Audálio Dantas – O jeito da nossa gente (1970)

Audálio Dantas viajou pelo país inteiro, falou com escritores, artistas, a todos fez a pergunta: de que gosta o brasileiro? Descobriu que há muitos gostos. E aprendeu que, como o brasileiro é criador, quando não gosta, dá um jeitinho.

Reportagem publicada na revista Realidade em 1970

O jornalista Audálio Dantas, que revelou Carolina Maria de Jesus


Porto da Barra, Salvador. Por aqui, da calçada à praia – e mais para além, no azul do mar -, Antônio Luís improvisa a sua vida: bate bola na areia, sonha ser um craque de futebol; embarca nos saveiros com os pescadores, vai apanhar peixes para vender, olha as mulheres que passam, sente-se um conquistador irresistível; consulta o relógio que anda sempre atrasado, desmonta-o para consertar; arranja madeira velha, faz um pequeno barco para brincar. Antônio Luiz tem dezessete anos.

– Como você aprendeu a fazer todas essas coisas?

– Aprendi fazendo. Sabe como é: a gente tem que se virar.

Antônio Luís está fazendo o seu curso intensivo, preparando-se para ser, como a maioria dos brasileiros, um cidadão capaz de dar um jeitinho em tudo – até de dar nó em pingo d’água, conforme a imagem lembrada por Luís da Câmara Cascudo, ensaísta e admirador de nossa capacidade de improvisar.

No Porto da Barra, canto baiano, esse menino não é uma exceção. Suas habilidades não causam espanto a ninguém – ele é apenas mais um que “se vira”, dá um jeitinho na vida. Mesmo sendo loiro, cabelo de fogo no meio da morenidade geral, não é exceção. Como os outros, bate bola e improvisa trabalho, constrói, inventa, conta vantagem, é solidário, fofoqueiro, amoroso; toma cafezinho, come feijão com arroz e, se provocado, briga por três coisas: futebol, carnaval e mulher.

– Mas você, tão menino e já brigando por mulher?

– É de menino que a gente se vira em homem.

– Você é um machão??

– A minha parte eu garanto!

Uma qualidade

Um sociólogo veria em Antônio Luís uma síntese do brasileiro, principalmente por sua capacidade de improvisar dar um jeitinho na vida. Jorge Amado, romancista, morador no bairro do Rio Vermelho, a pouca distância do Porto da Barra, não conhece Antônio Luís, mas acha que o seu jeito, o seu improvisar “é uma qualidade, uma característica das mais marcantes do povo brasileiro”. Outros romancistas, poetas, ensaístas, artistas me dizem a mesma coisa em outras partes do Brasil: Mário Quintana em Porto Alegre, Marques Rebelo, no Rio; José de Barros Martins, em São Paulo; Gilberto Freyre no Recife; Luís da Câmara Cascudo e Newton Navarro em Natal. E falam de outras paixões que o brasileiro tem.

Uma sereia, mãe d’água, Janaína; imagem de santos, católicos e brancos; um Exu preto, boca de fogo – tudo isso numa parede da casa de Jorge Amado, que começa a conversa.

“O jeitinho é o que existe de mais significativo, é como que um resumo de todas as qualidades do brasileiro: generosidade, cordialidade, solidariedade humana, tudo. Se não fosse o jeitinho, o brasileiro, nas condições difíceis em que decorre a sua existência, não poderia viver. Vive-se no Brasil porque se dá um jeitinho, há sempre uma maneira de se resolver o assunto mais difícil.

“Esse traço do brasileiro resulta de seu talento, de sua doçura, de sua fibra. Resulta, como tudo no Brasil, da mistura de sangues e raças que aqui se processou. Graças a Deus, somos mulatos todos nós, mesmo o brasileiro mais branco, primeira geração, filho de pais imigrantes. Mesmo ele é culturalmente mulato, capaz de improvisar, de dar jeitinho, felizmente”.

“Podemos ter bons escritores, bons músicos, bons pintores, mas a nossa arte primeira é o futebol – nosso balé principal. Também aí o talento do mestiço, sua capacidade artística e seu gênio de improvisação revelam-se em todo esplendor. Não creio que os esquemas técnicos rígidos levem o nosso futebol a algum sucesso. O sucesso do nosso futebol depende exatamente da nossa capacidade de criar. O brasileiro é essencialmente criador. Em tudo e em especial na arte do futebol, nobre arte”.

