Lendas do Sul – Artistas lançam novos olhares sobre o imaginário gaúcho

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A boiguaçu se transforma em boitatá após devorar os olhos dos animais mortos no dilúvio. Arte de Pedro Fanti

Por Andriolli Costa

Há cem anos passados, em 1916, morria na miséria em Pelotas o escritor João Simões Lopes Neto. Como legado, reconhecido apenas postumamente, deixou em obras como Contos Gauchescos e Cancioneiro Guasca as bases para a literatura regionalista do Rio Grande do Sul. Mais do que isso, em Lendas do Sul – livro publicado em 1913 – fixou em texto o imaginário da formação mitológica do próprio povo gaúcho.

Se coube ao escritor a difícil tarefa de capturar nas letras as imagens que habitavam a tradição oral dos pampas, um grupo composto por 21 artistas contemporâneos assumiu para si a tarefa contrária: transformar de novo em imagem a força das palavras. O resultado foi apresentado neste último sábado, 29 de outubro, durante o lançamento da exposição Ilustrando Lendas do Sul. 

Paula Mastroberti, curadora do projeto e professora do Instituto de Artes da UFRGS, explica que a exposição surgiu como resultado de um curso de extensão em Ilustração e Livro-arte, criado para celebrar o assim chamado biênio simoniano, que concentra as homenagens ao nascimento e morte de Simões Lopes Neto. Os selecionados, dentre os mais de 50 inscritos, passaram por quatro meses de imersão na obra, período no qual uniram seu próprio repertório às referências trazidas pelo autor, produzindo obras únicas e cheias de significado. O objetivo final é uma publicação impressa, em parceria com o Instituto Estadual do Livro, que já está no prelo.

Lendas do Sul – Passado e Presente

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No processo de produção, os artistas puderam lançar seus próprios olhares sobre as bases da cultura popular gaúcha. Mas qual afinal é a importância de olhar para este passado mítico? “Mitos e lendas são nossas narrativa mais ancestrais, nossa primeira forma de pensar cientificamente o mundo, de tentar compreender os mistérios do universo”, reflete Paula. “Não consigo compreender o desprezo por essas histórias. Quem pensa assim está muito mal informado”.

Entre os artistas, a visão é semelhante. “Tratar dessas narrativas nunca é um olhar para trás, a gente sente na pele”, relata a ilustradora Yasmine Maggi. Foi isso que a jovem experienciou ao ilustrar dois momentos da lenda de Sepé Tiaraju, líder indígena da fronteira com o Uruguai que resistiu o quanto pode às investidas do exército espanhol. Uma das telas mostra o cotidiano de uma aldeia Guarani, na outra, a investida violenta das tropas – não de soldados do Rei da Espanha, mas da polícia montada brasileira. “O texto me remeteu a essa relação direta de violência e extermínio que persiste até hoje. Isso não é coisa do passado”, sentencia.

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Pâmela Viana e o Negrinho do Pastoreio (Foto: Andriolli Costa)

Outra lenda bastante conhecida no folclore gaúcho – também repleta de imagens de violência e poder – é a do Negrinho do Pastoreio. A história fala sobre um menino escravo, “preto como carvão” e que nem mesmo tinha nome próprio – só o chamavam Negrinho. Coube a ilustradora Pâmela Zorn Viana retratar dois momentos chave desta lenda: o castigo e a morte do menino. “Essa é a história que eu mais ouvia quando criança, e a que mais me chocava. Não conseguimos nos desvincular totalmente de algo que fez parte de nossa formação”, relembra ela.

O choque não é despropositado. Na narrativa, após perder o cavalo baio de um estancieiro, o menino é obrigado a sair de casa apenas com uma vela na mão e não retornar até encontrar o animal. São 30 dias vagando pelos pagos até finalmente encontrar o baio. No entanto, o filho do estancieiro sabota o Negrinho e liberta o cavalo. Como castigo, o fazendeiro chicoteia o garoto furiosamente, e larga seu corpo mirrado sob um formigueiro para ser devorado.

Pâmela relata que na primeira tela, quis representar a solidão do menino – apenas ele e a vela na escuridão da noite, com a chama desenhando a sombra de sua magreza. Na segunda, o rosto de sofrimento do Negrinho compõe o segundo plano, numa imagem marcada pelo vermelho do sangue e pelo rastro dos insetos.

Como pensar na lenda do Negrinho do Pastoreio e não a reconhecer nos casos dos justiceiros “cidadãos de bem de alguns anos atrás,quando pretos e pobres eram espancados, presos em postes e até mesmo amarrados em formigueiros por suspeita de crimes nem sempre cometidos? Violência, poder, raça, classe. Tudo isso está no lendário.

