“Eu queria que fosse uma coisa anárquica”: Mouzar Benedito relembra a criação da Sociedade dos Observadores de Saci

Escritor, jornalista e fundador da Sociedade dos Observadores de Saci recorda as viagens pelo Brasil, a atuação na imprensa alternativa e as histórias que aprendeu a ouvir desde criança

Antes de estudar Geografia e Jornalismo, Mouzar Benedito encontrou na barbearia do pai, em Nova Resende, no sul de Minas Gerais, uma de suas primeiras escolas de escuta. Enquanto trabalhava como engraxate, ouvia tropeiros, trabalhadores rurais, médicos e advogados. “Eles acham que criança é besta, né? Não entende nada. Mas eu ficava ouvindo tudo aquilo lá e gravando na minha cabeça”, conta.

O gosto pela escuta acompanhou as viagens de carona, trem e barco que fez pelo Brasil. Também atravessou o trabalho com artesãos, a militância na imprensa alternativa e a escrita de causos, romances e perfis biográficos. Na conversa com Andriolli Costa, as lembranças dos encontros pelo caminho se misturam ao humor com que Mouzar narra até os momentos de perseguição durante a ditadura.

Sócio-fundador da Sociedade dos Observadores de Saci, a Sosaci, ele relembra a criação da entidade em São Luiz do Paraitinga, o trabalho com José Luiz Ohi e a defesa do imaginário brasileiro. Entre uma história e outra, explica por que inclui entre os pontos mais gloriosos do currículo a fundação da sociedade e a participação como jurado de um festival de cachaça.

A entrevista foi publicada em 17 de maio de 2019 no episódio 41 do podcast Poranduba — Vida Folclórica: Mouzar Benedito. As referências à conjuntura política indicam que a gravação ocorreu antes da posse de Jair Bolsonaro, provavelmente no fim de 2018. Idades, preços, quantidade de livros publicados e projetos em andamento correspondem ao momento da conversa.

Nota da edição: o texto foi preparado a partir da transcrição fornecida, sem conferência com o áudio. Foram ajustadas a pontuação e a grafia de nomes identificáveis, com cortes de hesitações mecânicas e intervenções breves de acompanhamento. A sequência da conversa, o vocabulário, o humor e as repetições expressivas foram preservados. Supressões de trechos pouco claros estão indicadas por […]. As notas factuais são da edição e não integram as falas. Os causos e as memórias pessoais permanecem como relatos do entrevistado.

Andriolli Costa — Hoje eu tenho o prazer de estar aqui com o Mouzar Benedito. O Mouzar que é sócio-fundador da Sosaci, jurado de concurso de cachaça, já trabalhou montando o Museu da Cultura Popular Brasileira e mais 27 profissões que ele me falou que já exerceu ao longo de todos esses anos de vida. Então hoje o papo é sobre a vida do Mouzar, não teria como ser diferente. Mouzar, muito obrigado por estar aqui com a gente.

Mouzar Benedito — Eu agradeço você aí pela oportunidade.

Andriolli Costa — Eu queria começar perguntando as suas origens. De onde você é? Onde você nasceu?

Mouzar Benedito — Eu nasci numa cidadezinha chamada Nova Resende, no sul de Minas. As pessoas, quando eu falava que era de Nova Resende, algumas falavam: “Ah, já passei por lá”. Eu já falava: “Você é mentiroso”. Porque lá não é passagem pra lugar nenhum. É um fim de linha no alto de uma serra lá, né?

Meu pai era agricultor, roceiro, sem terra. Não tinha terra, não. Era trabalhador braçal. Minha mãe era professora rural e eles tiveram dez filhos. Eu sou o sexto… O quinto, eu sou o quinto, o primeiro a nascer na cidade. Que não era tão cidade assim, né? A gente tinha dois mil habitantes na cidade nessa época. Mas já tinha cinema, tinha tudo isso. E lá eu vivi até os 16 anos.

É uma cidade que só tinha curso primário. A gente construiu o ginásio, nós mesmos construímos o ginásio lá. Um padre liderou a construção do ginásio, nós mesmos, estudantes, construímos e tudo. Aí, quando terminei o ginásio, não tinha mais o que fazer lá. Tinha que trabalhar e estudar. Fiquei um ano mais lá, até inteirar 16 anos. Aí me mandei pra São Paulo, pra aventurar aqui.

Andriolli Costa — Hoje você tem quantos anos?

Mouzar Benedito — 72. Fiz um dia desses.

Andriolli Costa — O que você mais se lembra dessa sua época em Nova Resende?

Mouzar Benedito — Lá é gozado, a importância é enorme, porque toda a minha base cultural começou ali. Entendeu? Meus livros, tudo tem muito a ver com Nova Resende. Tanto que o último romance que escrevi chama O mistério do obelisco, é narrado por uma criança de sete anos, em 1954, lá. Dentro daquele lugar que não chegava nada.

Uma coisa que eu sempre lembro é que eu não conhecia mapa.

Andriolli Costa — Mapa?

Mouzar Benedito — Mapa. Porque não tinha mapa em casa nenhuma. Quando entrei na escola é que conheci o mapa. Eu achei fantástico aquilo lá. Como pode um troço que representa cada lugar? Eu ia olhar lá: “Aqui, ó, Muzambinho, Guaxupé”, não sei o quê. E o mapa do Brasil e tudo. Comecei a ficar fascinado pelo mapa, mas não tinha onde ver, só tinha na escola.

Aí descobri que na coletoria, que é a atual Receita Federal, né? Antigamente tinha posto da coletoria em toda cidade. E lá em Nova Resende tinha a coletoria. Fui lá, tinha um mapa de Minas Gerais, eu ficava namorando aquele mapa, os nomes das cidades. Olha aqui: Grão Mogol, Mar de Espanha… […] Querendo conhecer tudo aquilo. Aí, quando eu vi o mapa do Brasil um dia, num outro lugar, falei: “Vou conhecer todos os estados brasileiros”. Fiz como meta de vida: eu vou viajar por aqui tudo. E persegui isso.

Uma cidadezinha que todo mundo criava porco no quintal. Vivia roubando frutas nas hortas, depois, como adolescente, roubando frango pra comer de madrugada, tomando cachaça direto desde criança.

Andriolli Costa — Cachaça com café?

Mouzar Benedito — Não, cachaça pura. Com leite eu tomava… O leite eu só aceitava com conhaque, desde bebê, né? E aí foi.

Então, aos sete anos comecei a trabalhar de engraxate na barbearia do meu pai, que meu pai era barbeiro. Isso teve uma importância muito grande pra mim. Na barbearia […] vinha todo mundo que tava à toa na cidade, todos os homens que tavam à toa. Lá não tinha centro social, não tinha nada. Qualquer homem que tava à toa chegava lá e ficava conversando.

Passava todo tipo de gente. Depois eu fui aprender a trabalhar de barbeiro também, quando já tava com 13 ou 14 anos. Um cara que eu […] fui aprender a trabalhar de barbeiro era um jagunço. Todo mundo sabia que todo mundo que morreu com tiro no gogó foi ele que matou. Ele andava com um 38 assim…

Andriolli Costa — Esse era bom de tiro, hein?

Mouzar Benedito — É. Foi um dos caras que eu aprendi a fazer barba, pra ser barbeiro também. O outro era um fiscal lá. […] Ali se comentava de tudo. Tinha os tropeiros que iam lá, os ex-tropeiros, já tudo velhinho, já substituídos pelo trem, pelos caminhões. Eles contavam história de tropa. Então tenho um livro, um romance sobre tropeiros, baseado nisso que eu ouvi lá também.

Tinha o médico da cidade, vinha lá, comentava sobre os problemas de saúde do mundo. […] O juiz de direito que tinha lá, o advogado, falava das questões ali. Os roceiros, o fazendeiro falava do preço do café que estava baixo, o empregado do roceiro reclamava do patrão. Então é uma universidade.

Meu irmão mais velho, que era barbeiro, quando mudou pra São Paulo, todo mundo achou que ele tinha curso universitário. Ele tinha curso primário. Porque era ali, só de saber ouvir. E eu era criança, desde os sete anos ali na barbearia ouvindo aquele pessoal. Eles acham que criança é besta, né? Não entende nada. Mas eu ficava ouvindo tudo aquilo lá e gravando na minha cabeça. Aquilo lá foi uma escola pra mim, realmente.

Foi uma escola, já uma universidade. Antes de fazer o curso ginasial, eu já tinha o curso universitário.

Andriolli Costa — Isso é incrível, porque a gente já começa dando esse valor que muita gente não dá à escuta, né? […] A gente tem muito essa ideia de que o grande saber tá na universidade, mas o saber tá nessa experiência que era transmitida pelos narradores, os tropeiros, as pessoas que tavam ali convivendo com você.

Mouzar Benedito — Sim, e era uma coisa interessante. A gente ouvia cada história fantástica. Por exemplo, o Ary Barroso, quando se formou em Direito, foi nomeado juiz de Nova Resende. Mas não ficou lá porque tinha tiroteio na praça. Não quis ficar, foi pro Rio de Janeiro. Eu falo: se ele tivesse ficado em Nova Resende…

Andriolli Costa — Tinha morrido já.