Aí vem um cafezinho, a cordialidade brasileira numa pequena xícara.

“O brasileiro não gosta de ser cordial; o brasileiro é cordial, é o ser cordial por excelência e essa cordialidade resulta também da mistura, da miscigenação. Com a vida cada vez mais difícil, a cordialidade recebe violentas agressões, mas se mantém, apesar de tudo. Na Bahia, de onde sou e onde vivo, esse senso de cordialidade atinge o máximo”.

Ao feijão com arroz, gosto brasileiro cultivado e quase todo o país, Jorge acrescenta farinha de mandioca – “como passar sem farinha de mandioca?”. Principalmente na feijoada, um dos fatores da unidade nacional neste país que é um continente, unidade que devemos, também fundamentalmente, à miscigenação, às misturas de sangues e culturas.

Jorge Amado e seu pug

Apipucos, numa casa-grande

A casa-grande de Gilberto Freyre. Uma das mais bonitas do Brasil e certamente uma das mais famosas. É em Apipucos, arrabalde do Recife, onde ele nos diz que o jeitinho, a capacidade de improvisar são uma característica marcante do brasileiro. Um aspecto positivo e ao mesmo tempo negativo de nossa maneira de ser.

No entanto, não é bom que se faça um elogio sem restrições à improvisação e se negue a anti-improvisação. Necessitamos de anti-improvisação, necessitamos de método, de esforço sistemático, de trabalho planejado, sobretudo nos setores científicos e tecnológicos. Tudo isso sem esquecer e sem desprezar o nosso talento improvisador, ao qual devemos muita coisa de grande.

A todo instante encontramos exemplos. Pessoas que não tem um treino sistemático para lidar com máquinas são capazes de soluções que causam admiração aos técnicos. Isso, naturalmente, tem aspectos negativos. Mas sobra muito de positivo.

Paixão por mulher não é um privilégio nosso, do homem brasileiro com exclusividade, mas entre nós ela se apresenta de uma forma muito vigorosa, como característica quase oriental de um homem principalmente ocidental.

“O futebol que jogamos aqui, hoje, já é um futebol de tal modo brasileiro que é uma expressão de temperamento, de caráter, de cultura do Brasil. Nós nos apossamos do futebol como talvez nenhuma outra coisa importada de uma cultura europeia. Para o inglês, que inventou o futebol, nós somos uns hereges.

“O fato é que criamos outra forma de jogar futebol, mais dionisíaco do que apolíneo, e isso demonstra que já perdemos a vergonha de nossa cultura, estamos nos afirmando e criando as nossas próprias formas de cultura. Fizemos do futebol uma dança, pois não deixou de ser dança, coreografia das mais belas, o que assistimos nos jogos da Copa do Mundo. Pela Copa, nossos jogadores dançaram com muita disciplina, em conjunto (às vezes, com magistrais demonstrações individuais). Visivelmente, submeteram-se a um esquema, a uma disciplina, como no balé russo – uma combinação do jogo espontâneo, de improvisação, mas dentro de um esquema”.

Gilberto Freyre, que num longo manifesto defendeu a comida regional, não deixa de falar na mesa do brasileiro. Conta até de uma feijoada que comeu em Nova York, na casa de uma senhora dinamarquesa que vivera no Brasil e se apaixonara pela feijoada. Ela ofereceu, mas quem fez a feijoada foi o marido, um holandês convenientemente treinado. Resultado: uma feijoada perfeita, uma das melhores que o professor já teve oportunidade de saborear.

– Veja você, uma nórdica oferecendo uma feijoada ortodoxamente brasileira, em Nova York. Aí não satisfiz apenas ao paladar; senti à mesa uma afirmação cultural brasileira.

A feijoada é aglutinadora, cordial, um prato convocatório, como muitos o definem. E o homem brasileiro, ainda é cordial?

