O Folclore e o Cu – A anatomia dos mitos para além dos memes do “Chupa Cu de Goianinha”

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Print do perfil fake @NoticiassUOL, já excluído.

Por Andriolli Costa

No dia 22 de outubro de 2017 uma conta falsa no Twitter, mimetizando o perfil do @UOLNoticias publicou a chamada de que um “chupa-cu voador” teria aparecido em Manaus – levando a um novo nível a piada que já tanto circulou pelas redes em fevereiro deste ano. O link levava para um notícia qualquer do site real do UOL, mas ele era o de menos importante. Prints da página como este de cima espalharam a brincadeira. E aí estava feito.

Fico extremamente frustrado quando vejo pessoas que compartilham a sério textos sobre o “chupa cu de goianinha” como se ele fosse uma lenda contemporânea, surgida a partir da internet. Não é. Chupa Cu é uma piada criada por um perfil auto-declarado humorístico,  compartilhada e espalhada na forma de meme – alcançando assim a massa. E massa e povo, de onde vem o “folk”, são coisas muito diferentes.

Não me entendam mal, não estou querendo “censurar” ou “problematizar” a piada, só pontuando o lugar de cada coisa. Enquanto for tratada como graça, vá lá, mas não misturaremos alhos com bugalhos. Câmara Cascudo já lembrava: “tudo que é folclórico é popular, mas nem tudo que é popular pode ser considerado folclórico”.

Compreendo que muitos compartilham só pelo insólito da brincadeira, mas quem realmente se admira com o caso costuma mencioná-lo como paralelo os casos do Slenderman, criatura que surgiu em postagens de fóruns, ou, num exemplo mais brasileiro, o da Perna Cabeluda – que surgiu de um boato espalhado por um programa de rádio no Recife. Mitos surgidos a partir das relações midiáticas. Veremos porque não é nenhum dos casos.

Vamos explorar também as relações anatômicas do folclore, refletindo sobre suas implicações simbólicas. Motivos que vão para muito além do que a memética é capaz de alcançar.

Folclore, humor e sexo

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Kurupi sequestrando uma mulher

Quando questionamos o lugar do chupa-cu, não queremos defender a sisudez no folclore. Longe disso. Piadas de papagaio e Joãozinho, das mais besteirentas, já pertencem ao domínio folclórico. Marchinhas de carnaval cheias de duplo sentido também. Referências sexuais nada ortodoxas não são igualmente nenhum impeditivo: em Portugal é muito conhecido um prato chamado Caralhinho de São Gonçalo, no qual o santo casamenteiro é homenageado com um doce na forma de pênis. Não é este o problema.

Podemos investigar também no âmbito do mito, onde imagens ancestrais se comunicam na forma de criaturas que desvendam a experiência humana. Em algumas versões do Curupira, colhidas por Barbosa Rodrigues, a criatura testa a firmeza das árvores da Amazônia batendo com seu cajado; em outras com seu próprio pênis. Parece ridículo? As ligações simbólicas entre o falo, a árvore e o cajado não são gratuitas.

Entre os Guarani, temos um mito correlato, o Kurupi. A criatura tem um pênis gigantesco, que chega a deixar amarrado na cintura. Com ele laça e estupra aqueles que se perdem na mata. Tamanho do pênis também faz ligação no estudo mitológico com a distinção natureza x cultura e um falo desproporcional deixa claro para onde pende a imagem neste binômio.

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A morte do Diabo sem Cu – Feliciano Lana

Assim como o pênis, o ânus também é constante no imaginário mitológico. Pensemos, por exemplo, em uma narrativa indígena que circulou bastante em 2016 pelas redes sociais, na forma de deboche: o mito do diabo sem cu.

A história, publicada no site do Museu da Amazônia, foi narrada por Guilherme e Higino Pimentel Tenório, da etnia Tuyuka, e ilustrada por Feliciano Lana, da etnia Desana. Nela, o protagonista, Wasu vivia sozinho com seu primo, o Diabo sem Cu. Um dia, Wasu descobre que o parente escondia na casa uma mulher, e começa a armar uma forma de matar o companheiro.

Certa vez, os dois vão ao rio e Wasu começa a defecar. O Diabo sem Cu se surpreende com aquilo, explica que não possui anus, mas que defeca perto da garganta. Wasu se oferece para “ajudá-lo” e terminar por empalar e matar o primo com uma lança. Das tripas do parente que caem no rio surgem os peixes sarapó – que também possuem o ânus próximo da boca.

