[Entrevista] Rafael Pen, ilustrador do game KriaturaZ

messier.com_

Por Andriolli Costa

A primeira vez que videogames e folclore brasileiro se encontraram foi em 2004, com o lançamento do MMORPG Erinia, pela carioca Ignis games. E tinha tudo para ser a última. Com uma base de fãs fiel, mas muito enxuta – insuficiente para sustentar um modelo de negócios baseado em pagamentos mensais – e uma jogabilidade pouco inovadora, o jogo foi um grande fracasso.

erinia

Erinia, MMO brasileiro

“Tanto o dinheiro de investidores como o patrimônio pessoal que os sócios investiram no projeto foram perdidos”, lamentou um dos criadores, Cesar Barbado. O game tem uma triste sobrevida até hoje, sempre com a promessa nunca cumprida de reformulação. No entanto, em entrevista ao Uol, o próprio Barbado assume: se pudesse voltar no tempo, não faria Erinia novamente.

Com referências a sacis, macumbas e mapinguaris, Erinia deixou um vácuo no mercado que só agora volta a ser preenchido por uma série de iniciativas bastante promissoras que parecem trazer design, cultura popular e jogabilidade de uma maneira muito mais integrada. Tais iniciativas vem se estruturando em feiras de jogos, angariando prêmios e reconhecimentos, aumentando ainda mais a expectativa sobre eles. É o caso de Lampião Verde – A Maldição da Botija, Batalha dos Mitos, Guerreiros Folclóricos e o game que apresentaremos hoje, KriaturaZ.

Rafael Pen, ilustrador do game KriaturaZ

Rafael Pen, ilustrador do game KriaturaZ

KriaturaZ é um projeto desenvolvido pela Messier Games, empresa de Santo André/SP fundada em 2015. O game conta com apoio da Lei Rouanet de incentivo à cultura e será lançado inicialmente para mobile. Em entrevista ao SocialBits, os criadores detalham a jogabilidade:

“O jogo começa com uma criatura lhe oferecendo um ovo qual você deverá cuidar, dando a ele (ou não) carinho, higiene, aquecimento e músicas regionais. Após sua eclosão nascerá uma criatura que deverá acumular recursos, realizar missões, lutar em batalhas épicas contra criaturas da mitologia nacional e receber cuidados do jogador, evoluindo até se tornar um guardião das lendas”.

Mas não para por aí. Durante a Brasil Game Show, a empresa desenvolveu um protótipo de jogo de luta. Há ainda o desejo de ampliar o leque de produtos, com o desenvolvimento de um jogo de cartas ou de tabuleiro. Fruto de meses de pesquisa, o projeto chama atenção pelos curiosos redesigns pelos quais passaram os personagens do nosso folclore.

Rafael Filipe Alves Carvalho, conhecido na área artística como Rafael Pen, tem 29 anos. Durante muito tempo trabalhou principalmente como ilustrador assistente para editoras como Saraiva, Scipione, Yends, todas de cunho didático. Foi também o capista do livro três da série Crônicas dos Senhores do Castelo. Atualmente, gerencia a equipe de ilustradores do projeto Kriaturaz. Nesta entrevista exclusiva ao Colecionador de Sacis, ele conta um pouco sobre o processo de recriação dos nossos mitos e dá pistas do que vem por aí. Confiram também o portfólio dele clicando aqui!

Colecionador – Como e onde surgiu o projeto KriaturaZ? Quem está por trás?
Rafael Pen –
Bom, o KriaturaZ surgiu com a proposta de explorar o nosso conteúdo nacional, porque o mercado saturou de mitologia nórdica, romana, etc. Nunca antes foi dado importância ao folclore do Brasil que é tão rico e tão pouco falado. Os que entendem mais sobre isso são as pessoas idosas, e o jogo é uma forma de manter esse legado vivo.

KriaturaZ foi idealizado pelos CEOs da Messier Games and Animations, Wilson Oliveira e Rafael Rossetti. Rafael é um entusiasta do mercado de games, sempre antenado às tendências e é quem traz as oportunidades para nós. Wilson foi professor, estudou muito a história do Brasil e tem uma paixão pelas lendas nacionais. Juntaram a fome e a vontade de comer e assim surgiu KriaturaZ.

Sem-título-6Colecionador – Será afinal um jogo para mobile, um jogo de luta, um boardgame ou cartas?
Rafael Pen –
Excelente pergunta e eu respondo: todos! A ideia de KriaturaZ partiu nos moldes de um game mobile, mas percebemos que podemos ter mais do que apenas um game, podemos criar um universo. Aos poucos surgiram ideias para um card game e um board game, mas ainda estamos estudando as possibilidades de veicular eles, pois requer um investimento e temos certas “barreiras a vencer”, visto a crise que prolifera no Brasil.

Na Brasil Game Show montamos um “mockup” para apresentar para as pessoas e conseguir alguma atenção de possíveis investidores. Temos ideias de sequencias e expansões para o game, inclusive para outras plataformas, mas tudo ao seu tempo.

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Assista ao mockup do jogo de luta

Colecionador – Como você se envolveu no projeto? É o único ilustrador?
Rafael Pen –
A Messier passava por expansão e contratação em janeiro de 2015, eu estava entre as indicações. Começamos com dois ilustradores e uma assistente de arte, e estamos atualmente com 4 ilustradores na equipe. Quando o projeto começou, ainda não tínhamos alguém gerenciando e a equipe era relativamente nova. Como sou muito chato e critico, acabei ficando com a responsabilidade de gerenciar o projeto, o que é um desafio para mim, pois há anos trabalho apenas como autônomo.