– Acho que a cordialidade é uma constante no brasileiro. Mas ele atravessa uma fase cheia de obstáculos à afirmação dessa cordialidade. Caminhamos para a automação e quem diz automação diz tempo livre. Quando o brasileiro puder trabalhar menos do que hoje, tiver mais tempo para o lazer, poderá voltar a ser o homem cordial de antes.

Brasileiro, mesmo sem as condições para exercer a sua cordialidade, tem outras paixões que Gilberto Freyre lembra: por música, banho (um grande prazer do homem dos trópicos), cafezinho (pretexto para momentos de ócio em hora de trabalho), anedota (de português e de papagaio), casa própria (o lado prático) e jogo. Esta última paixão, muito forte e contando com enorme variação: jogo do bicho, de baralho, de dados, de palitinhos, de bilhete lotérico. Esse gosto corresponde ao espírito de aventura que é muito vivo no Brasil. Como traço contribuinte da nossa maneira de ser, é positivo, porque um povo, para ser realmente saudável, deve ter espírito de aventura, gosto pelo risco.

– Quer saber de uma coisa? Sou um admirador do jogo do bicho. É uma instituição que dá felicidade a uma numerosa parte da população que honra a cultura brasileira, imaginosa e sonhadora.

Carnaval a qualquer hora

Um bar da Rua Augusta, um desses bares madrugadores de São Paulo. Boêmios “fechando a noite”, devidamente acompanhados. De repente, um grupo de esplendorosas mulatas, egressas de um “show”, fantasiadas. Na frente a mais esplendorosa a rebolar todos os seus atributos. Rebolou até o meio do salão, virou-se e viu que as companheiras andavam normalmente, um tanto apagadas. Aí ela protestou:

– É por isso que este país não progride: eu fazendo toda essa força e ninguém dando bola!

Conseguiu quebrar a frieza dos boêmios cansados. Todos bateram palmas e foi o bastante para as outras mulatas aderirem ao rebolado. No fim da noite, um carnaval. Geral e animadíssimo.

Quem me conta essa história é José de Barros Martins, editor (Editora Martins), bom papo e cultor apaixonado da cordialidade. Para ele, que vê com tristeza o bate-papo desaparecer, engolido pela crescente urbanização, ainda resta a cordialidade, que continua a ser um traço do caráter brasileiro, “apesar de tudo”. E a cordialidade pode dar em carnaval, como no caso da mulata rebolante. O carnaval, por sua vez, é gerado por muitas paixões, como o futebol.

– Tudo é motivo para carnaval: vitória do Flamengo ou do Olaria, eleição de “miss”, festival de música.

E a nossa música, rica e alegre, funciona de mola-mestra. Qualquer reunião de amigos, em casa – e aí o bate-papo resiste, firme -, termina com uma marchinha de carnaval. Essa boa música, além de fazer carnaval, pode até fazer história. “Antes de chegar o cronista, o historiador, o sociólogo, chegou o compositor contando em música coisas da política, das dificuldades do povo, da moda – do cabelo ‘à la garçonene’ à minissaia”. Povo que tem música assim tem de dançar. E o carnaval é a dança geral.

O jeitinho, bem. Não foi um jeitinho que aquela mulata deu para fazer o seu carnaval numa madrugada de meio de ano? Pois assim é em tudo: “No futebol, transformamos algo rígido em coisa improvisada e de inteligência; de técnica em arte”. De tal maneira que ninguém neste país é indiferente ao futebol. Uma história:

– Na minha fazenda em Araraquara, durante a Copa do Mundo, ouvi o palpite de uma comadre que nunca suspeitei interessar-se por futebol. Ela viu o Félix engolir um frango na televisão e deu o veredito: “Agora sim nós vamos ganhar. O homem já comeu o frango dele, vai ficar forte e não deixa entrar mais bola nenhuma”. E não foi outra coisa!

Jeitinho, também, José de Barros Martins vê nesse negócio de vender coleções de livros a crédito. Os livros que edita são vendidos até em Portugal, com muito sucesso. “Pode ser que o freguês não leia, mas que compra, compra”.

Futurologia: não no Brasil

Laranjeiras, Rio de Janeiro. Uma das encostas do Corcovado entra pela ampla janela do 12o andar – paisagem verde e festiva, beleza até nos barracos da favela. Marques Rebelo, romancista dessa e de outras paisagens cariocas, passa em revista algumas das paixões brasileiras. Duas elas – futebol e carnaval – ele vê como as mais importantes.