Mouzar Benedito — Não. Se Nova Resende fosse uma cidadezinha pacífica, bonitinha, não sei o quê, o que ele ia compor? O hino da cidade, né? Não existia Aquarela do Brasil, nem No tabuleiro da baiana, nem nada disso. Ele tinha ficado lá. Mas se mandou de lá pra Poços de Caldas, pra tocar num cassino, e de lá pro Rio de Janeiro.

Então tinha essas coisas. E, ao mesmo tempo, é gozado: a mulher do Villa-Lobos, o irmão dela casou com uma mulher de Nova Resende e morava lá. Ela passava férias e ensaiava um coral infantil lá. […] Tinha muito essas histórias, histórias fantásticas que eu gostava de ouvir e continuei gostando de ouvir.

Viajei por todo o Brasil ouvindo isso. Teve uma vantagem também: nesse tempo eu viajava de carona, ouvindo caminhoneiro, e gostava muito de viajar de trem. Aqueles trens vagarosos. Pra você ter ideia, uma vez fui de São Paulo a Uruguaiana de trem, dormindo, parando nos lugares. Gastei uma semana.

Uma vez fui de Belo Horizonte a Salvador, ouvindo aquele sertanejo e tal. De Fortaleza ao Crato também. Sem contar os vapores do rio São Francisco, que viajei várias vezes. Sete dias de viagem pra descer o rio, 12 dias pra subir. Você tá o tempo todo disponível.

No trem, por exemplo, eu tinha uma estratégia. Quando via algum velho assim, falava: “Aquele velho tem história. Vou conversar com ele”. Eu andava sempre com uma garrafa de pinga no embornal e duas canequinhas esmaltadas. Ia encostando, encostando, chegava no cara e tirava a garrafa de pinga, as duas canequinhas. Falava: “Ó, vou tomar uma cachaçinha, aceita um gole também?”. O cara sempre era educado e falava: “Não, muito obrigado”. Mas eu via que o cara queria. “Não, mas eu não gosto de beber sozinho. Aceita uma canequinha aqui.” “Então vai uma.”

Tomava uma, outra, tomava outra. Lá pela terceira canequinha já começava a contar história. Ele tava à toa, ia passar o dia inteiro. Puta, aí eu ouvia as histórias mais fantásticas. Minha cultura veio muito disso.

Andriolli Costa — Até aproveito pra te perguntar sobre a questão do tempo. Hoje as distâncias se encurtaram, mas a gente parece que tem cada vez menos tempo. Nessa época que você ficava uma semana viajando, não parecia que tinha o tempo do mundo?

Mouzar Benedito — Sim, e viajava com mochila nas costas, andava muito a pé, aquele negócio. E as pessoas não conversam mais. Tem também o próprio meio de transporte. Mesmo o trem-bala que estão pensando em colocar aqui, se algum dia tiver, eu não vou viajar nele. Porque o que era gostoso no trem é aquele ritmo que te dá tempo de conhecer as pessoas.

Parece que todo mundo que estava viajando de trem naquela época estava disposto a conversar. Eu arrumava namorada, essas coisas tudo, aprendia novas músicas e tal. Agora, imagina você levantar no ônibus e conversar com alguém. O cara vai achar ou que você é golpista ou que tá com intenções sexuais aí.

Andriolli Costa — É verdade, é verdade.

Mouzar Benedito — É difícil. Não tem volta no tempo, né? E os lugares que conheci, Canoa Quebrada quando era uma aldeia de pescadores, Porto Seguro, uma estradinha de terra, não tinha nem agência bancária, nem nada. Tinha uma pensão lá. Quem precisasse fazer qualquer coisa tinha que ir pra Eunápolis.

Andriolli Costa — Eunápolis?

Mouzar Benedito — É, que é uma cidade na beira da Rio–Bahia. Essas coisas não existem mais. Quem conheceu, conheceu. Quem não conheceu, não conhece mais. As viagens de trem, as viagens de vapor do São Francisco. No Amazonas ainda viajei recentemente. Fiz uma viagem de barco no Amazonas que foi divertida também, mas é raro.

Andriolli Costa — Você, quando escreve, tenta resgatar um pouco desse sentimento que tinha nas viagens?

Mouzar Benedito — Tento totalmente. Uma das coisas que tento fazer é não escrever com grandes preocupações literárias, de formas literárias. Minha grande preocupação é que as pessoas entendam o que tô escrevendo. As pessoas mais simples, inclusive. Que elas entendam e gostem.

E tem humor também, né? Porque sempre procuro ter humor. Mesmo nas tragédias, mesmo quando escrevo sobre a ditadura, sempre procurei pôr um pouco de humor no meio. Eu também sacaneei muito a ditadura. […] Mas o que pude eu fiz também, né?

Andriolli Costa — Então vamos lá: você olhava os mapas na infância, queria preencher aqueles mapas, viajar, conhecer os estados do Brasil todo. E conseguiu?

Mouzar Benedito — Consegui. Aliás, um dos lugares que eu falava: “Não, conhecia tudo menos Fernando de Noronha”. Porque lá era governo militar. Mas, logo que deixou de ser governado pelos militares, lá no fim do governo Sarney, ainda era território, fui lá como geógrafo trabalhar. E o último estado que conheci foi Tocantins, que foi o último a ser criado.

Conheci todos. Depois disso resolvi fazer um livro de causos tendo pelo menos um causo de cada estado do Brasil. Pelo menos um. Então tem um monte. Minas Gerais, São Paulo, Bahia têm um monte.

Andriolli Costa — Você se lembra do que escreveu sobre Mato Grosso do Sul, que é o meu estado?

Mouzar Benedito — Ai, deixa eu ver… Agora não tô lembrado, não. Mas Mato Grosso do Sul foi um estado que viajei muito com Aziz Ab’Sáber. A gente viajava dormindo debaixo de ponte ali. Quer dizer, nós dormíamos debaixo de ponte, ele e umas meninas… Porque tinha uma jardineira velha que a gente usava pra viajar. A gente chegou em Ponta Porã, pra viajar pra Pedro Juan Caballero e tal, estudando a mata seca, tudo. E o Aziz que era o nosso cozinheiro.

Pra você ver: ele era diretor do Departamento de Geografia da USP e cozinhava pros alunos. A gente gozando dele, brincando, enquanto ele cozinhava a gente dando uns mergulhos nos rios. Porque é sempre em beira de rio que parava pra fazer comida.

Andriolli Costa — Meu pai é geógrafo, né? Ele já trabalhava com textos de Aziz Ab’Sáber, eu me lembro. E, quando fui trabalhar na Unisinos, a gente chegou a entrevistar o Tales Ab’Sáber, que é o filho dele.

Mouzar Benedito — Foi um cara que conheci bem, fui aluno dele. No curso de Geografia da USP, a gente tinha que fazer no mínimo dez excursões de estudo pra receber o diploma. E ele era um dos caras que mais gostava de levar a gente pra conhecer tudo, Nordeste, tudo naquela jardineira velha, sem dinheiro nem nada. Comprava um saco de comida daqui pra ir cozinhando pelo caminho e ia fazendo isso.

Quem tinha dinheiro levava pra dormir num hotel, uma espelunca geralmente. Quem não tinha dinheiro dormia ou fora da jardineira ou dentro da jardineira, dependendo. Encostava em alguns lugares e pronto.

Andriolli Costa — Qual é a importância de viajar e conhecer esses outros Brasis? Pra você não ser um alienado que só pensa em São Paulo, só pensa nessas capitais, nesses grandes centros.

Mouzar Benedito — A importância é justamente contatar o povo, contatar o povo. A partir do momento em que comecei a namorar uma moça mais refinada, entre aspas, ficou difícil, porque ela não queria dormir nessas espeluncas. Você dormir num hotel três estrelas não vai conhecer gente que vai trazer novidade ali. Pode até acontecer, às vezes acontece.

Mas é essa coisa de ouvir, conhecer a cultura de cada um. Por exemplo, ouvir os causos, ouvir falar das assombrações que tem em cada lugar, os seres fantásticos que tem em cada lugar. Isso é muito enriquecedor.

Mouzar Benedito — Também, depois, fora dessa parte de viajar de carona, de trem, teve uma fase que já viajei com dinheiro, mas pelo Sesc.

Andriolli Costa — Como foi isso?

Mouzar Benedito — Eu tava pra ser demitido por motivo político.

Andriolli Costa — Demitido do Sesc?

Mouzar Benedito — Demitido do Sesc. Porque, quando trabalhava lá, comecei a fazer o curso de Jornalismo da Cásper Líbero. Era formado em Geografia, tinha estudado um pouco de chinês e tupi. Aí resolvi fazer o curso de Jornalismo, porque era o tempo da imprensa alternativa. Achei que o único jeito de combater a ditadura que podia ter, sem usar armas, era através do jornalismo e da imprensa alternativa.

Andriolli Costa — Que ano era isso?

Mouzar Benedito — Entrei na faculdade em 74, segundo semestre de 74. Logo em seguida, a gente fundou o jornal Versus, que era um puta jornal legal. O idealizador dele foi um gaúcho, Marcos Faerman, que era amigo do Galeano, se inspirou na Crisis, revista argentina. A gente fez um puta jornal bonito. Ao mesmo tempo comecei a colaborar no Pasquim também.

