Lendas sob ataque: estátuas folclóricas que provocaram revolta e represália

Por Andriolli Costa

Um monstro marinho destruído pelo fogo. Um menino a cavalo que adversários da obra queriam atirar no rio. Uma sereia e um encantado das águas cuja presença foi questionada no Ministério Público. Em diferentes cidades brasileiras, personagens do folclore ganharam monumentos e se tornaram o centro de disputas sobre religião, memória e representação.

As reações tiveram motivos e consequências distintos. Em Alegrete, no Rio Grande do Sul, incomodou a maneira de representar o Negrinho do Pastoreio. Em Petrolina, Pernambuco, a Mãe d’Água foi interpretada como uma imagem religiosa por seus opositores; a controvérsia acabou envolvendo também o Nego d’Água de Juazeiro, na Bahia. Já em São Vicente, no litoral paulista, o incêndio do Ipupiara deixou uma perda concreta, sem que se possa afirmar a motivação dos responsáveis.

Negrinho do Pastoreio: a liberdade que incomodou em Alegrete

Na versão consagrada por João Simões Lopes Neto em Lendas do Sul, de 1913, o Negrinho do Pastoreio é um menino escravizado, submetido à violência de um estancieiro. Depois de castigos sucessivos, é abandonado sobre um formigueiro. Quando o senhor retorna, encontra o menino vivo, acompanhado de Nossa Senhora, a quem ele tomava por madrinha. A narrativa liga a brutalidade da escravidão à proteção sobrenatural; na devoção popular, o Negrinho também é lembrado por ajudar a encontrar objetos perdidos.

Foi esse personagem que Vasco Prado levou ao espaço público de Alegrete em 1968. No Negrinho Triunfante, instalado no Parque Rui Ramos, o menino aparece sobre um cavalo robusto, com os braços erguidos. Seu corpo magro contrasta com a força do animal. A escolha desloca a atenção para uma criança que vence e se liberta.

A proposta desagradou a setores tradicionalistas e da elite agropecuária local. O contraste entre o menino mirrado e o cavalo bem alimentado foi recebido como uma provocação, uma denúncia do tratamento reservado ao trabalhador negro em uma sociedade que valorizava seus animais. Houve ameaças de lançar a escultura no rio Ibirapuitã. A rejeição à obra e às suas formas modernistas também é registrada em estudo sobre representações do personagem.

A dimensão social do monumento estava expressa na própria homenagem a Rui Ramos. A placa, datada de 20 de setembro de 1968, fala no povo que luta por “um negrinho do pastoreio triunfante, sem os grilhões de uma economia atrasada”. O texto está transcrito em página da Universidade Federal do Pampa. A disputa, portanto, alcançava o sentido dado a um personagem celebrado como símbolo regional: a imagem de sua liberdade também podia incomodar.

Ipupiara: o monstro de São Vicente destruído pelo fogo

Muito antes de se tornar uma escultura, o Ipupiara já aparecia nos relatos dos primeiros séculos da colonização. Seu nome, de origem tupi, designa aquele que vive dentro d’água. Cronistas registraram histórias de seres aquáticos que atacavam pessoas e afundavam suas vítimas, com descrições que variavam conforme o autor e o lugar.

Uma das narrativas mais conhecidas foi publicada por Pero de Magalhães de Gândavo na História da Província Santa Cruz, de 1576. Segundo o cronista, uma criatura teria aparecido em São Vicente em 1564 e sido morta por Baltasar Ferreira, com auxílio de indígenas escravizados. O relato descreve um animal de grandes dimensões, coberto de pelos e com cerdas semelhantes a bigodes — uma imagem distante da sereia de cabelos longos que hoje costuma dominar o imaginário das águas. O episódio e os relatos coloniais estão reunidos no verbete sobre o Ipupiara.

Essa ligação com a história local ganhou forma em 1999, quando uma escultura de Daniel Gonzalez foi instalada na Praça 22 de Janeiro, próxima à Praia do Gonzaguinha. O monumento incorporava à paisagem da cidade uma narrativa que atravessara mais de quatro séculos.

