Caça aos Tibiras – 400 anos do primeiro crime homofóbico do Brasil

antes o tempo não acabava

Poster do filme “Antes o tempo não acabava”, que acompanha a vida de um indígena gay no Amazonas (2017)

Por Andriolli Costa

Em 1614 a cidade de São Luis do Maranhão foi palco daquilo que hoje é apontado como o primeiro crime de morte motivado por homofobia em terras brasileiras. A mando de missionários franceses da Ordem dos Capuchinhos, um Tupinambá foi preso à boca de um canhão e partido em dois pela bala disparada. Não sem antes ser obrigado a renegar seus deuses para encontrar um lugar no céu, é claro. Igualmente violento é saber que quem acendeu o pavio, para cair nas graças dos colonizadores, foi outro indígena da mesma etnia.

Sem nome para os autos da história, e igualmente sem voz, o que sabemos sobre o indígena foi o registrado pelo frei Yves D’evreux, em sua coletânea de registros intitulada “Viagem ao Norte do Brasil”. No capítulo dedicado ao acontecimento, D’evreux se regojiza com o suposto pedido de conversão do indígena antes de sua morte, renegando “Jurupari” para ir ao encontro de “Tupã” no céu. O frei compara o “selvagem iníquo, impuro e imundo” com uma ostra suja de lama, mas cuja alma, batizada e salva, é feito a pérola bela.

Uma confusão em matérias e compartilhamentos nas redes sociais fez crer que o nome do indígena em questão era Tibira. Este, entretanto, não é um nome próprio. Estevão Fernandes, cuja tese investiga a questão da homossexualidade indígena, reúne algumas respostas. Para alguns autores citados por ele, Tibira é um epíteto dado pelos Tupinambás para líderes espirituais que, sendo homens, “serviam como mulher nos atos sexuais”. Outros, por sua vez, identificam que Tibira ou Tivira era utilizado de maneira pejorativa, indicando o homem que era passivo na relação.

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Monumento de 2016

Quanto a essa última observação, é curioso notar que a relação sexual entre homens era comum entre os Tupinambá, sendo que os ativos inclusive se vangloriavam do ato. Os passivos, por sua vez, eram mais mal vistos, o que se refletiu na violenta perseguição homofóbica imposta pela igreja com a colonização. Inclusive quando o Tibira assassinado foi preso, relata o capuchinho que seu pedido foi para que seus companheiros de fuga tivessem o mesmo destino que ele.

“Talvez o réu estivesse sugerindo que entre os principais chefes que o condenavam à pena de morte, havia alguns que frequentavam seus serviços homoeróticos“, sugere o antropólogo Luiz Mott no capítulo que dedica ao tema no livro Histórias dos Crimes e da Violência no Brasil. Conforme Mott, os Tibiras seriam homens travestidos que executavam tarefas atribuídas a mulheres e ainda faziam papel sexual passivo. Os Tibiras do Maranhão foram perseguidos para que a igreja pudesse assim construir o clima de temor que favoreceria o controle.

D’evreux, em seu relato, não menciona a “sodomia” propriamente dita como o crime cometido pelo indígena, mas no discurso que transcreve da boca do algoz, o indígena que atuou como carrasco, encontramos a pista. Diz o parente que, quando morresse, poderia pedir a Tupã que reencarnasse não mais como homem, mas com cabelos compridos e corpo de mulher. É a questão do corpo e da identidade de gênero gerando vítimas há mais de 400 anos nas terras brasileiras.

Luiz Mott, que também preside o Grupo Gay da Bahia, tornou o Tibira um mártir da causa LGBT. Em 2016, fixou um monumento em homenagem ao indígena no local onde o canhão teria partido seu corpo. O grupo também foi responsável pelo encaminhamento do pedido de canonização do indígena, como “São Tibira”, uma resposta a todo o sofrimento que lhe foi causado pela própria igreja.

O caso também inspirou a produção de um curta documentário em 2007 chamado “Tibira é gay“, dirigido por Emílio Gallo. O filme aborda as dificuldades vividas por quatro descendentes de indígenas que assumem sua homossexualidade e contam suas histórias.

Transcrevi abaixo o capítulo referente à morte do Tibira maranhense. Ele pode ser encontrado no capítulo 5 do livro de Yves D’evreux disponível aqui.

Capítulo V

De um índio, condenado à morte, que pediu o batismo antes de morrer

(…)

Um pobre índio, bruto, mais cavalo do que homem, fugiu para o mato por ouvir dizer que os franceses o procuravam e aos seus semelhantes para matá-los e purificar a terra de suas maldades por meio da santidade do Evangelho, de candura, da pureza e da clareza da religião Católica apostólica romana.

Apenas foi apanhado amarraram-no e trouxeram-no com segurança ao Forte de Sam Luiz, onde deitaram-lhes ferros aos pés: vigiaram-no bem até que chegassem os principais de outras aldeias para assistirem ao seu processo e proferirem sua sentença, como fizeram a final.

Não esperou o prisioneiro pelo princípio do processo, e ele mesmo sentenciou-se, porque diante de todos disse, “vou morrer, e bem o mereço, porém, desejo que igual fim tenham meus cúmplices”.

Terminado o processo e proferida a sentença, cuidou-se em sua alma dizendo-lhe que se ele recebesse o batismo, apesar de sua má vida passada, iria direto para o Céu apenas sua alma se desprendesse do corpo.

Acreditou nossas palavras e pediu o batismo: para tal fim veio o Sr. de Pezieux procurar-me em nossa casa de S. Francisco em Maranhão, e conversando se devia ser eu quem o batizasse, resolvemos negativamente pelas seguintes razões.