– Elas unem, ligam o país de norte a sul pelos mesmos sentimentos. São sintomas reais, palpáveis, de uma unificação nacional, um entusiasmo que nivela tudo.

Essa unidade de sentimentos pode ser explicada, de um modo mais profundo, pelo repentino verde-amarelismo que tomou conta do país, depois da conquista da Copa do Mundo. “Veja: a nossa bandeira, é evidente, não é nenhum primor de beleza, nem de bom gosto; mas de repente descobrimos que ela é nossa, o nosso símbolo – e foi esse símbolo que agitamos no país inteiro. O futebol agiu popularmente para que acreditássemos no verde-amarelo”. E, fora dessa afirmação verde-amarela, o que vimos?

– Um grande, imenso carnaval promovido pelo futebol.

Futebol, carnaval – nas duas coisas, a importância de nossa unidade, da nossa formação plurirracial. Assim como a nossa capacidade de improvisar.

– A miscigenação favorece a nossa versatilidade. Através de quatro séculos de história, o brasileiro improvisou, quase sempre com sucesso. Um país em que os recursos da técnica eram escassos tinha que encontrar a sua saída. Apelamos para a nossa versatilidade, a nossa capacidade de fazer. E fizemos muito. Mas à proporção que a tecnologia vai dominando o mundo, damos também um jeitinho de dominar a técnica. A nossa face de país é jovial, adaptamo-nos com mais facilidade às circunstâncias.

Pergunto se essa capacidade de improvisa e de adaptar-se nos vai ajudar a estourar as previsões dos futurólogos para o Brasil. A resposta de Marques Rebelo, brasileiro otimista:

– As profecias dos futurólogos baseiam-se em estatísticas de países que já estão desenvolvidos, inclusive em estatística. No Brasil, a estatística ainda é improvisada, como muitas outras coisas. Então, você vê que a futurologia para o Brasil não cola. Simplesmente porque ela é baseada em dados que não satisfazem a realidade. Por isso, o computador deles não vai funcionar com os dados que nós fornecemos e o que vai acontecer é que os futurólogos, se viverem, vão tomar um susto dos diabos: dentro de trinta anos, queiram eles ou não, seremos uma das maiores potências mundiais.

O país de improvisadores vai dar um susto no mundo. Apesar de todas as nossas dificuldades. Como no caso do Japão, do qual o mundo só conhecia o exotismo, o Brasil, que muitos lá fora imaginam com cobras e lagartos passeando pelas ruas, vai surpreender.

– De repente a gente pega a bola e vira campeão de muita coisa além do futebol.

Gilberto Freyre em visita a Câmara Cascudo

A cachaça cordial

Na beira da estrada que liga Parnamirim a Natal há um enorme cartaz anunciando: “A Pitu informa – esta é a terra de Luís da Câmara Cascudo”. Nem precisava a cachaça informar, pois todo mundo sabe que aquela é a terra do grande pesquisador, do ensaísta, do folclorista, do homem cordial Luís da Câmara Cascudo. E que, para falar do brasileiro, começa pela sua cordialidade:

– Aquele cartaz da cachaça Pitu, por exemplo: pura cordialidade, porque eu nem conheço os representantes dela em Natal.

A sensibilidade, a doçura, geram essa cordialidade que faz do brasileiro um homem de portas abertas, sempre disponível para a amizade. Mas o brasileiro, por causa disso, “fecha a porta para o lobo mau”.

– Como assim, professor?

– Vou lhe contar a história de Perrault, o Chapeuzinho Vermelho, que todo mundo conhece. A avó é devorada pelo lobo, não é? Pois meu filho, quando tinha sete anos, leu o conto e recontou assim: o lobo bateu na porta, a avó olhou pela janela e viu que não era a neta. Simplesmente manteve a porta fechada. Por que acredito que essa versão não seja só de um menino em Natal? Porque a morte a avó repugna a sensibilidade.

