Andrew Peck – Velhas práticas nas novas mídias

Trecho da introdução escrita por Peck ao livro Folclore e Redes Sociais (2020), em que atua como organizador. Compartilho com vocês para inspirar pesquisas contemporâneas que encontrem no folclore caminhos para dialogar com os internet studies. Compre o livro aqui.

PECK, Andrew. Old Practices, New Media. In: PECK, Andrew; BLANK, Trevor (orgs). Folklore and Social Media. Salt Lake City: Utah University Press, 2020.

Velhas práticas nas novas mídias

Por Andrew Peck
Tradução: Andriolli Costa

GAYLE KING PAROU DE RIR E FICOU SÉRIA. Com gravidade, a âncora do noticiário da CBS, This Morning, transmitiu um aviso importante e oportuno para seus telespectadores. Faltando apenas algumas semanas para o Halloween, a polícia dos estados da Pensilvânia a Washington, passando por Colorado, alertava aos pais que verificassem as sacolas de doces ou travessuras de seus filhos em busca de doces contaminados. O perigo, sugeria a matéria, vinha na forma de doces com maconha, que mal se distinguiam em sabor de uma guloseima não-adulterada. Após um breve trecho, pré-gravado, com o vídeo do Departamento de Polícia de Denver e entrevistas com uma família local e um médico, a câmera retornou ao estúdio, onde King brincou: “Quando éramos crianças, tudo o que se queria era evitar a casa da vizinhança que entregava maças e uvas passas. Agora… maçãs e passas parecem algo bom comparado ao que as crianças têm que se preocupar hoje. Isso é assustador” (GARRAND, 2019).

Essa eterna preocupação com doces de Halloween contaminados é familiar para qualquer folclorista. A lembrança improvisada de King foi baseada em lendas orais sobre doces de Halloween sendo adulterados que ganharam força nas décadas de 1950 e 1960 e receberam atenção da mídia de massa por quase todo esse tempo desde então (GRIDER, 1984, 131-133). Na década de 1980, Sylvia Grider observou o papel da mídia na propagação e reforço dessa lenda, escrevendo que tais relatos “passam rapidamente para a tradição oral e, assim, reforçam a síndrome” (133). Embora o fenômeno – que Grider chama de “Síndrome da lâmina de barbear nas maçãs” – tenha raízes nebulosas na tradição oral, a mediação do fenômeno demonstra uma relação recíproca contínua entre agentes institucionais, mídia de massa e prática popular.

A preocupação envolvendo doces com maconha em 2019 exibiram todas essas características com uma adição importante: o pânico começou por causa de uma postagem nas redes sociais. Alguns dias antes da reportagem no programa de notícias matinal da CBS, o departamento de polícia de uma pequena cidade da Pensilvânia apreendeu vários comestíveis com THC enquanto executava um mandado de busca.

Embora não houvesse evidências de que se planejasse entregá-los às crianças no Halloween, o departamento de polícia – provavelmente inspirado por lendas semelhantes existentes – postou fotos e um alerta de segurança pública no Facebook, aconselhando os pais a “estarem sempre vigilantes e verificar os doces de seus filhos antes de permitir que eles consumam essas guloseimas” (DICKSON, 2019). Ainda que muitos comentaristas zombassem deste post sugerindo ingenuidade por parte da polícia (“Ninguém está dando maconha para seus filhos. Essa merda custa caro, vocês estão tentando assustar as pessoas”), a história recebeu cobertura de diversos veículos de comunicação locais que levaram o aviso a sério. Alguns dias depois, as reportagens foram divulgadas pela mídia nacional, e a preocupação com os perigos dos doces com maconha se tornou uma preocupação a nível de país. A partir daí, como sugere Grider, as reportagens (assim como os rumores que inspiraram) voltaram às redes sociais, alimentando ainda mais a manifestação popular (desta vez muito mais sincera) e reforçando a síndrome.

