Do pique-corona à Cuca vacinada: o folclore da pandemia

Brincadeiras, personagens, benzimentos e lendas urbanas mostram como a cultura popular acompanhou os medos e as mudanças trazidos pela Covid-19.

Por Andriolli Costa

Uma criança corre atrás das outras. Quem é alcançado fica parado, em isolamento. Para voltar à brincadeira, precisa que um colega venha libertá-lo com uma vacina de faz de conta. A dinâmica lembra o pique-gelo, mas a pandemia alterou o vocabulário do jogo: pegar virou contaminar; ficar imóvel virou isolar; salvar virou vacinar.

Em janeiro de 2022, um relato publicado nas redes por Mr Fossard chamou atenção para essa brincadeira no Reino Unido. Ao pegar alguém, as crianças gritavam “isolate”; para libertar o colega, tocavam nele e diziam “vaccinate”. A postagem foi incorporada à pesquisa da folclorista Julia Bishop, que reuniu 331 relatos de brincadeiras de perseguição relacionadas à Covid, em pelo menos 18 países, entre fevereiro de 2020 e abril de 2022.

No capítulo publicado no livro Play in a Covid Frame, Bishop também apresenta uma variante atribuída ao Brasil, relatada em 15 de março de 2022. Uma criança era o coronavírus; outra, a ambulância. Cabia à segunda arrastar os jogadores capturados até uma área chamada “hospital”, de onde poderiam retornar ao jogo. O registro, preservado a partir do Twitter, não informa cidade ou escola.

“Não há, portanto, um único jogo de pique-coronavírus, mas muitos”, observa Bishop (2023, p. 5, tradução nossa). As regras mudavam conforme o grupo. Em um relato dos Estados Unidos, eram necessários dois toques para libertar o colega, correspondendo às duas doses da vacina. A novidade se acomodava a uma estrutura conhecida, negociada e transformada pelas próprias crianças.

Esse é um bom ponto de partida para pensar o folclore da pandemia. A experiência da Covid entrou nas brincadeiras, nas piadas, nas formas de pedir proteção e nas histórias contadas sobre os hospitais. No Brasil, também mobilizou personagens que já conhecíamos muito antes de ouvir falar no novo coronavírus.

A Cuca entrou na fila da vacina

A fala de Jair Bolsonaro sobre a possibilidade de alguém “virar jacaré” depois de se vacinar ganhou inúmeras respostas humorísticas. Para quem cresceu com o Sítio do Picapau Amarelo, a associação encontrou uma personagem pronta: a Cuca, cuja aparência de jacaré foi popularizada pelas adaptações televisivas.

Essa aproximação também saiu das telas. Em 6 de agosto de 2021, Natan Sereio, então com 23 anos, foi receber a vacina vestido de Cuca em Taubaté, no interior paulista. Estagiário do Museu Monteiro Lobato e estudante de Artes Dramáticas, ele explicou sua escolha em entrevista ao iG: “Pensou Brasil, pensou jacaré, já vem a Cuca na cabeça”.

Natan, que também se apresentava como a drag queen Sirena Merqueen, explicou a caracterização como uma forma de protestar contra a desinformação e incentivar a imunização. O corpo fantasiado transformava a advertência presidencial em deboche. Uma personagem associada ao medo infantil era convocada para celebrar a vacina e questionar o medo produzido em torno dela.

Até o Cabeça de Cuia usou máscara

Em Teresina, o Cabeça de Cuia também apareceu equipado para enfrentar a pandemia. A estátua na entrada do Parque Encontro dos Rios foi fotografada com máscara pela arqueóloga Natália Gomes em 5 de maio de 2020. O registro foi publicado pelo portal Piauí Hoje.

Na narrativa piauiense, o pescador Crispim é amaldiçoado pela mãe após agredi-la e passa a assombrar as águas como uma criatura de cabeça desproporcional. Na intervenção, o ser que ameaça os banhistas surge submetido ao mesmo cuidado recomendado às pessoas que passam por sua imagem. O efeito vem justamente desse encontro entre a história conhecida e o objeto que passou a marcar a vida cotidiana.