O presidente do Sesc de São Paulo, que era o José Papa Júnior, ligado aos homens da ditadura, tava pra me demitir. E arrumei encrenca também com um monte de gente de direita dentro do Sesc, tinha na época também.

Aí uma mulher lá que tava pensando em fazer uma Feira Nacional da Cultura Popular foi procurar quem entendia de cultura popular. Um amigo meu, por ser amigo, exagerou. Falou: “Não, o cara que mais conhece cultura popular no Brasil é o Mouzar”.

Andriolli Costa — No Brasil ainda!

Mouzar Benedito — No Brasil ainda, nem no Sesc. Aí ela: “Então tem que trazer esse cara pra cá”. Então, em vez de ser demitido, ela me levou pra trabalhar com ela nisso aí.

Andriolli Costa — Ela trabalhava pro Sesc?

Mouzar Benedito — Era uma das altas funcionárias do Sesc.

Andriolli Costa — E estava pensando em montar uma feira de artesanato brasileiro?

Mouzar Benedito — Não só de artesanato, cultura toda. Por exemplo, essa primeira feira que a gente fez, nós fizemos pesquisa pelo Brasil inteiro, ajudei a organizar. Do Nordeste já conhecia tudo, então só orientei umas pessoas que iam pra lá. Porque estava trabalhando na coordenação e na pesquisa também.

No Sul outras pessoas foram, e eu fiquei encarregado de fazer pesquisa no litoral de São Paulo todo, onde tinha muito artesão e muita música também. Fiz em Minas Gerais, Pará, Amazonas, Rondônia, Acre, Mato Grosso, que incluía Mato Grosso do Sul, e Goiás, que incluía o atual Tocantins. A gente foi ver artesão trabalhar.

Por exemplo, nessa pesquisa conheci a Cora Coralina, uma velhinha que tava começando a fazer poesia. Eu fiz uma primeira matéria sobre a Cora Coralina, publicada fora de Goiânia. Publiquei no jornal Movimento. O Antônio Poteiro, que era um poteiro…

Nota da edição: Cora Coralina escrevia desde a adolescência e publicou seu primeiro livro em 1965, antes das viagens narradas neste trecho. Veja o perfil da escritora publicado pela Ufes. Não foi possível identificar a reportagem mencionada no jornal Movimento.

Andriolli Costa — Movimento foi um grande jornal da imprensa alternativa também, né?

Mouzar Benedito — Foi, o Movimento teve uma importância enorme. Já nasceu censurado. Era uma encrenca publicar o Movimento.

Mas, nessa feira, pra você ter ideia: naquela época não tinha um negócio de sair fotografando com celular. Foto era coisa de profissional, era caro. Nós tiramos dez mil fotografias em branco e preto no Brasil inteiro, trabalho de artesão, 15 mil slides, pra fazer painéis, projeções e publicar em livros também.

Pra feira nós compramos, nesse primeiro ano, dez mil produtos artesanais pra revender a preço acessível aos comerciantes. E separamos 1.500 pra criar futuramente um Museu da Cultura Popular.

Andriolli Costa — Pra vocês verem como não era a época de hoje, que é tudo consignado. O artesão, coitado, fica lá esperando o dinheiro chegar, né?

Mouzar Benedito — Pois é. Você não tem ideia de como o Sesc funcionava, sem burocracia, uma coisa absurda. Quando cheguei lá: “Você vai pra Minas Gerais, Pará, Amazonas”, não sei o quê. Me deram 400 mil cruzeiros, assim, dinheiro. “Vocês estão doidos?” Quatrocentos mil cruzeiros é mais de um milhão de reais hoje em dia. “Vocês estão doidos, pra que eu vou viajar…?” “Não, precisa comprar artesanato.” E um bloquinho de recibos.

Falei: “Não, eu não posso fazer isso”. “Não, mas você tem que levar. Como vai comprar, pagar?” Aí fui no Banco do Brasil, troquei por cheque de viagem e ia trocando aos poucos. Chegava lá no artesão: “Quanto custa isso aqui?”. “É tanto.” O cara geralmente era analfabeto, eu preenchia o recibo, ele assinava e pronto.

Se quisesse ter ficado rico, eu tinha ficado. Rico não digo, mas podia ter embolsado metade dessa grana. Tenho um grande orgulho de não ter um centavo que tirei pra mim.

Nota da edição: a equivalência entre cruzeiros e reais é uma estimativa feita pelo entrevistado, não um cálculo de atualização monetária. Os totais de peças, fotografias e slides também são mantidos como parte de seu relato.

Andriolli Costa — Até porque não ia sair do Sesc, né? Ia sair do artesão que ia estar recebendo.

Mouzar Benedito — É. Uma coisa que fazia de vez em quando, quando achava muito injusto o preço que estava pagando, que era muito pouco, começava a falar: “Olha, isso que você está vendendo aqui pra sua região, as pessoas que moram aqui não podem pagar mais do que isso. Então está vendendo por um preço justo. Mas estou trabalhando com uma instituição em São Paulo que tem muito dinheiro. Posso te pagar um pouco mais”.

Por exemplo, aconteceu […] uma moringa maravilhosa. A mulher me pediu 17. Falei: “Cacete”. Dezessete cruzeiros, né? “Isso aqui vale muito mais.” […] Falei com a mulher: “Você dá um dia inteiro pra produzir uma moringa dessa, o Sesc pode pagar mais. O que vocês acham de eu pagar 25 cada uma?”.

Elas levaram um susto, porque tinha um cara de São Paulo que tinha uma loja de decoração de alto luxo. Elas falaram: “O fulano vem aqui, a gente pede 17, ele fala: ‘Ih, mas eu vou vender por 20, quebra alguma no caminho, não sei o quê, deixa por 13’”. Acabava pagando 14, 15, inclusive. Cheguei aqui e fiz questão de ir na loja dele.

Andriolli Costa — Quanto ele vendia, né?

Mouzar Benedito — A mais barata era 180.

Andriolli Costa — Nossa Senhora.

Mouzar Benedito — Voltei lá pro Vale do Jequitinhonha pra falar isso pras mulheres: “Pô, esse cara é um enganador, ladrão. Roubar dos burgueses de São Paulo, tudo bem, não tenho nada contra. Mas roubar de vocês, pô! Vocês trabalham o dia inteiro pra ganhar… Às vezes racha uma moringa dessa”.

Andriolli Costa — Perde o dia de trabalho.

Mouzar Benedito — Ganhar 17 cruzeiros, o cara até paga menos.

Andriolli Costa — E vende por dez vezes o preço, né?

Mouzar Benedito — Mais de dez vezes o preço. Então tinha isso. Na feira também a gente trouxe 49 grupos de bailado, desde o boi de mamão de Santa Catarina até ciranda de Pernambuco. […] Caiapó de Minas Gerais. Tinha 49 grupos que a gente trouxe e também um monte de artesãos trabalhando na produção dos seus artesanatos ali.

Uma tecelã de Minas, um cara que produzia de barro, de outros estados e tudo. Foi uma coisa maravilhosa, sabe? No ano seguinte teve uma continuidade disso, ia ser a segunda Feira da Cultura Popular. Fotografamos mais ainda, compramos duas mil peças pra montar o Museu da Cultura Popular.

Nessas viagens aproveitava também pra fazer matérias no jornal Versus, que não tinha dinheiro, e organizar a distribuição. Por exemplo, em Manaus, quando cheguei lá, procurei um grupo, Márcio Souza, que depois virou escritor, pra distribuir o jornal em Manaus. Em Salvador pedi a um amigo pra distribuir o jornal na Bahia. E assim foi. Organizei a distribuição num monte de lugar. No Pará, jornalistas de esquerda pra distribuir o jornal.

Eles ganhavam um pouquinho pra fazer a distribuição também, então ajudava o pessoal até a montar seus próprios jornaizinhos. Porque é uma época que tinha imprensa alternativa em todo lugar. Ia fazendo matéria assim.

Nesse segundo ano, quando cheguei no Acre pra fazer a pesquisa de cultura popular, tinha acontecido o primeiro empate em que houve a morte de dois jagunços. Foi em 76, tempo que o Chico Mendes estava se reforçando…

Andriolli Costa — Começando ali, né?

Mouzar Benedito — Conseguindo organizar o pessoal. Num seringal onde os jagunços… Lá tudo é conhecido como paulista, os fazendeiros, os grileiros de terra que recebiam terra de mão beijada da ditadura. Por exemplo, tem um cara que recebeu 500 mil hectares de terra e dentro tinha vila, tinha tudo. O pessoal chegava lá, contratava jagunços, expulsava todo mundo e matava quem resistia. O pessoal estava lá desde 1900 […], cearenses e tudo mais.

Rio Branco tava uma cidade inchada de gente morando ali por causa de gente expulsa do campo. Aí num seringal teve a primeira resistência contra os jagunços e morreram dois jagunços num tiroteio. Entre eles, um que liderava todos os jagunços dos paulistas. Chamavam os grileiros tudo de paulistas.

Soube disso, um jornalista de lá me falou. No dia seguinte ia arrumar uma carona pra ir pro seringal, fazer matéria pro Versus, com gravador, máquina fotográfica, mochila nas costas. Só que tinha que andar alguns quilômetros até chegar na casa do cara que ia de caminhonete pra esse lugar.