Novas Referências

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Graça Craidy troca olhares com seu saci (Foto: Andriolli Costa)

Ao longo do curso, os artistas produziram diversas telas inspiradas nos mitos e lendas da obra original. Para a exposição, no entanto, cada um preparou duas, escolhidas de acordo com o interesse de cada ilustrador. “Não fui eu quem escolhi o saci, foi ele que me escolheu”, relata a artista plástica Graça Craidy. Tido como um dos mitos mais conhecidos do Brasil, o texto de Simões Lopes Neto sobre o duende tem pouco mais de dois parágrafos. Ainda assim, traz informações riquíssimas.

“No conto ele diz que o saci pode ser perneta, mas que também pode ter as duas pernas só que com os joelhos furados“, aponta Graça. “E o gorro do saci não é de tecido, mas todo feito de flor de corticeira, que o autor chama de marrequinha“.

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Sketch do saci de Graça

Na primeira versão, Graça desenhou várias marrequinhas junto ao duende. No entanto, por sugestão da professora – Paula Mastroberti – acabou refazendo o desenho. Para tanto, buscou construir um saci diferente do que havia visto. Nada parecido com o de Ziraldo, nem com o de Lobato. Queria um saci que não fosse um moleque, mas também não algo assustador. Focou então nos olhos, que miram indiscretamente o observador.

“Ele, de certa forma, é um investigador de almas. Olha fundo nas pessoas, quer descobrir qual é a de cada um”. Graça não sabia, mas uma das possíveis origens para o nome do Saci, Çaa Cy Perereg, é tupi para olho mau saltitante. Mas para ela o saci não tem nada de mau. “Ele é um bon vivant, está aqui a passeio, para trazer o bom-humor para as pessoas”.

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Anhangá-Pitã sopra seu feitiço

Camila de Andrade também buscou retratar as lendas de acordo com seu estilo. Foi o que fez com a Salamanca do Jarau, a maior de todas as apresentadas no livro e que justamente por isso foi dividida entre diversos autores. Na lenda, conhecemos a história da Teiniaguá – uma fada ancestral, princesa moura que fugiu para o Brasil onde foi encantada pelo “diabo” e transformada em um lagarto com uma pedra mágica na testa. Quem a encontrar, terá todos os seus desejos realizados.

“As traduções da época usavam a palavra diabo para descrever Anhangá-Pitã. Por isso, na primeira versão que fiz, ele era quase um ogro“, relata Camila, que ainda visualizava o ser como um Oni japonês. Mais tarde, ao pesquisar mais referências sobre a obra, percebeu que a interpretação mais correta não seria diabo ou demônio, mas espírito. Espírito Vermelho.

“Simões Lopes Neto diz que Anhangá transforma o condão da princesa em pedra. Mas o que é o condão? Pensamos em varinha, mas não necessariamente”. É essa pedra mágica que seria responsável pelo poder, transformando seu corpo e mente. Na arte, a beleza exótica da feiticeira se une as escamas da criatura na qual ela está em vias de se transformar.

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Camila de Andrade trouxe referências de mangá para a Salamanca do Jarau

Leandro Scholant acompanhou a lenda em outro momento: a execução do vigário, o primeiro a encontrar a teiniaguá, por quem se apaixonou perdidamente. “Essa lenda sempre me chamou atenção por trabalhar essa culpa religiosa como tradição advinda da América Espanhola. É algo que faz muito parte da identidade daquilo que é a região Sul”, reflete.

Tendo capturado a criatura, o vigário poderia pedir o que quisesse. Mas é seduzido por ela com a promessa de amor. “Serás ligado ao meu flanco, para, quando quebrado o encantamento, do sangue de nós ambos nascer uma nova gente, guapa e sábia, que nunca mais será vencida, porque terá todas as riquezas que eu sei e as que tu lhe carrearás por via dessas!“, escreve o autor. Ao final, vigário e princesa se transformam em um casal de índios charrua que partem para dar origem ao povo do Rio Grande do Sul.

A lenda é uma das mais representativas do estado, revisitada nas mais diversas obras justamente por esta visão étnica da formação da região a partir de um tempo mítico que muito diz sobre a identidade local. O folclore, afinal, é resultado da união e do sincretismo de diversas culturas que formaram a identidade de um povo, e isso transparece mesmo nos relatos lendários. No entanto, é preciso sempre tomar cuidado com os intérpretes. Prova disso é a nota introdutória de Lendas do Sul, publicada em 2012 pela editora Dracena:

“Esta mitologia [Gaúcha]  vem da Espanha, misturando-se com a ingênua e confusa tradição guarani, junto aos abusos e misticismos das referências cristãs árabes cercadas de encantamentos e milagres”

Essas trocas culturais jamais se deram de maneira pacífica e desinteressada, mas sim como fruto de ações de dominação. Dominação esta que permanece até hoje, ao ver a cultura do outro com mirada superior. É tendo consciência destes tensionamentos e rupturas que vamos conseguir compreender essas narrativas não mais no texto, mas a flor da pele.

Serviço:

A exposição Ilustrando Lendas do Sul está no mezanino do prédio esquerdo da Casa de Cultura Mário Quintana. A visitação segue até 4 de dezembro, de terça a sexta-feira, das 9h às 19h. Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h.

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