Para pesquisadores de mídias digitais e folclore, este exemplo não surpreende. Afinal, o papel da internet como condutora de práticas folclóricas tem sido bem documentada por uma vasta gama de estudiosos ao longo das últimas décadas. Os primeiros trabalhos sobre folclore da internet, por estudiosos como John Dorst (1990), Robert Glenn Howard (1997, 2005), Barbara Kirshenblatt-Gimblett (1998), Bill Ellis (2001, 2002), Giselinde Kuipers (2002, 2005), Lajos Csaszi ( 2003), Jan Fernback (2003), Jeannie Banks Thomas (2003, 158–170), Russel Frank (2004), Alan Dundes (2005), Rosemary Hathaway (2005), Marjorie Kibby (2005) e Trevor J. Blank ( 2007) frequentemente observavam como as práticas folclóricas pré-digitais, como ciclos de piadas ou correntes de cartas, estavam sendo estendidas e alteradas pelas possibilidades desse novo meio digital.

Em síntese, estas pesquisas sugeriam não apenas que o folclore existia na internet, mas também que a mídia digital representava uma oportunidade e um desafio para o futuro da folclorística. As redes digitais, argumenta Alan Dundes, estavam ajudando o folclore a florescer graças a ampliação da transmissão (2005, 405). Ao mesmo tempo, como observa Barbara Kirshenblatt-Gimblett (1998), essa nova forma de transmissão digital complicou nossa compreensão básica dos grupos populares e suas práticas.

Em 2008, Robert Glenn Howard criticou algumas dessas primeiras abordagens por serem muito centradas em textos de mídia discretos. O objetivo do folclore digital, argumenta Howard, é tratar discursivamente esses eventos de comunicação e atender aos “processos comunitários que criam, mantêm e recriam essas expectativas” (194). Tal abordagem, sugeriu Howard, revela a natureza fundamentalmente híbrida da expressão popular. Em Folklore and the Internet (2009) Trevor J. Blank avançou na perspectiva de Howard, acrescentando: “a Internet é um novo território para a disciplina do folclore e, embora possamos estar atrasados ​​para o diálogo, nossas perspectivas e metodologias devem não apenas ampliar o escopo dos estudos de internet, mas mas fornecer insights importantes sobre o processo da vida cotidiana no mundo tecnológico moderno”.

De diversas maneiras, pesquisadores como Blank e Howard (2013b) estiveram na vanguarda da atual virada digital nos estudos de folclore. Nos últimos dez anos, esse corpus de estudos sobre folclore digital se expandiu para incluir estudos de religiosidade popular (HOWARD, 2011), lendas contemporâneas (TUCKER, 2012; TOLBERT, 2013; PECK, 2015; BLANK e MCNEIL, 2018), legend tripping[1] (KINSELLA, 2011; TUCKER, 2018), ostensão[2] (Peck 2016; Tolbert 2018), humor (BLANK, 2013, 2015; PECK, 2015; REZAEI, 2016), memes (PHILLIPS e MILNER, 2017; BLANK, 2018; PECK, 2019), tradição (BLANK e HOWARD, 2013b; SZPILA, 2017) , performance (BUCCITELLI, 2012), curadoria (KAPLAN, 2013), comunidades de fãs (ELLIS, 2012, 2015), mundos virtuais (GILLIS, 2011; LAU, 2010), blogs (GLASS, 2016), notícias falsas (FRANK, 2011, 2015; MOLD, 2018; PECK, 2020), saúde e medicina (KITTA, 2012, 2019), métodos computacionais (TANGHERLINI 2013, 2016), vozes indígenas (COCQ 2015; DUBOIS e COCQ 2020), raça (GONZÁLEZ-MARTIN 2016; BOCK 2017; BUCCITELLI 2018b), deficiência (BLANK e KITTA 2015; MILBRODT 2019), movimentos sociais (THOMAS 2018), pós-humanismo (THOMPSON 2019) e interseções entre folclore e cultura pop (FOSTER e TOLBERT 2016; BLANK 2018). Em outras palavras, apesar da preocupação fundamentada de Blank de que o campo estava “atrasado com o diálogo digital” (2009, 17), parece que a folclorística passou boa parte dos últimos dez anos correndo atrás do prejuízo.