Isso era seis horas da manhã, 40 graus de temperatura, mais ou menos. Escorreguei, caí e quebrei a perna.

Andriolli Costa — Caramba.

Mouzar Benedito — Depois disso voltei pra São Paulo. Fiquei afastado do trabalho, mas continuei orientando um pouco. […]

Andriolli Costa — Você foi afastado por ter caído e quebrado a perna.

Mouzar Benedito — É. Falei: “Que pena que foi às seis horas da manhã. Se fosse mais tarde eu já tinha tomado umas, aí ficava com o corpo mole”. Mas não, tava sóbrio de tudo, firmei pra tentar…

Andriolli Costa — Firmou e quebrou.

Mouzar Benedito — Quebrou. Quando cheguei em São Paulo, essa mesma mulher que estava organizando as feiras da cultura popular tava convencendo o Sesc de que ia criar o Museu da Cultura Popular e me encarregou de fazer isso. Comecei a me organizar pra fazer esse troço. Só que fui demitido por causa de uma matéria que publiquei no Pasquim […].

Andriolli Costa — No Pasquim, não era nem nesses outros que eram mais revolucionários, né?

Mouzar Benedito — Não, fiz uma gozação lá e o cara não gostou. Ele já vinha me perseguindo pela minha coluna que tinha no Versus. Eu era um dos editores do Versus e tudo.

Andriolli Costa — O que era a piada no Pasquim?

Mouzar Benedito — Os comerciantes, a liderança do empresariado da área do comércio. […] […] A Arena era o partido da ditadura, né? […] Sobre uns comerciantes que tinha aí. Então fui demitido.

Nota da edição: as referências ao “Sesi” neste trecho da transcrição foram corrigidas para Sesc. Em outro relato sobre o episódio, Mouzar identifica Gláucia Amaral como coordenadora das feiras de 1976 e 1977 e situa nesse trabalho o projeto de museu interrompido após sua demissão. O título do texto publicado no Pasquim não pôde ser estabelecido com segurança a partir da transcrição. A data da viagem ao Acre e o confronto específico mencionado acima não foram confirmados.

Andriolli Costa — Até porque não por acaso a gente fala que é uma ditadura civil-militar. O civil muito por causa do apoio do patronato.

Mouzar Benedito — É, claro, eles que apoiaram, né? E não só fui demitido como entrei na chamada lista negra. Qualquer lugar que arrumava emprego, os caras falavam: “Você começa segunda-feira”. Mas nesse período iam consultar meu patrão anterior. Aí: “Me desculpe, mas a vaga já foi preenchida”. Tive que mudar pro Rio de Janeiro.

Morei nove meses no Rio de Janeiro, mas também num trabalho de viagem. Foi um trabalho muito interessante. É gozado, uma beleza o tempo que não tinha internet. Hoje em dia, se tiver que virar clandestino, não tem jeito. Aqui em São Paulo tava na lista negra dos patrões, da polícia e tudo mais. Lá ninguém nem sabia. Podia ter usado outro nome que não ia ter problema.

Me apareceu emprego no Mobral, que era órgão do governo. Só que tinha uma ação comunitária do Mobral que era muito boa. Eles tinham um projeto de estudar as causas do analfabetismo nos municípios mais problemáticos do Brasil. Peguei pra fazer isso. Puta, foi também um contato com um tipo de gente… Sabe o que é viajar o município inteiro, de casa em casa, vendo se tem analfabeto, conversando com o povo pra saber o que tem?

Peguei o município de Barra, na Bahia, e […] no Ceará, por exemplo. Nossa, o que aprendi disso foi uma coisa… É gozado: eu não dou desconto pros caras que tentaram me ferrar, porque queriam me ferrar, mas cada vez que tentaram me ferrar me serviu pra eu aprender mais.

Aí que falo que a ditadura me ferrou, mas também o que pude sacaneei. Outra vez, depois disso, quando voltei pra cá, fui trabalhar no Senai, mas descobriram de novo lá, me demitiram de novo. Acabei tendo que ir pra Brasília. Umas coisas malucas.

Andriolli Costa — Vamos aproveitar e falar um pouquinho sobre cultura na ditadura. Uma coisa que estava vendo: quando assume a ditadura, a Comissão Nacional de Folclore é fechada porque era um antro de comunistas. Ao mesmo tempo, depois, quando ela reabre, tem muito trabalho pra criação de museus. Os militares foram trabalhar muito com museus de culturas. Tenho a impressão de que é porque o museu é uma coisa estática, que tá lá, inofensiva, diferente dessa cultura popular que é revolucionária, mobilizadora, né?

Nota da edição: não foi confirmada a informação de fechamento e reabertura da Comissão Nacional de Folclore. É preciso distingui-la da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, da qual Edison Carneiro foi afastado após o golpe de 1964. O afastamento está registrado no estudo de Gustavo Rossi sobre sua trajetória. A formulação da pergunta foi preservada como parte da conversa.

Mouzar Benedito — Eles encaram o museu como uma coisa assim, mas a gente, por exemplo, no Museu da Cultura Popular ia ter exposição, mas ia ter gente trabalhando em oficinas, apresentações musicais. Enfim, pensava em organizar um lugar pra reunir todo mundo que faz embolada, outro lugar pra reunir o pessoal que produz outro gênero musical qualquer, chorinho e tudo mais.

Era pra ser uma coisa muito viva e com muito debate também, estudos. Não era uma coisa estática. Mas na cabeça dos militares era uma coisa estática. Acho que pode ser isso que fizeram. Mas a gente tinha uma vida cultural intensa também, uma cultura de resistência.

Aliás, é uma coisa que sinto mais problemática agora. A gente vivia um tempo de utopia. Quem era contra a ditadura tinha utopias e trabalhava em cima dessas utopias. Agora estamos vendo um tempo de ódio à cultura, inclusive por parte de boa parte do povo. Parece que, se você fizer qualquer atividade cultural, você é um…

Andriolli Costa — Vagabundo, né?

Mouzar Benedito — Vagabundo, um cara perigoso, que merece morrer na tortura e tal. A cabeça deles funciona assim hoje. Perdeu-se muito aquela utopia coletiva, as pessoas estão muito individualizadas. Um colega que vai fazer vestibular não é considerado um amigo pra gente tentar entrar junto na faculdade. O cara vê o outro como adversário.

No trabalho: “Alguém vai ter que ser demitido, que seja o outro”. No meu tempo, quando demitiam alguém por motivo político, às vezes…

Andriolli Costa — Saía todo mundo.

Mouzar Benedito — Todo mundo. Vários casos assim. Acontecia muito disso também, de protesto. A gente tinha uma resistência, procurava criar muita coisa, como os jornais da imprensa alternativa. Entrei na faculdade exclusivamente com a intenção de fazer jornal alternativo.

Tinha pessoal que ia fazer arte dramática, pensava em fazer um teatro de periferia pra, a partir dali, criar um clima de revolução cultural. Agora você pega: “Tá fazendo o curso por quê?”. “Quero trabalhar na novela da Globo.” Jornalista quer fazer por quê? […]

Tem muito disso. Ainda não começou a desgraça total. Vamos ver como vai ser, como vai funcionar. Espero que a gente consiga se organizar e ter um mínimo de união das pessoas que não gostam do que vem aí. Não ficar a gente brigando entre nós, né?

Andriolli Costa — A imagem que o artista passa, como ela foi degradada… A gente vê pelas exposições, a discussão sobre o Queermuseu, como se fosse uma arte pervertida. Só que se perde a ideia do que é a perversão: perverter as normas, perverter…

Mouzar Benedito — Quando os caras falam: “Não pode ter ideologia”, a ideologia deles é ter ideologia de direita só. Tem ideologia, eles consideram, o resto, quem não pensa igual a eles. É uma coisa terrível.

Você vê, o Chico Buarque foi um cara que ajudava a gente a respirar durante a ditadura. Cada música que fazia parecia que era eu que tinha feito. […] Quando conseguia passar pela censura, enganar a censura em alguma coisa.

Recentemente, quando fizeram um filme sobre o Chico Buarque, tem um amigo que saiu do cinema tão extasiado que, no dia seguinte, comentou com uma mulher que tinha morado na Espanha. Aparentemente tinha uns 40 anos, comentava coisas da Espanha, da França, que fez isso, fez aquilo. Falou pra ela: “Nossa, fui no cinema ontem, saí com orgulho de ser brasileiro”. “Ah, é? Que filme você foi ver?” “Aquele do Chico Buarque.”

Ela fez uma cara de nojo: “Mas você foi ver? No Facebook recebi mensagem falando que a gente não pode ver esse filme, que o Chico Buarque é isso e aquilo”. Puta, ele ficou pasmo. […] “Pô, mas você tem um guru no Facebook, um imbecil falando uma coisa dessas?” Mas tá assim, o clima é esse.

Andriolli Costa — A gente começou a entrevista falando da importância de ouvir. E como os ouvidos parecem moucos, né? Parecem surdos.

Mouzar Benedito — É gozado, vi uma charge da Folha que achei perfeita. O cara pôs assim: antigamente se dizia que as paredes têm ouvidos. Agora pode dizer que os ouvidos têm paredes.