Colecionador – Quais os grandes desafios envolvidos em redesenhar mitos folclóricos cujas imagens estão tão fixas na nossa cabeça?
Rafael Pen –
Vencer paradigmas estabelecidos. Nossa proposta é, assim como os criadores de God of War fizerem, reinventar, pegar uma ideia e jogar ela ao absurdo. Temos uma equipe competente e criativa, estamos lidando com as principais lendas de uma forma “especial”. Não é simplesmente desenhar bem e fazer um monstro: uma releitura deve ser cuidadosa e ter detalhes e características da lenda, mesmo que de forma lúdica.

Colecionador – Buscando essa roupagem mais adulta, o jogo deixa de lado aquela ideia de folclore ligado apenas ao infantil. Qual a importância disso para manter nossos mitos vivos no imaginário brasileiro?
Rafael Pen –
A maior referência do brasileiro no que diz respeito a folclore é Monteiro Lobato, mas aos poucos tudo relacionado ao sítio ficou muito infantilizado. O Sítio do Pica-Pau Amarelo e seus personagens são muito icônicos, e para alguns pode ser até uma afronta o que estamos fazendo.

O folclore, porém, é feito de histórias feitas para dar medo nas pessoas. Você pensava duas vezes antes de passar em algum lugar e nem dormia direito porque o avô contou uma bela historia de lobisomem. É isso o que queremos resgatar, um pouco desse medo, desse teor “adulto” nas histórias e trazer mais das raízes do nosso cenário para as pessoas. Algo mais “Irmãos Grimm”. Nosso folclore pode ser tão imponente quanto uma mitologia grega, romana ou a mitologia asiática, basta encará-lo com seriedade.

k2sColecionador – E no caso do saci? Poderia destacar as escolhas que fez para o design? Não vemos, por exemplo, a carapuça – que se torna integrada ao corpo da criatura. E no desenho que acompanha o jogo, o saci parece se mover com impulsionando-se com as mãos, e não saltitando.
Rafael Pen –
O nosso Saci é um dos mais marcantes: tomamos a descrição dele e pensamos que, ao invés de um menino negro, que não tem uma das pernas, fuma um cachimbo e tem um gorro, poderíamos transformá-lo em um ser monstruoso. Ao invés de faltar uma perna, ele sempre teve apenas uma e toda a sua estrutura funciona em torno disso. Ele tem uma cabeça longa que serve de sustentação para o corpo, mas de longe se assemelha a um “gorro”; e exala fumaça o tempo todo, dando a sensação que está sempre fumando. Dessa epifania começamos a esboçar um novo Saci.

Os braços são desproporcionais e auxiliam no momento de se locomover (como um gorila, por exemplo). Ele tem a corrida feroz, utiliza a perna para longos impulsos e os braços colaboram para a “aterrissagem” (ele não voa, calma). As reações das pessoas são engraçadas, elas não falam nada quando você apresenta a criatura como o “Saci”, mas aos poucos vão olhando e dizem “ei, isso ficou legal, diferente”.

Colecionador – Gostaria de destacar outras soluções diferentes para nossos monstros folclóricos?
Rafael Pen –
Aos poucos estamos liberando novas artes no nosso site. Uma personagem que marcou nosso “senso criativo” foi a Cuca: apresentamos ela na BGS. Nosso primeiro conceito foi um Jacaré gigante, animalesco, com adornos de bruxa. Ficou interessante, mas como queríamos resgatar a lenda original, jogamos fora esse conceito e partimos para algo mais pesado: uma bruxa necromante, com crânios e pedaços de lagarto (um jacaré talvez) costurados ao seu corpo e um cajado de apanhador de sonhos na extremidade. Ficou muito mais interessante.

Colecionador – Qual foi o mais desafiador? E qual o que mais gostou de fazer?
Rafael Pen –
Cada um tem sua peculiaridade. O que mais gostei até agora com certeza foi o Saci, ele é uma referencia para nós de criatividade e qualidade de trabalho. Gostaríamos de tratar todos assim, com essa naturalidade que o Saci teve, mas nem sempre é possível chegar ao resultado que se quer.

Até o momento o mais desafiador, com certeza, foi o Caboclo D’Água. Não conseguia chegar a um resultado satisfatório, por mais que me esforçasse, mas depois de muito rabiscar, finalmente chegando a uma arte acreditamos que representa bem a personagem.

Colecionador – Foi preciso algum redesign na hora de passar os concepts para a programação do game?
Rafael Pen –
Sim, infelizmente foi. Nosso jogo é para plataforma Mobile, e temos muitos personagens para trabalhar: os do folclore e os personagens novos que criamos para fazer parte da série. Temos que fazer um jogo que seja bonito, divertido e na medida do possível leve. Infelizmente temos que dosar o nível de detalhes do personagem 3D final em relação ao concept. Mas acreditamos que o game pode ter um sucesso significativo, o que pode nos abrir portas para trabalhar em um novo game para plataformas mais potentes e explorar todo o potencial gráfico que queremos atingir.

 

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2 Respostas para “[Entrevista] Rafael Pen, ilustrador do game KriaturaZ

  1. Deixa Monteiro Lobato saber a “extrangeirização” que fizeram com o nosso Saci, de um menino levado para um ser medonho de Mortal Kombat

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  2. Conheci o game apresentado pelo Rafael na BGS 2015, e o jogo me agradou, tanto pelas as ideias abordadas que são excelentes quanto pelo enredo apresentado. Enfim, parabéns aos produtores e aguardo ansiosamente! Alias, aos que criticam o enredo e personagens…. só lamentos e choros por não terem pensado nisso antes 😉

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