A internet, entretanto, foi mudando ao longo desta década de estudos. As tecnologias de comunicação digital tornaram-se inextricavelmente integradas na vida cotidiana de milhões de americanos (BUCCITELLI, 2018a), e dispositivos como smartphones aumentaram drasticamente o acesso móvel e global (TSETSI e RAINS 2017). Além disso, o acesso à web foi altamente centralizado por alguns dos principais sites de mídia e redes sociais (TUFEKCI. 2017, 134). Plataformas como Facebook, Instagram, Snapchat, Twitter e YouTube se concentram em fornecer aos usuários as ferramentas para criar seu próprio conteúdo, além de fornecer aos usuários um fluxo constante de conteúdo criado por outras pessoas. A expressão popular que ocorre nesses ambientes da rede é altamente visível não apenas para outros usuários, mas também para uma ampla variedade de instituições, incluindo políticos, jornalistas, anunciantes e pelas próprias plataformas. Em suma, estamos vivendo em uma era de conexão constante que é definida pelas mídias sociais.

Assim como as oportunidades e desafios observados na virada do século XXI, a centralidade das mídias sociais em nosso momento cultural atual levanta novas questões e complica as respostas existentes sobre a natureza do folclore mediado digitalmente. O que acontece, por exemplo, quando a transmissão informal fica sujeita a um algoritmo proprietário? Como o aumento da interatividade nas mídias sociais de uma variedade de agentes institucionais, de jornalistas e anunciantes até o presidente dos Estados Unidos, complica nossa compreensão do hibridismo popular? Como a mídia social funciona como um intermediário entre a prática popular e a mídia de massa, e o que acontece quando a mídia de massa cobre um comportamento popular da mídia social que nunca existiu? Estas são apenas algumas das questões fundamentais sobre a prática popular contemporânea na era das mídias sociais que os capítulos deste livro se esforçam para responder.

Este livro, Folklore and Social Media, pretende refletir uma década de avanços no estudo do folclore digital, ao mesmo tempo em que considera as oportunidades e os desafios a serem enfrentados pela próxima década de pesquisas. Nossa premissa central é que os estudos sobre folclore digital precisam levar a sério os elementos “digitais” e “folclóricos”, porque as mídias sociais mudam fundamentalmente as práticas folclóricas de maneiras novas e muitas vezes invisíveis. Em alguns aspectos, as mídias sociais fazem o folclore digital parecer mais familiar do que nunca. As possibilidades incorporadas às plataformas de mídia social incentivam performances híbridas que parecem informais e cotidianas, ao mesmo tempo em que oferecem um espaço significativo para ofuscar comportamentos de bastidores por meio de edição e refilmagens. O resultado é que a expressão online se torna cada vez mais uma reminiscência das formas tradicionais de interação face a face, ao mesmo tempo em que esconde suas diferenças fundamentais.

Ainda que práticas folclóricas como a “síndrome da lâmina de barbear nas maçãs”  possa parecer semelhante em 1984 e 2019, as possibilidades das redes sociais foram responsáveis por quase todo o pânico de 2019: como ele surgiu como as pessoas reagiram inicialmente a ele, como recebeu atenção institucional e como essa atenção retroalimentou as redes como uma profecia autorrealizável.

Os estudiosos do folclore digital precisam ter cuidado para não reduzir nossos encontros com as mídias sociais à suas formas aparentemente equivalentes de comunicação cotidiana não-mediada. Diante das possibilidades das mídias sociais, nós, folcloristas, não podemos simplesmente aplicar nossas ferramentas existentes de forma acrítica neste novo espaço. Devemos, ao invés disso, desenvolver continuamente novas ferramentas e adaptar conscientemente as antigas se quisermos permanecer especialistas viáveis ​​da cultura contemporânea neste ambiente de mídia emergente. Os estudos contidos nesta antologia pretendem demonstrar várias maneiras pelas quais podemos refinar nossos métodos e análises para desenvolver uma visão mais completa das vastas e complexas dinâmicas informais e tradicionais que definem uma era de folclore e mídia social.


[1] A prática de ir a locais relacionados à ocorrência de lendas, durante a noite, como testes de coragem.

[2] Ato de cometer uma ação concreta inspirada por um acontecimento de uma narrativa folclórica. Exemplo: envenenar uma maça, como em Branca de Neve.

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