Tanto que o conto de Perrault não é alterado apenas oralmente. Cascudo conhece uma adaptação escrita “em que entra a colaboração do espírito brasileiro”. O lobo chega, muito mau apesar do disfarce, a pobre avozinha se prepara para abrir a porta, entra um papagaio em cena:

– Não abra, não, que não é sua neta!

Cascudo completa:

– Veja bem, um papagaio que Perrault nem podia imaginar entrou na história para salvar a velhinha. O que Perrault não pode evitar, o papagaio conseguiu.

– Mas isso também é jeitinho brasileiro, não é?

– Ah, é. Brasileiro é capaz de dar nó em pingo de água. Isso seria por falta, por carência dos recursos da técnica? Não. Não acredito cegamente em recursos tecnológicos, porque acredito na intuição de cada um de nós. A técnica reduz o processo de fazer a uma unidade. Acredito que a nossa capacidade de improvisar vem, em grande parte, do fato de sermos a enseada humana, a antropológica, em que caíram as águas das melhores raças do mundo: o português, que de um pequeno pedaço de terra na Europa espalhou-se pelo mundo; o negro, sudaneses e bantos, que eram os melhores, e a indiada viril que aqui habitava.

– Três raças tristes, professor?

– Raças tristes coisa nenhuma! Essa história de raças tristes está superada. Então, um povo capaz de uma explosão de alegria como o carnaval pode ser triste? Somos é um produto excepcional, não apenas de improvisação, mas de adaptação a todos os conhecimentos humanos. O brasileiro aprende o que quer, quando quer. E não aprende mecanicamente, não; modifica, dando a sua fisionomia própria.

Durante a II Guerra Mundial, Cascudo era o chefe da defesa civil no Rio Grande do Norte e viu quando chegaram as grandes máquinas dos americanos, para a construção de estradas. Junto, técnicos americanos para manejar as máquinas, monstros desconhecidos do povo.

– Seis meses depois, em cima de cada máquina, um mestiço raquítico, mancha escura dominando a complicada engrenagem. Dominando, sim, porque era capaz inclusive de desmontá-la e remontá-la. Então, os estrangeiros diziam: “Isso é um milagre!”.

Não era milagre. Brasileiro aprende fazendo, como o Antônio Luís, do Porto da Barra. Futebol, por exemplo, como brasileiro aprende e chega, como agora, na Copa do Mundo, a exibir uma técnica excepcional? Cascudo diz como é:

– A técnica brasileira do futebol foi criada em grande parte pelo mulato, apanhando, quebrando a canela no jogo de rua, de fundo de quintal, com bola de meia. Apanhando e aprendendo. Chegou à técnica, é capaz até de submeter-se ao esquema, à jogada de equipe, como aconteceu no México. E olha que isso é uma conquista – a técnica evitando o individualismo brasileiro de fazer a jogada sozinho, evitando que ele arranque com a bola nos pés e se desfaça em pedaços até chegar ao gol. Passar a bola, hoje, para mim, é uma obra prima de conquista técnica futebolística. Porque fazer um desses grandes craques tirar a bola do pé e passar para outro é o mesmo que emprestar a mulher.

Quando as circunstâncias favorecem, surge o papo. E, como são raras, brasileiros entregam-se de corpo e alma. Em Natal mesmo, o jornalista, escritor, pintor, gravador e desenhista – brasileiro total – Newton Navarro conta uma história de um bate-papo monumental. Um dos personagens é o próprio Luís da Câmara Cascudo, mesmo tendo ficado fora do papo. Cascudo convidara um professor gaúcho para uma conferência em Natal. Como bom anfitrião, levou-o a conhecer a cidade (a conferência seria no dia seguinte, à tarde) e depois a um bar dos mais frequentados, “para uma cervejinha”. No bar, todos amigos, conhecidos. O gaúcho logo fez amizades, apresentado por Cascudo, que se retira, dizendo “você está em boas mãos, passo amanhã cedo no hotel para te apanhar”.