Andriolli Costa — Ah, legal, hein? Excelente. Parece que é isso, né? E qual foi o fim do Museu da Cultura Popular?

Mouzar Benedito — Pra você ver: quando tava pra fazer isso, era considerado o melhor projeto que tinha, o maior projeto que tinha no Sesc. Quando fui demitido por causa disso, ele abortou o museu. Já tinha 1.500 mais duas mil, já tinha 3.500 peças pra esse museu.

Depois soube que no fim do ano — isso era fim de novembro, começo de dezembro —, uma boa parte daquelas mais bonitas, mais caras, ele deu de presente de aniversário pros amigos dele, de presente de fim de ano pros amigos dele. Algumas foram parar em unidades do Sesc, uma ou outra. Mas abortou totalmente a ideia, não teve mais. É uma pena. Não sei se você conhece o Museu do Folclore lá no Rio de Janeiro.

Andriolli Costa — Fui lá uma vez, mas faz muito tempo.

Mouzar Benedito — É bom, mas a gente ia fazer uma coisa bem melhor, bem mais…

Andriolli Costa — É contido, né? Um espaço mais contido. Aqui também tinha o Museu do Folclore, em São Paulo.

Mouzar Benedito — É. O folclorista Rossini Tavares de Lima encarava aquilo como uma propriedade dele. […]

Andriolli Costa — Era uma coleção particular, como se fosse.

Mouzar Benedito — Era uma coleção. Por exemplo, na biblioteca que fazia parte do museu […]. Uma coisa desse estilo. Acabaram tirando o museu de lá, ele andou meio tentando funcionar em outros lugares. Lá tinha curso de folclore, essas coisas. Mas acabou fechando também, não tem mais.

Andriolli Costa — É uma coisa que falta muito, né? Mais ações de incentivo.

Mouzar Benedito — Falta. Porque, como escritor, quando o pessoal me chama pra fazer palestra em algum lugar, às vezes acham que posso viajar de avião pra não sei onde, pagar hotel, chegar lá, dar palestra, tudo por minha conta. Falo: “Gente, eu não tenho dinheiro”. Escritor não tem dinheiro. Tenho salário de aposentado do INSS. Livro não me dá quase lucro nenhum, nunca escrevi um best-seller.

Andriolli Costa — Vamos falar agora das suas obras escritas. Quantos livros você tem no total? Você sabe?

Mouzar Benedito — Olha, a minha mulher diz que livro meu tem uns 12 ou 13. Agora, juntando as abobrinhas, porque ela fala: “O resto é abobrinha”… Juntando as abobrinhas também, são 49 publicados. E tem mais que 18 na gaveta lá esperando chance de publicar também, né?

Andriolli Costa — Quais você mais destaca?

Mouzar Benedito — Meu primeiro livro, um livro de causos publicado numa época em que não se publicava muito causo, chama Santa Rita Velha Safada. Mas é porque a minha cidade chamava Santa Rita Velha antigamente. Então Santa Rita Velha é safada, quer dizer, a vila era safada. Não era a Santa Rita que era velha safada. Mas mesmo assim…

Andriolli Costa — Tá aí o humor que você tava dizendo, né?

Mouzar Benedito — É. O primeiro livro é gozado. Vai gente, todos os amigos, os inimigos querendo saber que porcaria esse cara escreveu. Fiz o lançamento aqui em São Paulo, vendi 360 exemplares no lançamento. Uma coisa grandiosa. Aí a editora falou: “Lança na sua terra também”. “Ah, vou levar uns 30 livros.” Ela: “Não, leva 200 livros.” “Você tá doida?”

A cidade nessa época já tinha 3.500…

Andriolli Costa — Olha, cresceu.

Mouzar Benedito — “Tá doida, levo 30 livros. Não vende mais do que isso.” Ela falou: “Não, mas você deixa na livraria lá”. “Você acha que tem livraria lá?” “Deixa na banca de jornal.” “Você acha que tem banca de jornal lá?” Então negociamos: “Vai levar 120 livros”. E não é que vendi os 120 livros lá?

Andriolli Costa — Vendeu? Olha só.

Mouzar Benedito — Foi no sábado à noite o lançamento. Domingo de manhã só tinha gente braba. Os caras se identificavam com os personagens ali. […] E até hoje. Escrevi em 83, publiquei em 87, o primeiro livro, o de Santa Rita.

Andriolli Costa — Santo de casa faz milagre?

Mouzar Benedito — Faz inimigos. Até hoje tem gente que me odeia lá por causa desse livro.

Aí escrevi um romance. […] Foi muito legal, me deu muita satisfação, foi Pobres, porém perversos, sobre a vida de imigrantes em São Paulo na época da ditadura também. Com humor também, tudo.

Achei interessante, muitas pessoas que leram, jovens… Vou dar um exemplo: um amigo chegou pra mim: “Pô, você fodeu a vida do meu filho”. “Como é que é?” “Você fodeu a vida do meu filho.” “Fodeu a vida do seu filho por quê?” “Pô, ele tava pra fazer vestibular de Agronomia, leu teu livro e foi estudar Geografia.”

Andriolli Costa — Legal.

Mouzar Benedito — Um monte de gente, o cara foi estudar Ciências Sociais, foi pra parte de Humanas. Esse livro me deu muita satisfação, entendeu? Não teve que dar dinheiro pra mim. Fui publicando outros, depois entrei mais numa fase de publicar sobre a ditadura. Publiquei um primeiro que se chama Ousar lutar: memórias da guerrilha que vivi.

Andriolli Costa — Como chamava?

Mouzar Benedito — Ousar lutar, com o subtítulo Memórias da guerrilha que vivi. Tem um conterrâneo meu que foi preso político pelo sequestro do embaixador alemão, do suíço e outras coisas. Era condenado a duas prisões perpétuas mais 69 anos de cadeia.

Quando abriu a fase de poder visitar ele, porque um tempo era muito fechado, todo mundo que ia visitar falava: “Nossa, Zé Roberto, vai ter que morrer duas vezes e viver mais 69 anos pra cumprir sua pena, né?”. Ele morreu quando o livro tava na gráfica.

Andriolli Costa — Morreu preso?

Mouzar Benedito — Não, ele saiu. Foi depois que saiu que escreveu esse livro. Ficou oito anos e sete meses […]. Não foi que ele foi anistiado, mas as penas eram tão absurdas que, quando tava caindo a ditadura, teve uma revisão de penas. Duas prisões perpétuas mais 69 anos viraram 15 anos. Ele já tinha oito anos e sete meses, então saiu na condicional e foi pra Belo Horizonte. Esse livro foi reeditado pela Boitempo, foi pela Boitempo a primeira e a segunda edições.

Nota da edição: Ousar lutar: memórias da guerrilha que vivi tem autoria de José Roberto Rezende e Mouzar Benedito. O catálogo da Boitempo registra a primeira publicação em 2000 e informa que Rezende morreu em agosto daquele ano, pouco antes do lançamento.

Mouzar Benedito — Aí escrevi vários livros sobre a ditadura. Também, quando fundamos a Sosaci, começamos a ver que tinha muita falta de livro nessa área da mitologia brasileira. O Ohi e eu começamos a publicar livros sobre esse assunto. E tem muitos livros de causos.

Andriolli Costa — Você escrevia causos antes da Sosaci?

Mouzar Benedito — Bem antes da Sosaci. O primeiro livro… A Sosaci foi fundada em 2003.

Andriolli Costa — Praticamente 20 anos depois.

Mouzar Benedito — É. Escrevi também um perfil biográfico do Meneghetti, o grande ladrão.

Andriolli Costa — Quem é Meneghetti?

Mouzar Benedito — Meneghetti foi o maior ladrão da história de São Paulo. Era italiano, mas veio pra cá, virou um mito aqui. Diziam que usava mola nos pés. Quando a polícia cercava a casa em que tava, ele pulava lá do alto, batia o pé com a mola no chão e caía na casa do outro lado. Claro que teve gente que falava pra mim que viu isso. Obviamente era mentira. Mas, quando descobri ele, ele existiu mesmo.

Lá em Minas Gerais eu já ouvia falar, quando alguém roubava alguma coisa: “Ô, Meneghetti!”. Quando era criança. Mas a base dele é aqui em São Paulo.

Andriolli Costa — Em que ano ele viveu?

Mouzar Benedito — Nasceu no final do século XIX, viveu até 70 e pouco. A última tentativa de roubo que teve foi aqui ao lado da Livraria da Vila. Tentou arrombar aqui e foi preso com 90, 80 e tantos anos também.

Escrevi um perfil biográfico dele. O grande detalhe interessante é que era um cara humanista, anarquista, contra a violência. Não assaltava a pessoa, furtava. Invadia casa de altos burgueses e roubava joias, obras de arte… Obras de arte não, é meio difícil, né? Mas joias e armas.

Andriolli Costa — Armas?

Mouzar Benedito — Armas também, que vendia. Usava arma, mas nunca dava tiro. Você tem ideia: ele teve dois filhos, um se chamava Lenine, o outro Spartacus. Um cara muito interessante, bom dançarino, as crianças gostavam muito dele, as mulheres gostavam muito dele também. Então esse foi um perfil biográfico que fiz.