É sempre desafiador trabalhar com fontes secundárias no que diz respeito a narrativa indígena. Isto porque a tradução já não favorece a comunicação das imagens (haja vista o uso do termo “diabo”, que vem de um jogo de associações cristão imposto sobre os espíritos ou seres fantásticos indígenas desde a colonização). Ainda assim, fica evidente a relação de mito de origem da narrativa.

 

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Peixes que nasceram das tripas do diabo sem cu – Feliciano Lana

Claude Lévi-Strauss, em A Oleira Ciumenta, investiga diversos mitos caracterizados pela falta de ânus. Os exemplos são plurais, dependendo de cada povo. De tapires, preguiças e tamanduás (tidos como animais que comem pouco ou nada, por isso dispensam ânus) até duendes bolivianos, colombianos que se alimentavam do cheiro dos alimentos, de fumaça, de terra ou vento. Alguns dos monstros estão sempre com fome, pois mesmo comendo, por não terem ânus e nem intestino, não absorvem nada e estão em constante devoração. Outros, se comerem algo que não espiritual, acabam explodindo. Percebam, portanto, que a falta de ânus está ligada ao que alimenta cada mito.

Mídia e Folclore

bb740f57b8fd1979a46b4da851c8cb45144Por que a piada do Chupa Cu não poderia entrar no âmbito folclórico, então? Mais uma vez recorremos a Cascudo: falta-lhe Tempo. Uma das mais importantes características essenciais de um fato folclórico é a Persistência – sua capacidade de comunicar tão fortemente com a sociedade ou com um grupo social que o elemento descola de certa maneira de seu tempo para entrar no imaginário (que é sempre coletivo), transformando-se para ser sempre presente, ainda que com as marcas do passado.

Memes são do instante, pertencem a cibercultura. Tratados de maneira coletiva tem seu lugar na comunicação humana, dizem de uma certa identidade (esta da hiperconexão) mas são esvaziados de sentido. Não tem pregnância simbólica.

É um erro comparar o caso com o da Perna Cabeluda no Recife, por exemplo. A lenda foi criada a partir de um boato espalhado pelo radialista Jota Ferreira na década de 1970, mas só ganhou o status popular quando sua narrativa foi apropriada pelo povo e a autoria se perdeu. Além disso, a perna – que ataca os bêbados durante a noite – ecoa uma série de mitos correlatos que também atacam os notívagos ao longo da história do mundo (como a própria porca dos sete leitões). Percebam então que a criatura é instituída de uma função social, a da regulação das relações conjugais e da vadiagem noturna.

O mesmo acontece no caso do Slenderman. A criatura misteriosa, de rosto sempre oculto, criado por um usuário de fórum no ano de 2009. Em pouco tempo a narrativa se espalhou e pessoas começaram a sonhar com a criatura. Dizem inclusive que sua influência serviu de motivo para crimes – uma afirmação que é sempre bom levar com um pouco de dúvida. Ocorre que Slenderman ecoa, por sua vez, mitos do Outro misterioso. Seres sem rosto ou voz (sem motivos ou identidade) prontos para cometer terríveis ações. São devoradores de alma, como propõe Pablo de Assis em seu podcast Horroes Urbanos.

Perna Cabeluda era mais uma forma para uma ideia já em operação. Slenderman também. Chupa Cu é só uma piada, e bastante duvidosa.

Desgosto dela em particular por conta de sua repercussão. A sua suposta graça está em debochar das crenças populares, levando-as ao extremo do ridículo (a começar pelo nome do monstro). Isso sem falar que o local das aparições indicados pelo meme é sempre longe dos “grandes centros”: Goianinha/RN e Manaus. Nos comentários de quem não discerne a piada do real, só vejo o reforço de algo que insisto tanto em evitar: a ligação entre Folclore e ingenuidade, “ignorância”, vida interiorana e assim por diante.

Folclore não está lá, está aqui. Faz parte de nós. Mitos não são historinhas, são rastros da experiência humana. Memes são formas de comunicação pós-moderna. Piadas que podem carregar muitas coisas com elas: de críticas políticas ao preconceito. São formas válidas, mas cada coisa em seu lugar.

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