[Resenha] Nuá – Músicas dos Mitos Brasileiros

26781459_1618913171498463_1639705921_o

Por Andriolli Costa

Nuá – Música dos Mitos Brasileiros (ed. Vai Ouvindo, 2009) foi o trabalho pelo qual conheci Paulo Freire e passei a acompanhar seu trabalho como violeiro e divulgador da cultura popular brasileira. Trata-se de um livro de contos, ilustrado por Kiko Farkas, que acompanha ainda um CD com trilhas originais para cada uma das histórias narradas. As melodias já estão há tempos disponíveis na internet, seja pelo Youtube ou pelo Spotify, mas o livro mesmo só consegui ter em mãos esta semana. E foi uma grata surpresa!

Se em Jurupari a narrativa longa não favoreceu completamente a voz autoral de Paulo Freire, em Nuá encontramos seu formato ideal. Os contos episódicos bem ao estilo dos abusões  da literatura oral condensam a ação, o que faz a brevidade da descrição se incorporar à proposta. Também não há muito espaço para outros personagens, e acabamos nos centrando na voz e no pensamento do Eu Lírico do violeiro – que é muito mais sincera e interessante, diga-se de passagem.

26173015_938797429609056_6408924688788747185_o.jpg

Cobra que mama, por Kiko Farkas

No total temos 12 contos distribuídos ao longo de 50 páginas e em todos eles o violeiro se coloca seja enquanto protagonista, aquele que enfrenta os mitos, seja como expectador ou sujeito que sofre a influência do fantástico. É o que se mostra no conto que dá nome ao livro, quando o pajé Nuá precisou salvar os seres vivos do dilúvio. Nuá transformou todos os bichos terrestres – inclusive seres humanos – em outros animais que pudessem esperar no céu até as águas abaixarem e a noite ir embora.

Quando o dia nasceu, era tanta afobação para voltar para a terra que Nuá acabou se confundindo e transformando bichos em outras coisas. A família de Paulo virou toda em taturana, conta ele, e só depois de muita conversa conseguiram voltar a ser gente. Por outro lado, teve humano que gostou tanto de ser bicho que fugiu da vista de Nuá para continuar despreocupado na natureza. É por isso que tem tanta gente que preferiu virar macaco, “num autentico caso de evolução da espécie”.

Adoro encontrar no texto de Paulo Freire as marcas da cultura popular que vão para muito além dos mitos, mas que se plasmam em modos de sentir, pensar e agir. O lobisomem, por exemplo, precisa beber sangue durante a noite pois tem menos dentro do corpo e precisa “equilibrar os líquidos“. Desde Galeno (130 d.C) o povo conhece a teoria de que é preciso parear os quatro humores (sangue, fleuma, bile amarela e negra), e é possível encontrar essa referência em várias passagens do folclore brasileiro.

Outro pensamento bastante recorrente, haja visto sua presença inclusive na homeopatia, é a ideia de que “o semelhante cura o semelhante“. Encontramos essa referência em Nuá na resposta que uma cigana oferece para o violeiro se livrar do abraço invisível de uma assombração recorrente: Para aquilo que assusta é preciso causar um medo maior. A solução não é definitiva, e a estratégia precisou mudar para uma outra tática comum aos contos populares: a eufemização. A esganadura sufocante virou um “abracinho gostoso” no discurso do violeiro, até que realmente as mãos relaxaram e trouxeram o aconchego.

Curupira

Curupira, por Kiko Farkas

É especialmente interessante encontrar na narrativa de Paulo Freire uma dimensão que falta em muita narrativa contemporânea inspirada na cultura popular brasileira: a da sexualidade. Ou, como bem descreve a antropóloga Betty Mindlin em sua apresentação do livro, a safadeza. A escatologia não é escondida, cheiros, chamegos e carícias sexuais também.

O curupira não tem ânus, mas tem um pênis tão monstruoso que o usa tanto para bater nas árvores – verificando se estão firmes – quanto para espancar (ou estuprar) quem derruba a mata. O diabo violeiro passa cantando e deixando apaixonado o mulherio – que mesmo vendo seus chifres e pés de pato, continuam suspirando de saudade suas.

Em uma viagem de barco, a Mão de Cabelo, uma assombração que arranca o pênis dos meninos que fazem xixi na cama, mexendo em seu “biliu”. Paulo prefere fechar os olhos e deixar o mexido ir se desenvolvendo, para “deixar a mão trabalhar e aproveitar o veneno dessa alma boa”. Nada mais brasileiro que isso!

Nota: 5/5

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s