Em fevereiro de 2016, a estátua foi destruída por um incêndio. A perda chegou ao noticiário regional, como registra uma reportagem do Jornal A Tribuna exibida em 24 de fevereiro daquele ano. A destruição foi atribuída a vandalismo, mas os registros consultados não permitem identificar os autores nem comprovar uma motivação religiosa. O que se perdeu foi uma representação pública de um dos personagens mais antigos documentados no imaginário brasileiro.

Mãe d’Água: a sereia que provocou uma disputa religiosa em Petrolina

Mãe d’Água é um nome que abriga diferentes narrativas sobre seres femininos ligados às águas. Embora frequentemente associada à Iara e à forma de uma sereia, suas características variam conforme a tradição. Em Petrolina, a versão escolhida pelo escultor Lêdo Ivo ganhou os contornos de uma mulher com cauda de peixe, instalada no rio São Francisco em 2012.

O artista apontou uma inspiração literária precisa: o poema A Iara, de Olavo Bilac. Em carta publicada pelo Blog do Carlos Britto em 1º de outubro daquele ano, explicou: “Eu apresento meu trabalho como sendo uma representação poética da fábula Mãe D’água.” Na mesma manifestação, respondeu à identificação da escultura com Iemanjá feita pelo pastor Alcides Robert, da Igreja Filadélfia. Leia a manifestação de Lêdo Ivo.

Dois dias depois, o pastor apresentou sua resposta no mesmo veículo. Afirmou que não questionava a qualidade artística nem as formas femininas da escultura. Sua oposição era religiosa: interpretava a figura como representação de uma divindade. “Como estátua de uma deusa sempre diremos não”, escreveu. A resposta de Alcides Robert foi publicada em 3 de outubro de 2012.

O embate expôs leituras diferentes do mesmo monumento. O escultor reivindicava uma criação poética inspirada no folclore; o pastor enxergava uma presença religiosa incompatível com sua fé. A identificação com Iemanjá partia dos opositores da obra e não correspondia à intenção declarada pelo artista. Tampouco tornava equivalentes a personagem folclórica e a orixá cultuada nas religiões de matriz africana.

Nego d’Água: o encantado do São Francisco levado ao Ministério Público

Na margem baiana do São Francisco, outra obra de Lêdo Ivo acabaria envolvida na disputa. Instalado em Juazeiro em 2003, o Nego d’Água representa um personagem das narrativas de pescadores e barqueiros, ligado aos perigos e aos mistérios do rio.

As descrições do encantado variam: pode aparecer como um homem baixo e forte, com características que o aproximam dos animais aquáticos. Em diferentes relatos, a convivência com ele envolve oferendas de fumo ou cachaça, feitas para conseguir uma travessia segura ou uma boa pescaria. Essas histórias expressam uma relação de respeito, temor e negociação com as águas. As variantes do mito são apresentadas no Colecionador de Sacis.

Em novembro de 2015, doze anos depois da instalação do Nego d’Água, um pedido levado ao Ministério Público Federal questionou sua permanência no rio e a da Mãe d’Água de Petrolina. A iniciativa foi apresentada por Jorge Ancelmo Alves de Albuquerque e José Kenaidy Ferreira de Amorim. Ao explicar o pedido, Kenaidy, identificado como teólogo, argumentou que a discussão envolvia a autorização para colocar as obras no São Francisco e a origem dos recursos empregados.

Segundo reportagem reproduzida pelo Petrolina News, o MPF abriu um procedimento em 9 de novembro, sob responsabilidade da procuradora Polireda Madaly Bezerra de Medeiros. A defesa das esculturas ressaltava seu caráter cultural e folclórico. O pedido de retirada também foi registrado na retrospectiva dos acontecimentos de novembro do Blog do Carlos Britto.

As notícias consultadas documentam a contestação e a abertura do procedimento, sem permitir afirmar que tenha havido uma decisão determinando a remoção. O episódio reuniu duas cidades, duas esculturas e um mesmo rio em uma disputa sobre o lugar das narrativas populares na paisagem pública.

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