Pensavam os selvagens que nós outros padres éramos pessoas misericordiosas e compassivas, que espontaneamente empregávamos nossos esforços perante os grandes para alcançar a vida dos condenados. Que os grandes nos estimavam e nada nos negavam, e que além disso, nós pregávamos que Deus não queria a morte e sim a vida do pecador, e que por isso tínhamos vindo aqui para dar essa vida de forma que, se eu o batizasse publicamente, antes dele morrer, teria satisfeito muitos caprichos destes espíritos débeis e incapazes a respeito da opinião, que formavam de nós e que seria muito prejudicial a nossas intenções, dando além disso causa a várias murmurações dos selvagens, que diziam “se os padres gostam da vida, por que deixam este cristão morrer? Se amam tanto os cristãos, por que não amam este? Se os grandes nada lhes negam, por que não pedem a vista deste?”

Por tudo isso e por outras razões que omito, decidimos ser conveniente e necessário que eu não o batizasse. Roguei pois ao dito senhor que, depois de instruí-lo pelos intérpretes, o batizasse antes de ir ao suplício, sem as cerimônias da igreja, o que se prestou e cumpriu.

Recebeu, com tranquilidade e sem tristeza, na presença dos principais selvagens, o batismo. Depois do que um dos principais, chamado Karuatapiran, cardo vermelho, de quem ainda falarei, lhe disse estas palavras:

“Tens agora ocasião de estares consolado e de não te afligires, pois presentemente és filho de Deus pelo batismo, que recebeste da mão de Tatu-Uaçu (nome do Sr. de Pezieux em sua língua) com permissão dos Padres. Morres por teus crimes, aprovamos tua morte, e eu mesmo quero por o fogo na peça para que saibam e vejam os franceses que detestamos tuas maldades; mas repara na bondade de Deus e dos padres para contigo, expelindo Jurupari para longe de ti por meio do batismo de maneira que apenas tua alma sair do corpo já vai direto para o céu ver Tupã e viver com os Caraíbas que o cercam. Quando Tupã mandar alguém tomar teu corpo, se quiseres ter no Céu os cabelos compridos e o corpo de mulher antes do que o de um homem, pede a Tupã que te dê o corpo de mulher e ressuscitarás mulher. E lá no céu ficarás ao lado das mulheres e não dos homens”.

Desculpareis este pobre selvagem, não cristão e nem catequizado, falando da Ressurreição. Ele nos ouviu ensinar que num dia ressuscitariam todos os homens, regressando cada alma do lugar em que estava para ocupar o seu corpo, acrescentando o que pensou ser indiferente à ressurreição, isto é, que uma alma recebe um corpo de homem ou de mulher, no que se enganou não se deixando em pé tal ideia falsa, pois ele e o paciente foram instruídos da verdade. Julguei acertado referir aqui simplesmente o que se passou para que o leitor reconheça sempre quanto sou fiel em minhas descrições, como já disse, e provarei sempre nos discursos, que ainda hei de transcrever.

Este infeliz condenado recebeu as consolações de muito boa vontade, e antes de caminhar para o suplício, disse aos que o acompanhavam: “vou morrer, não mais os verei, não tenho mais medo de Jurupari, pois sou filho de Deus, não tenho que prover-me de fogo, de farinha, de água e nem de ferramenta alguma para viajar além das montanhas, onde cuidais que estão dançando vossos pais. Dá-me, porém, um pouco de petum para que eu morra alegremente, com voz e sem medo”.

Deram-lhe o que ele pediu, à semelhança dos que vão ser justiçados, aos quais também se dá pão e vinho, costume não de agora e sim da mais remota antiguidade, pois então se oferecia aos criminosos vinho com mirra e ópio para provocar sono dos pacientes.

Feito isso, levaram-no para junto da peça montada na muralha do Forte de S. Luiz, junto ao mar, amarraram-no pela cintura à boca da peça, e o Cardo Vermelho lançou fogo à escorva, em presença de todos os principais, selvagens e franceses, e imediatamente a bala dividiu o corpo em duas porções, caindo uma ao pé da muralha e outra no mar, onde nunca mais foi encontrada.

Quanto a sua alma, é de crer que os anjos a levassem ao céu, pois morreu logo depois de haver recebido as águas do batismo, certeza infalível da salvação daqueles a quem Deus concedeu tal graça, não pequena e nem comum, porém tão rara com o arrependimento do bom ladrão da Cruz, que tendo vivido sempre desregradamente até chegar aquele lugar, recebeu contudo esta promessa de Jesus Cristo – Hodie mecum eris in Paradiso, “hoje estarás comigo no Paraíso”. Outro tanto podemos dizer desse infeliz e desgraçado índio, que nos deu tão bela ocasião de admirar e de adorar os juízos de Deus.

Karuatapyran, o algoz, com gestos e palavras, mostrava grande contentamento e alegria perante os franceses por haver recebido tal honra, que apreciava muito mais do que as que sua Nação cheia de abusos dá aos que publicamente matam os prisioneiros, sendo essas consideradas as maiores existentes entre eles, e um favor não pequeno aos mancebos quando escolhidos para tal fim, pois é uma espécie de acesso de grandeza, para ser um dia principal.

Por tudo isto o grande Karuatapyran exaltava-se deste seu feito e dele se servia para se fazer tímido, dizendo por todas as aldeias por onde andava o que tinha feito, asseverando ser irmão dos franceses, seu defensor e exterminador dos maus e dos rebeldes.

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