A gente não morre, fica encantado

Andriolli Costa

Olhar a vida em retrospecto faz todos os caminhos parecerem muito mais claros e evidentes do que realmente foram. Ainda assim, é impossível não pensar na importância daquilo que senti quando escrevi a primeira versão desse texto, cinco anos atrás.

Eu estava voltando de trem para minha nova casa, no Rio Grande do Sul. Cada mudança de cidade me dava aquela sensação gostosa e aflita de recomeço. Uma promessa permanente de que, num outro lugar, as coisas seriam diferentes. E quando o novo se impõe, o velho vai ficando para trás.

Há quantos meses eu não voltava para casa? Para minha verdadeira casa? Aquele lugar onde as armas se abaixam, o sotaque retorna, a lembrança carrega? Certamente mais do que devia. Dinheiro nunca sobra, tempo é sempre escasso. A gente sempre acha que tudo vai continuar lá, esperando por nós. Só que a escassez do tempo cobra seu preço; uma hora a gente aprende.

Um lugar onde o tempo parecia correr de um jeito diferente era a chácara dos meus avós. Os dias caminhavam espichados, como só nas terras sem relógio eles podiam se demorar. Era o lugar de brincar no córrego, correr atrás das galinhas, chupar cana e dormir na rede. Era o lugar certo para ouvir histórias, e viajar no mundo da palavra.

Foi com meus avós que aprendi a gostar de ouvir e contar histórias. A vó Marlene e o vô Oliveira.

Ela, com a paciência que só uma vó pode ter, tentava embalar meu sono contando e recontando os mesmos causos ao longo da noite enquanto me fazia cafuné. Ela não sabia, mas carinho na cabeça me tirava o sono, e aí sim que eu despertava mesmo.

Ele, com sua sabedoria tipicamente sertaneja, me convidava desde cedo a dar valor não só ao que a escola ensinava, mas também a abrir os ouvidos para o que o povo tinha a dizer. E ele sempre tinha muito a contar.

É engraçado falar de ouvido, já que meu avô nunca escutou uma palavra direito desde que me entendo por gente. Sempre recusou o aparelho, inclusive. Dizia que para algumas coisas no mundo, era melhor ser surdo mesmo.

O vô não ouvia, mas adorava falar. Encarapitado em sua chacrinha, sozinho com a esposa e os bichos, ele se regozijava quando recebia visitas. “O velho não presta mais pra nada” – sentenciava. “Só o que presta é a língua!”. No fim de ano então, quando o velho galpão ganhava clima de festa, aí sim que o chicote da língua estralava. Falava por horas, e as vezes até dormia falando.

Das poucas palavras que captava das horas de prosa, e das cenas que pescava da televisão, construía um mundo costurado por sua própria lógica. Tinha teorias para tudo: do fim do mundo em 2012 à renuncia do Papa; do futuro do jornalismo ao casamento gay.

Por vezes, como numa brincadeira de telefone sem fio, o acontecimento original ganhava ares ainda mais fabulosos em sua cabeça. Tanto que muitas vezes o que eu achava que era causo se provou pura verdade! Um dia o vô estava encasquetado com a história de um tal “Chá da meia noite”, quando enfermeiros supostamente aplicavam injeções letais em pacientes para liberar o leito dos hospitais. E não é que tempos depois sai na Folha um artigo lembrando que realmente aconteceu algo assim?

O velho é tora.

Volta e meia ele falava de morte, um assunto que o fascinava. Uma vez , lembro que contou uma história, daquelas que pega todo mundo de surpresa e que ninguém sabe de onde veio. Dizia de um homem que fez um acordo com Deus: só seria levado para o céu ou para o inferno por alguém que fosse justo.

Ao longo dos anos várias entidades visitaram o homem, mas nenhuma era justa o bastante para que o acordo fosse cumprido. Nem os anjos, nem os santos, nem o próprio Jesus. Até que um dia, a Morte em pessoa veio buscá-lo. “Com você eu vou”, disse o homem. “Para você não existe homem ou mulher, rico ou pobre, preto ou branco. Diante da Morte, somos todos iguais”. E subiu, enfim, para o reino dos céus.

Meu avô está com câncer.

A descoberta veio no mesmo dia da cirurgia de emergência, em maio de 2014. A metástase já havia devorado todo seu intestino e depois, descobrimos, se espalhou pelo corpo. Ele vem sobrevivendo, aguentando com força esses anos todos de dor.

Desde aquele dia, passei a pensar muito nos meus avós, recuperando tantas e tantas conversas que tivemos na memória. Talvez tenha sido esse movimento que fez com que eu me voltasse com tanta força para o folclore, para aqueles dias infinitos de contação de história que vivíamos. Será que o Colecionador de Sacis existiria sem ele?

Um dos meus maiores orgulhos foi ter aproveitado uma visita que fiz e gravado um Poranduba com ele. Por três dias, ligava o gravador e deixava o vô contar suas histórias. Ele cantou, lembrou da família, recitou trovinhas e contou causos. A vó disse que há tempos não o via tão agitado e feliz.

Capturar esse pedacinho do vô Oliveira foi um presente que eu dei a mim mesmo. Ele está lá, eternizado no programa, e nada vai tirá-lo dali. No programa, faço a recomendação: não deixe sua família para depois. A gente nunca sabe o dia de amanhã.

Eu cheguei a tempo. Depois daquele mês, a condição dele só piorou.

Ao longo de seus imprecisos 90 e tantos anos, o Vô já disse vários “nãos” para a morte (ou seriam “sims” para a vida?). Oliveira Serafim da Costa, cearense orgulhoso e devoto do padrinho Padre Cícero, misturava veneno para a lavoura com as mãos nuas e sem camisa. Sobreviveu à uma queda quando criança que lhe partiu a cabeça; à fome e à seca do nordeste e à insuportável dor que é a saudade da família e da terra natal.

Após tantos “nãos”, só me resta torcer de todo o coração para que o câncer seja mais um dos injustos que veio tentar te levar. E que ainda restem vários anos até que alguém digno finalmente apareça.

Tempos atrás, li uma frase que me fez pensar bastante. “A gente não morre, fica encantado”, recitou João Guimarães Rosa em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Três dias depois, ele próprio se encantou e partiu.

Assim será com você, vô. Quando sua hora chegar – e que não seja agora, você viverá para sempre em nossas memórias, e nas histórias que contaremos a partir delas. O corpo se vai, mas as histórias são eternas.

Eu já rezei por sua saúde do jeito tradicional, como aprendi na igreja. Mas acho que este texto é a oração mais poderosa que posso fazer em seu nome. Não se preocupe, querido avô. A gente não morre.

A gente não morre…

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