O outro foi sobre o Barão de Itararé, um gaúcho humorista. Pra provar que ser de esquerda não é ser ranheta. Pode ser muito bom humorista. Os assuntos são os mais variados. Sobre a dívida externa, pra movimentos populares, pro pessoal dos movimentos populares entender […].

Outro perfil biográfico que escrevi foi o Luiz Gama, um abolicionista.

Andriolli Costa — Tá voltando com tudo, né? Agora tem um filme, acho, inspirado na história do Luiz Gama.

Mouzar Benedito — Ouvi falar que estão fazendo isso. Tem uma editora chamada Expressão Popular que escreve livros pra militantes. Escrevi pro povão. Uma coleção chamada Viva o Povo Brasileiro. Os primeiros livros eram pra vender a três reais, só pra qualquer pessoa poder comprar, sobre pessoas que deveriam ser estudadas na história do Brasil e não são. Me pediram pra fazer sobre o Luiz Gama.

Fiz e gostei muito também. Ele e a mãe dele, mas da mãe não tem muita informação. Uma revolucionária baiana, africana na verdade, né? Morava na Bahia, a Luiza Mahin. Era uma negra livre, mas que participou de todas as rebeliões negras do início do século XIX ali na Bahia. Dele também foi outro livro que escrevi. Sem ganhar nada também, de graça, porque era pro movimento popular. Como o do Barão de Itararé também, pro movimento popular, não cobrei nada.

Nota da edição: a participação de Luiza Mahin em “todas” essas rebeliões não é historicamente comprovada. Pesquisas divulgadas em 2025, posteriores à entrevista, trouxeram documentos que Lisa Earl Castillo e Wlamyra Albuquerque identificam como registros da mãe de Luiz Gama. Neles, Luiza aparece como escravizada, contrariando a descrição de “negra livre”. As pesquisadoras também ressaltam a ausência de indícios de que tenha lutado na Revolta dos Malês ou na Sabinada. Veja a reportagem sobre os documentos e as conclusões das pesquisadoras. A fala original foi mantida como registro da entrevista.

Mouzar Benedito — Você vê que fico assim, né? Não é à toa que não tenho grana. Não tenho coragem de cobrar de pobre.

Andriolli Costa — E quando o pobre quer cobrar pouco, você paga mais, né?

Mouzar Benedito — Alguns eu dou o livro, quando vejo que as pessoas gostam de ouvir, mas não têm dinheiro […].

Andriolli Costa — E o livro do Caminho do Peabiru já saiu?

Mouzar Benedito — Tá escrito, esse livro. Podia ter publicado com uma editora vagabunda, mas foi escrito a quatro mãos, o Ohi e eu. A ideia foi do Ohi, fazer esse livro. Estudou muita física quântica pra fazer uma parte do livro. Eu estudei muita cultura guarani, cultura inca, do próprio Caminho do Peabiru, pra fazer esse livro. Ficou um romance juvenil de que gosto muito, mas não tá publicado ainda. Quero publicar por uma editora que preste.

Andriolli Costa — Em 2003 vocês se juntam pra fundar a Sosaci. Quem são os seus fundadores?

Mouzar Benedito — Umas 13 pessoas. Tava lá o Ivan Vilela, uma turminha de Taubaté, uma turminha de São Luiz do Paraitinga, Vladimir Sacchetta, Márcia Camargos.

Andriolli Costa — Biógrafos de Lobato, né? Os dois?

Mouzar Benedito — É, os dois são biógrafos de Lobato. Reunimos lá.

Andriolli Costa — Você, o Ohi…

Mouzar Benedito — O Ohi entrou em seguida.

Andriolli Costa — Ah, o Ohi foi depois?

Mouzar Benedito — Logo em seguida. Ele não tava nem sabendo o que tava acontecendo. Se tivesse, já teria ido também. Mas lá mesmo: “Nós temos que criar um símbolo pra Sosaci. Quem tem que fazer isso é o Ohi”. O João Amado, que é um jornalista antigo, falou também: “Tem que ser o Ohi pra fazer isso”. Aí já chamou o Ohi, já ficou.

Foi em julho de 2003, numa noite gelada, geladíssima. O que a gente consumiu de conhaque, cachaça pra fazer a Sosaci… No ato da fundação já surgiu a ideia de comemorar 31 de outubro como Dia do Saci e seus amigos.

Andriolli Costa — O “seus amigos” é sua proposta mesmo?

Mouzar Benedito — Alguém falou: “Tem o Saci”. Falei: “Não, mas só o Saci?”. Tem todos esses mitos ligados à cultura popular brasileira, indígena principalmente. Tem que fazer parte disso. No 31 de outubro de 2003 nós já fizemos a primeira festa.

Andriolli Costa — Já teve festa no primeiro ano?

Mouzar Benedito — Já teve. Antes da primeira do Saci mesmo, teve o Grito do Saci. Em 7 de setembro teve o Grito do Saci.

Andriolli Costa — Vi uma matéria disso que o Ohi mandou. Muito legal.

Mouzar Benedito — O grito pra se contrapor ao Grito da Independência. Nessa festa do Grito do Saci já decidimos fazer a festa de 31 de outubro e pedimos pros compositores da cidade fazerem músicas específicas sobre o Saci. Apareceram sete músicas. Gravamos um CD.

Andriolli Costa — Ah, é? Se você tiver, depois me manda o link.

Mouzar Benedito — O Ohi tem.

Andriolli Costa — O Ohi tem? Vou falar com ele.

Mouzar Benedito — São Luiz é uma cidade muito musical, por isso a gente escolheu lá. Aliás, a proposta de ser lá… Encontrei com a Márcia Camargos e o Vladimir Sacchetta, tava conversando com eles sobre as coisas do Saci, fazendo umas piadinhas, brincando. Já existia a Associação Nacional dos Criadores de Saci antes. Falei pra Márcia: “Tem uma coisa que me incomoda: esse negócio de criar Saci em gaiola…”.

Andriolli Costa — Garrafa. Isso me incomoda também.

Mouzar Benedito — A gente podia fazer… Tem uns gringos que têm aquele negócio de observar pássaros. Podia fazer uma coisa de observadores de Saci. “Boa ideia, vamos fazer isso.” Falei: “Mas fazer em São Paulo não tem graça. São Paulo […] não tem mais essa cultura […]”. Ela falou: “Onde seria?”. Falei: “São Luiz do Paraitinga”.

Andriolli Costa — Você já conhecia?

Mouzar Benedito — Ajudei a refundar o Carnaval de lá e tudo. Frequento lá. […]

Andriolli Costa — Ah, é? Não sabia.

Mouzar Benedito — A primeira vez que fui lá foi quando entrei na faculdade, em 67. Depois, de 80 em diante, ia todo ano no Carnaval e em outras épocas.

Andriolli Costa — Inclusive hoje temos um Bloco do Saci no Carnaval, né?

Mouzar Benedito — Tem, tem lá […] tem tudo isso. Falei: “Vamos fundar lá”. Ela: “Mas por quê?”. “É uma cidade bonita, tem uma cultura caipira muito forte, é muito musical.” “Você conhece gente lá?” “Conheço.”

Marcamos um encontro no Bar Sol Nascente, do João Amado e da Alice. Telefonei pro João Amado, ele topou. Fizemos uma reunião no sábado à noite, esse sábado de julho de 2003, e fundamos. Ficou funcionando. Eu não queria legalizar a Sosaci, queria que fosse uma coisa anárquica. Mas o pessoal resolveu registrar tudo, fundar como organização.

Andriolli Costa — Como uma ONG, né?

Mouzar Benedito — Uma ONG. Como? ONG: organização não capitalista. Resolveram fundar oficialmente. Acho que tem muita vantagem, conseguimos fundar com isso um ponto de cultura […], conseguimos fazer um monte de coisa. Mas acho que burocratiza um pouco. Não queria que fosse isso, mas foi, perdi, ganhei. Fundou, tudo bem.

Nota da edição: a fundação da Sosaci ocorreu em julho de 2003, em São Luiz do Paraitinga. As ocorrências isoladas de “2013” e “21 de outubro” na transcrição foram ajustadas para 2003 e 31 de outubro, conforme o restante da própria conversa e o relato da fundação publicado no Colecionador de Sacis. “Organização não capitalista” é a formulação bem-humorada de Mouzar para ONG.

Andriolli Costa — A sede da Sosaci fica sendo o Bar Sol Nascente, lá em São Luiz do Paraitinga. Você me falou que teve um desastre lá em 2010, 2011.

Mouzar Benedito — É, no réveillon de 2010 teve uma chuva, fruto do desequilíbrio ecológico atual, mas com outras coisas mais. Uma coisa jamais vista ali. […] Desabou o mundo ali.

A cidade, uma coisa assim, caiu uma porrada de sobrados daqueles tradicionais, bonitos, patrimônio histórico. A igreja matriz caiu, uma igreja dos Passos também… Uma igrejinha famosa porque só tem duas igrejas no mundo que têm a Virgem Maria grávida. Uma delas é lá, Nossa Senhora das Mercês. A Igreja das Mercês também caiu.

Andriolli Costa — Nossa Senhora do quê?

Mouzar Benedito — Das Mercês. É onde fica em frente… O Sol Nascente mudou do outro lugar pra lá, pra em frente à Igreja das Mercês. A água subiu, ficou dois metros acima do telhado da nossa sede.