Em Minas Gerais, a estátua do ET de Varginha também recebeu uma máscara. Em abril de 2020, o personagem foi acompanhado pelo Corujão Boveta, mascote do Boa Esporte, em uma ação de orientação à população. O clube informou que a iniciativa procurava colaborar com as recomendações da prefeitura. Aqui, uma figura do imaginário local ajudava a comunicar medidas de prevenção.

Benzimentos pelo WhatsApp

O distanciamento também levou práticas de cuidado a se reorganizarem. Pedidos de benzimento passaram a circular com mais intensidade pelo WhatsApp e pelas redes sociais, conectando pessoas que não poderiam se encontrar presencialmente.

Uma reportagem de Priscila Gorzoni para o UOL Tilt, publicada em 25 de junho de 2021, acompanhou a experiência de Pâmela Silva Souza, fundadora da Escola de Benzimentos Florescer Bento, em Santo André. Um grupo de 63 benzedores se organizava pelo aplicativo para atender voluntariamente às solicitações.

“A tecnologia ajuda a acolher as pessoas. Virtual é apenas o meio”, explicou Pâmela. Segundo ela, os pedidos acompanhavam o avanço da crise: primeiro, o temor de contrair o vírus; depois, a preocupação com familiares internados; por fim, a necessidade de enfrentar as perdas. “O último pedido de benzimento é para suportar o luto.”

Benzer à distância já fazia parte do repertório de alguns praticantes. A pandemia ampliou o uso das ferramentas digitais para manter essas relações. O exemplo permite observar a continuidade dos vínculos de confiança e do acolhimento em circunstâncias nas quais visitar, abraçar e permanecer ao lado de alguém se tornaram ações difíceis.

O retorno do chá da meia-noite

Uma história ligada à gripe espanhola de 1918 voltou a ser evocada durante a Covid: o chá da meia-noite. Segundo a lenda, enfermeiras das santas casas dariam chá envenenado aos pacientes mais velhos para liberar leitos. A bebida seria oferecida de madrugada; na manhã seguinte, o lugar já estaria desocupado. Retomei esse enredo no Poranduba 75 — Folclore e Saúde, publicado em 10 de abril de 2020.

A narrativa se ligava a uma experiência concreta de desamparo. Em estudo sobre a epidemia de 1918 no Rio de Janeiro, a historiadora Adriana da Costa Goulart descreve a falta de médicos, medicamentos e hospitais capazes de receber os casos graves. As deficiências da assistência eram anteriores à gripe, mas a crise as agravou e intensificou a desconfiança da população. Esse contexto ajuda a compreender o medo expresso pela lenda; não comprova a acusação de envenenamento.

O chá também ganhou vida no humor. No roteiro do Poranduba, recuperei sua presença no Carnaval de 1919, em blocos e marchinhas: havia brincadeiras sobre oferecer a bebida à sogra e insinuações sobre o que se tomava às escondidas durante a noite. “Digamos que a marchinha era o meme da época”, comentei. A comparação permite aproximar essa transformação do medo em piada das respostas à fala do jacaré, um século depois.

Com o tempo, algumas versões substituíram o chá por uma injeção letal, preservando o enredo de profissionais de saúde que matariam pacientes durante a noite. A história também continuou circulando fora das grandes epidemias. Meu avô, que morreu antes da pandemia de Covid, recorria à expressão quando precisava ir ao médico: dizia que iam lhe dar o chá da meia-noite. Registrei novamente essa lembrança em 2023, ao comentar como a história permanecia viva no repertório familiar.

O episódio de abril de 2020 já documenta a recuperação dessa memória no começo da Covid. Podemos ler essa retomada à luz das circunstâncias da nova pandemia: a preocupação com a disponibilidade de leitos e a separação entre internados e familiares davam atualidade ao temor de depender de cuidados que não se podia acompanhar. A passagem pela gripe espanhola, pelo Carnaval e pelas conversas de família mostra como uma narrativa pode atravessar gerações e adquirir novos sentidos diante de outra crise.

Observar esses exemplos exige atenção a quem os produz e ao que fazem circular. As crianças reorganizam uma brincadeira; um artista usa a Cuca para protestar; uma campanha mobiliza personagens locais; benzedores mantêm redes de acolhimento; famílias reconhecem uma história antiga em um medo presente. É nesses usos, nas pequenas mudanças de sentido e nas relações entre as pessoas que podemos acompanhar o folclore da pandemia.

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