Dia seguinte, na hora marcada, Cascudo no hotel. O porteiro informa, um tanto sem jeito: “Aquele doutor chegou agorinha mesmo”. Eram 8 da manhã. À tarde, a ressaca ainda braba, o professor gaúcho explicava a Cascudo:

– Pois é, companheiro, adoeci gravemente de papo…

Newton Navarro já expôs desenhos em Paris, tem desenho em parede de americano rico – “um vaqueirozinho que o sujeito chamou de ‘cowboy’, veja só” – e recentemente lançou um livro de crônicas (“Beira-Rio”) num dos botecos mais botecos de Natal, na zona do porto. Quem primeiro tomou conhecimento do livro foram os seus próprios personagens, brasileiros que gostam de carnaval, futebol, mulher e “têm um jeitinho para tudo”. Para a maioria deles, a vida é difícil. Por isso, diz Newton:

– Aí do brasileiro se não fosse o improviso. Temos uma condição social improvisada, não somos culpados de não contarmos com os recursos da tecnologia. Improviso. Sou tão brasileiro quanto um pé de Pelé. Só que, com um pé, o Pelé desenha no gramado muito melhor do que eu numa folha de papel.

Mario Quintana, por Dulce Helfer

Em Porto Alegre, na Bahia

Lá vem um menininho entrando na redação do Correio do Povo, em Porto Alegre. Passa por muitos homens apressados que escrevem a máquina, chega à mesa de um homem que escreve a mão. O homem escreve um poema, é o poeta Mário Quintana. Bota os olhos doces no menininho:

– Olá, guri, que é que tu quer?

O guri está vendendo votos para a eleição da “prenda” (no Rio Grande, equivalente a “miss”, palavra importada), quer que o poeta compre votos da sua candidata. O poeta quer informações sobre essa futura prenda.

-Ela é bonita, guri? De que cor são os olhos dela?

– Bonita barbaridade, tchê! Tô vendendo voto pra poder namorar ela.

– Taí, guri: tu é um brasileiro dos bons.

Brasileiro dos bons no jeito da conversa, no jeitinho sem cerimônia de chegar, ir falando, “se virando”, papo firme. E dando duro para conquistar as simpatias de uma mulher. E vender votos foi o jeitinho do menino para conquistar a sua prenda.

“Há engano”, diz Mário Quintana, “quando se pensa que o jeitinho é uma inspiração momentânea. É uma tendência permanente, solução para os problemas mais difíceis. Essa mesma improvisação que fez com que a História do Brasil, nestes quatro séculos, não entrasse pelo cano.

“O brasileiro não é máquina e pode ser considerado excepcional por isso. A máquina pode funcionar admiravelmente bem ou não funcionar de vez, emperrar e ficar incapaz de não fazer nada. Brasileiro, pode ser que não funcione sempre bem, mas sempre está fazendo.

“Num papo, ninguém se incomoda se o interlocutor é pobre, rico, preto ou branco. É uma democracia que só não admite os chatos, mesmo que eles sejam seus doutores”.

Perto da redação do Correio do Povo, no Largo dos Medeiros, um grupo comenta as notícias junto à banca de jornais do Martins. Jonatas Jacinto, funcionário dos Correios, fala do papo:

– Pelo bate-papo, a gente vê por que é que evitamos no Brasil o que existe nos outros países onde as classes e as raças vivem separadas. A gente tem facilidade de fazer desaparecer qualquer barreira artificial que queiram levantar. Lavador de carro discute com dono de carro.

Os assuntos preferidos? Carnaval, futebol, mulher. Os dois primeiros também niveladores, levando todo mundo para a rua, numa grande confraternização. Fora disso, brasileiro dá jeitinho. O Jônatas, por exemplo: tem 49 anos de idade e está fazendo um curso de madureza.

Sem fazer curso nenhum, Antônio Luís e seus amigos do Porto da Barra, na Bahia, vivem e sentem na mesma maneira, dando outros jeitinhos, gostando das mesmas coisas – que vivem ou sonham, Dois amigos de Antônio Luís – Aloísio do Rosário e Manuel Mendes – mostram como também dão seus jeitos na vida. Aloísio pesca, mas, quando o mar não está para peixe, faz serviços de encanador, de pintor de paredes, de pedreiro; Manuel trabalha numa loja de material elétrico, mas sabe armar e desarmar um saveiro, puxar peixe grande na linha. E desenha e faz pintura “dessas coisas bonitas da Bahia”.

– Como vocês aprenderam a fazer tudo isso?

– Como? Fazendo!

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