Nós tínhamos lá uma coleção de fotos, uma exposição com uns 70, 80 quadros cedidos por artistas plásticos sobre o Saci, camisetas de monte, adesivos.

Andriolli Costa — Material do General Tartaruga, imagino, né?

Mouzar Benedito — Do General Tartaruga tinha um pouco de material também, do Ditão Virgílio. Foi tudo pro beleléu, foi um desastre pra nós também. Deu um baque. A Sosaci vinha crescendo, cada festa que tinha lá multiplicava a quantidade de gente.

Tinha tanta gente disponível pra participar que tinha evento simultaneamente, três dias em seguida, na praça, no Largo das Mercês, no coreto, no mercado. E algumas vezes alguma coisa andando pela rua. […] Tudo de atividade cultural. Mas depois disso deu uma baqueada que até hoje a gente não conseguiu recuperar. Ainda mais que foi eleito um prefeito evangélico.

A prefeitura, apesar do lucro que é a festa pra cidade, não só não contribuiu como passou a atrapalhar. Por exemplo, nem aparelho de som a gente conseguia. A festa teve que diminuir, porque a Sosaci não tem dinheiro. Quem banca isso somos nós.

A prefeitura dava umas ajudas: “Pode trazer tal grupo”. Dava gasolina pro cara vir com ônibus, […] do Ivan Vilela, de Campinas, dava um almoço aqui, não sei onde. Aí não tinha mais nada disso. O cara passou a boicotar violentamente.

A gente, se tivesse dez mil reais, fazia uma festa monstruosa […]. O prefeito falava: “Não tem nem 500, não tem dinheiro pra pôr um serviço de som na praça”. Ao mesmo tempo pagava 60 mil reais pra cantor gospel desconhecido total.

Nota da edição: a enchente mencionada ocorreu no início de janeiro de 2010. A alegação de que só existiriam duas igrejas no mundo com imagens de Maria grávida não foi confirmada. Os danos ao acervo da Sosaci e os valores e decisões municipais mencionados são mantidos como depoimento de Mouzar, sem comprovação documental independente nesta edição. A explicação meteorológica contém trechos pouco claros na transcrição e não foi reconstituída.

Andriolli Costa — Isso da cultura a gente vê no próprio Rio de Janeiro, quando elege um prefeito que repudiou o Carnaval, não vai ao Carnaval.

Mouzar Benedito — Pois é. O que se falava da Idade Média, “foi a idade das trevas”, não sei o quê… Acho que no Brasil a gente tá vivendo a idade das trevas mesmo, de verdade. Tá entrando na idade das trevas.

Andriolli Costa — E vocês fundam a Sosaci também numa resposta ao americanismo do Halloween?

Mouzar Benedito — Invasão cultural, né?

Andriolli Costa — E hoje a gente bate continência, né?

Mouzar Benedito — É. Uma coisa que sempre digo: uma das formas mais eficientes de dominar um povo é acabar com a cultura dele, a religião dele, as crenças dele. Os portugueses fizeram isso aqui, transformaram todos os mitos indígenas em demônios. Tem essa coisa que vem dos Estados Unidos, não existe ingenuidade nisso.

Tem um historiador da PUC de São Paulo, sobrenome dele é Tota, […] que escreveu um livro chamado O imperialismo sedutor. Mostrou, com base na documentação que descobriu nos Estados Unidos, tudo: até cantor que vinha pra cá na década de 50, na época da Guerra Fria, vinha com propósito de achar um lugar pra encaixar, introduzir o domínio dos Estados Unidos. Voltavam pra lá e faziam relatório.

Os caras vinham aqui, todos bonzinhos, o quintal, né? Mandavam o cara aqui pro quintal deles. Vinha e dava de bonzinho: “Amo o Brasil”, samba, não sei o quê. Chegava lá e fazia relatório: “Olha, o caminho pra dominar ali é tal coisa”. Entendeu?

O Halloween chegou com as escolinhas de inglês dos Estados Unidos, não as inglesas. Foi dominando as mentes até chegar a um ponto… Em São Luiz do Paraitinga mesmo, antes de 2003, tava tendo festa de Halloween em escolas públicas rurais.

Andriolli Costa — Nossa.

Mouzar Benedito — Ninguém sabia o que era aquilo, mas recebia recomendação pra fazer a festa de Halloween. “Por que isso?” “Ah, não sei.” Então estava isso. O fato de a gente escolher 31 de outubro como data do Dia do Saci é simbólico, não foi por acaso. Tem gente que fala: “Mas por que não dia 22 de agosto, que é Dia do Folclore?”.

Não, não é folclore. É uma resistência cultural e nós vamos resistir. Então o dia 31 de outubro é dia de resistência cultural brasileira. […]

Nota da edição: o livro citado é O imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na época da Segunda Guerra, de Antonio Pedro Tota, publicado em 2000. Seu foco é a política cultural dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, não especificamente a década de 1950. Veja a resenha publicada em Projeto História, da PUC-SP.

Andriolli Costa — De 2003 pra cá, o que você andou trabalhando, o que andou produzindo?

Mouzar Benedito — Produzindo livros. Fui perdendo… Tinha colunas em algumas revistas, crônicas publicadas.

Andriolli Costa — Você tem na Fórum ainda?

Mouzar Benedito — A Fórum, quando era publicada em papel, eu era o cronista dela. Foi fundada durante o primeiro Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Pouco tempo depois me chamaram pra ser o cronista da última página.

Também a Revista do Brasil, da mesma época, comecei a fazer crônicas e mais alguns lugares. Mas aí foi perdendo, essas revistas escritas foram fechando, perdendo espaço, acabando com crônicas e tudo. Foi ficando, fora os livros que publico, blogs. E participo de atividades quando me chamam pra algum lugar que é viável.

Andriolli Costa — O Blog da Boitempo tem uns textos seus de vez em quando.

Mouzar Benedito — O Blog da Boitempo e o blog da Fórum também. De vez em quando tem feiras de cultura, feiras literárias. […] Fui duas vezes, Poços de Caldas, outros lugares.

Teve uns shows que montaram com base no livro que fiz sobre tropeiros. O Quarteto Pererê e a Márcia Mah montaram um show. Pensando, imaginando… Porque o tropeiro não levava só mercadoria, levava cultura também. Imaginaram as músicas que iam de um lado pro outro. Montaram um show e eu ia com eles também pelo interior de São Paulo, fazendo bate-papo no show, com as músicas.

Andriolli Costa — Que legal.

Mouzar Benedito — Ano passado também fui em São José do Paiaiá, na Bahia, onde um amigo meu fundou a maior biblioteca em comunidade rural do mundo. Uma cidade não, um povoado de 600 habitantes, tem uma biblioteca de 120 mil.

Andriolli Costa — Nossa.

Mouzar Benedito — Mas não é um depósito de livros, não. Ele fica fazendo atividades, chamando, trazendo gente […] pra pegar o hábito de ler. Fui lá numa atividade, fiquei maravilhado com a coisa. Era criançada que não tinha acesso a livro, nunca tinha entrado na biblioteca, e de repente tinha acesso a tudo que queriam, além de brincadeiras, shows, teatrinho e tudo mais.

Nota da edição: a descrição da biblioteca e os números de moradores e livros correspondem à lembrança da visita narrada por Mouzar. A classificação como “maior biblioteca em comunidade rural do mundo” não foi verificada por um levantamento comparativo internacional.

Andriolli Costa — Muito legal. A primeira vez que quase encontrei com você foi em Mococa, aqui no interior de São Paulo. Quando cheguei, o pessoal contou: “Você perdeu o Mouzar por uma semana. Ele é jurado de concurso de cachaça, a gente levou ele pra fazer uma ronda nos alambiques aqui e ele se divertiu”. […] Como é isso de ser jurado de concurso de cachaça?

Mouzar Benedito — Também dessa forma. Sempre tem um amigo… Como um amigo meu falou que eu era o cara que mais entendia de cultura popular. A prefeitura de Sabará, na época, em 80 e pouquinho, resolveu fazer um festival pra escolher a melhor pinga de Minas Gerais. Fizeram uma seleção lá entre eles, sobraram 14 pingas.

Um amigo meu que me conhecia: “O cara que mais entende de pinga do Brasil é o […]”. Me chamaram pra ir lá, uma semana antes do Carnaval de 86, por aí. A gente foi na feira, uma barraquinha com as 14 pingas que tinha. Punham meia dose de pinga pra cada um e os jurados iam dando nota. Só que meia dose de pinga em Minas Gerais é mais do que uma dose de São Paulo.

Tomava água, tinha tira-gosto também, pra ir pra barraca seguinte. Chegava em algumas barracas que tinham uma pinga muito boa, falava: “Opa, essa meia dose não deu pra sentir ainda”. Mais meia. Quer dizer, tomei 14 meias doses e… Ganhou uma pinga chamada Havana, que ficou famosa. Começou a ficar famosa. Tenho culpa do preço dela, que chegou a mais de 400 reais a garrafa.

Começou a ficar famosa lá, por causa disso, vencedora, a melhor pinga de Minas Gerais, que é a melhor pinga do Brasil na época, pelo menos. Até hoje uma das melhores pingas. O velhinho esperto, dono da Havana, só fazia sete mil garrafas por ano. Não adiantava você querer comprar 50 garrafas, não. Só no máximo duas garrafas por pessoa. Começou a ter uma procura enorme, foi aumentando de preço.

