupo específico de personagens. Uma estudante, pressionada para ser a melhor, sofre de anorexia enquanto é perseguida pela loira do banheiro. A mulher de um empresário preso por operações policiais tenta proteger o que restou de sua família da gangue dos palhaços. Um médico, patrocinado por grandes laboratórios, tenta lidar com a culpa pela morte de seus pacientes experimentais enquanto delira com a maldição do quadro dos meninos que choram. Uma mãe com estresse pós-parto do segundo filho tenta lidar com os ciúmes do mais velho, que parece influenciado por um boneco assassino. Uma jovem que carrega o trauma de ter perdido uma criança que cuidava deve tomar conta de sua sobrinha mal-criada enquanto teme a passagem do homem do saco.

Essa, claro, é a mensagem mais superficial que cada episódio transmite em sua sinopse. Mas ao longo de toda a série fui reconhecendo padrões que me pareceram muito mais significativos para compreender sobre o que Terrores Urbanos falava.

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Gangue de palhaços, impossível não pensar no Coringa

Ambientação e Protagonistas

Ao mesmo tempo em que as lendas urbanas transmitem o caráter de proximidade que nos conecta com a série, há vários elementos de distanciamento que incomodam. Parece haver uma nítida tentativa de apagamento do Brasil – ou de internacionalização das histórias – que resultam num estranhamento desnecessário.

Vamos de início nos atentar aos ambientes pelos quais as histórias perpassam. No primeiro episódio, a protagonista está em sua escola particular cujo grande desafio é ser a “oradora da turma” na festa de formatura. Uma conquista a qual seus colegas a aplaudem e parabenizam.  Oras, para construir uma plot menos brasileira que essa só se a garota tentasse ser a “rainha do baile da primavera” ou coisa parecida.

Chama atenção também o estrato social manifesto nos cenários e personagens principais. No segundo episódio, a protagonista se tranca em sua mansão com janelas que se encerram em metal blindado e quarto do pânico, quase como no filme de David Fincher. Na sequência, temos um médico de uma clínica particular caríssima bancada por empresas multinacionais para desenvolver tratamentos que serão privatizados. No seguinte somos praticamente confinados ao apartamento de classe média alta de uma empreendedora workaholic que até os últimos instantes se manteve trabalhando e produtiva.

O que a série aponta como norma é esse protagonista elitizado, epítome do Capital, que será por fim castigado pelos seres fantásticos. Detalhe: no último episódio, o único que foge à norma, a protagonista – vendedora ambulante de sabonetes – tem como antagonista por um lado o homem do saco, que se esconde sob uma máscara e sequestra crianças para fazer sabão, e por outro uma empresa igualmente sem rosto, com endereço desconhecido e atendimento terceirizado, que fornece produtos de procedência duvidosa.

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Homem do Saco, um horror sem rosto

A Origem do Medo

Curioso perceber que essa tensão que permeia a série ganha seu ápice quando compreendemos qual a fonte disseminadora das histórias que virão a assombrar os protagonistas. Um funcionário crédulo demais, uma faxineira da escola, ou simplesmente um boato que se espalha pelas mídias mais populares. Relatos que de início são tidos como bobagens e crendices do povo, mas que são suficientes para plantar a dúvida que será alimentada pela culpa que todo protagonista carrega na série – seja por usar a saúde das pessoas como mercadoria, seja pela conivência com os crimes do companheiro. Esse conflito de classes chega inclusive ao ponto das vias de fato, com os funcionários agredindo o patrão enlouquecido para poderem escapar.

Outro terror reiterado pela série é com relação às crianças. No caso dos quadros de Giovanni Bragoin, esse medo é tornado físico, com a manifestação de um menino monstro a partir dessas pinturas amaldiçoadas. Dizem que o pintor fez um pacto com o demônio em troca de sucesso, passando a pintar crianças que, em verdade, eram desaparecidos que depois foram sacrificados a satã.

No entanto, o real medo está em outro ponto: os protagonistas são incapazes de compreendê-las. Imersos em seus próprios problemas, incapazes de se desconectar do trabalho ou de estabelecer um diálogo, são atormentados pela manha, ciúmes e dramas infantis, ao ponto da criança parecer ser a fonte de sua perda de sanidade – e não eles mesmos.

Terrores Urbanos nos oferece protagonistas padronizados e elitizados – brancos, heterossexuais e ricos, que são rondados por medos ancestrais que se articulam a partir de pavores contemporâneos. Eles temem a insegurança que causaram a si mesmos, as pressões externas,  temem até os próprios filhos. Apavoram-se especialmente com o enlouquecimento, não pela loucura em si, mas pela incapacidade de permanecerem produtivos e eficientes (bons pais, bons maridos e esposas, bons empreendedores) – atributos pelos quais atingiam o reconhecimento social.

Diante do terror frente ao próprio fracasso, o assombro das lendas é apenas o passo derradeiro que os leva em direção ao abismo.

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Boneco Amigão, referência aos bonecos assassinos como Fofão e Xuxa

Leia também:

  • Entrevista que fizemos com André Bankoff, do episódio Boneco Amigão.
  • Especial sobre a lenda da Maria Degolada, versão da loira do banheiro no RS
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