Andriolli Costa — Olha aí, pessoal. Vocês que acompanham a especulação do preço de roupa da Supreme, camisa de 400 reais, tênis a não sei quantos reais porque tem edição limitada… A Havana fazia isso lá há muito tempo.

Mouzar Benedito — Pois é. Fiquei com a fama de ser jurado de festival de cachaça. Quando o pessoal pede meu currículo, ponho dois pontos ultragloriosos no meu currículo.

Andriolli Costa — Ah, você fez curso de dança…

Mouzar Benedito — Não, isso fiz, mas não. Os dois pontos gloriosos no meu currículo foram ser jurado do festival de cachaça de Minas Gerais e fundar a Sosaci.

Andriolli Costa — À base de cachaça e conhaque, né?

Mouzar Benedito — À base de cachaça e conhaque.

Andriolli Costa — Muito bom. E qual é a melhor cachaça que você recomenda pro pessoal?

Mouzar Benedito — Hoje em dia tá difícil, porque teve uma multiplicação da quantidade de cachaça que tá sendo fabricada. Agora tem uma coisa: a cachaça deixou de ser uma coisa maldita. Antes falavam que era coisa de preto e pobre. Hoje os caras cobram por uma dose de pinga, que chamam de cachaça pra parecer mais luxuoso, um valor muito absurdo.

Tem umas pingas famosas que nunca tomei. Me nego a pagar 40 reais numa dose.

Andriolli Costa — Tá certo.

Mouzar Benedito — Tem uma pinga em Minas Gerais que um amigo meu tá fazendo na minha terra, uma pinga de excelente qualidade. Custa 15 reais a garrafa no varejo. Aliás, no lançamento do livro aqui, vou trazer uma garrafa dela pra você. O nome dela é Furupa.

Andriolli Costa — Furupa?

Mouzar Benedito — É. Furupa era uma mulher que tinha na minha terra, uma mendiga. Mas todo mundo gostava muito dela. Almoçava onde queria, sentava… Chegava na casa do prefeito: “Hoje vim almoçar aqui”. Sentava na mesa. Ninguém nunca ousou maltratar ela.

A última vez que […] tava aqui em São Paulo, fui passear em Nova Resende, cheguei lá e perguntei: “E a Furupa, tá viva ainda?”. “Tá, tá morando na Rua São Paulo, […]”. Fui na casa onde tava morando. Fizeram uma casinha de fundo pra ela morar, com tudo, e na frente um casal pra cuidar dela.

Tinha isso de bom. Não era só com ela, não. Ela era o maior símbolo, mas todo maluco que aparecia por ali, mendigo, tudo era muito bem tratado. Falei: “Vou lá ver ela”. Cheguei umas nove horas da manhã. O nome dela era Ana, não gostava de ser chamada de Furupa.

Ela era cafuza também, mistura de negro e índio, tinha o cabelo curtinho. Minha mãe, quando era criança, falava que a Furupa já tinha aquela cara.

Andriolli Costa — Nossa Senhora. Viveu bastante.

Mouzar Benedito — Viveu bastante. Chamava Ana e, como tinha o cabelo curtinho, todas as mulheres na época tinham cabelo longo, o pessoal pegou lá: “Homem de saia”. Foi, pegou “Ana de Saia”. Era oficialmente Ana de Saia, mas também era Furupa.

Esse dia cheguei lá, queria falar com ela. “Ih, ela tá dormindo ainda. Já passou da hora de acordar. Vem aqui.” O cara foi entrando no quarto dela. “Caceta, mas não vai acordar ela, não, 101 anos aí, deixa ela dormir.” “É bom você ir conversando com ela, porque o pessoal que me contratou pra cuidar dela me deu como uma obrigação que todo dia, a hora que acorda, tem que ter uma garrafa de pinga pra ela, que ela toma uma por dia.”

Acordou. Outra coisa que fazia era fumar um pitinho de barro, fumo de corda. Acordou, me reconheceu […]. Acendeu o pito, começou a conversar, enquanto o cara correu na venda pra comprar pinga.

Andriolli Costa — Não estava no esquema ainda.

Mouzar Benedito — Pois é. E o fumo que fumava nessa idade… Na época eu fumava cachimbo. Tinha um cachimbo inglês, com fumo holandês. Uma vez encontrei com ela na praça, falei: “Vamos namorar um pouco aqui, Ana?”. Ela toda suja ali, sentamos num banco. Falei: “Bom, já que somos namorados, vamos trocar os pitos. Deixa eu dar uma pitadinha no teu, você dá uma pitadinha no meu”.

Rapaz, dei duas tragadas no pito dela, fiquei meia hora tonto.

Andriolli Costa — Nossa Senhora.

Mouzar Benedito — E ela na maior. Essa mulher. Então a pinga que meu amigo tá fazendo em homenagem a ela chama Furupa. Tem a foto dela no rótulo. Não digo que é a melhor pinga que tem no Brasil hoje, mas é uma pinga respeitada.

Andriolli Costa — Mouzar, pra gente ir encerrando: você hoje virou aqueles tropeiros que chegavam no salão do seu pai pra contar histórias, né? Quando percebeu que tinha virado essa chave, que agora você não era mais o que escutava, era o que contava?

Mouzar Benedito — Desde quando cheguei em São Paulo, com 16 anos, a gente já tinha o hábito de contar história também. Mas cada vez que fui viajando mais pelo Brasil fui aprendendo mais. Acho que a revelação mesmo foi em 1979, quando voltei do Rio de Janeiro pra morar em São Paulo.

A gente alugou uma casa numa rua chamada João do Rio. Uma rua de um quarteirão só, uma casa de cinco quartos, enorme. Juntamos cinco pessoas, alugamos aquilo lá. Eram três descasados, eu e uma velha maluca. Era muito legal morar num lugar assim, porque você nunca fica sem namorada, né? […]

Todo dia, toda noite, a gente reunia pra ficar contando histórias. Eu era encarregado de abastecer de cachaça, porque conhecia as fontes de cachaça boa. Só de cachaça comprava 30 a 35 litros por mês.

Andriolli Costa — Nossa.

Mouzar Benedito — Essas barriquinhas […] que usava pra descansar ela um pouco. Isso era só pinga […]. Underberg é uma bebida de que gosto, eu comprava também. Cerveja e vinho, cada um comprava um monte. Toda noite a gente ficava contando histórias.

Aí fui demitido mais uma vez do Senai, também por motivo ideológico, político. Me apareceu um trabalho na Assembleia Legislativa de São Paulo, na época da primeira eleição, 82. Em 83 arrumei emprego na Assembleia Legislativa, mas não gostei. Achei que foi o trabalho mais inútil que já fiz na vida. Pedi demissão, em plena recessão.

Mas fiquei tão feliz, tão feliz… As pessoas falavam: “Por que você não escreve esses causos que conta?”. Eu falava: “Ah, isso é bobagem”. Aí chegou um desses dias, meia-noite todo mundo foi dormir, porque todo mundo tinha que trabalhar, e só eu tava à toa. Tava alegrão, não conseguia… Parecia que tava num orgasmo perfeito, a alegria de sair da Assembleia.

Falei: “Não tenho nada que fazer, vou fazer uma matéria pro Pasquim”. Lembro que fiz uma matéria sobre o Barão de Itararé. Terminei às três horas: “Mas continuo sem sono. Vou escrever aqueles causos”. Escrevi 20 e poucos causos até sete horas da manhã. Na máquina de escrever, naquele tempo ainda não tinha computador, nada disso. Aí fui dormir.

Dormi até 11 horas da manhã, saí, levei uma matéria […] pra um jornal dos Estados Unidos, voltei à noite, mesma coisa. Meia-noite todo mundo foi dormir, fiz a matéria […] e, em três noites, escrevi o livro Santa Rita Velha Safada. Em três noites escrevi o livro Santa Rita Velha Safada, que foi minha revelação como contador de causos, escrito no caso, né? E que me deu muita alegria e muita encrenca.

Andriolli Costa — Maravilha, Mouzar. Muito obrigado por ter compartilhado com a gente um pouco dessa sua história.

Mouzar Benedito — Eu que agradeço. É bom reunir um dia em volta de uma mesa de cachaça, conversar mais.

Andriolli Costa — Vai ser um prazer. Assunto tenho certeza de que não falta.

Mouzar Benedito — Não falta também.

Andriolli Costa — Quem quiser te encontrar procura você onde?

Mouzar Benedito — Se for aqui em São Paulo, na Vila Madalena, nos botecos todo mundo me conhece. Nos botecos mais baratos, né? O Bar das Empanadas, tem um bar […] na esquina da Rua Fradique Coutinho com a Wisard. […] À noite tô quase sempre ali, tomando uma.

Pra quem quiser de fora, tem meu e-mail. Pode entrar no Blog da Boitempo, pode entrar no blog da Revista Fórum também. Ou pelo e-mail: mouzar, escreve M-O-U-Z, de zebra, A-R. Mouzar Benedito, tudo junto: mouzarbenedito @yahoo.com.br.

Deixe um comentário